O melhor roteiro é sempre o melhor filme – Parte 1


Casey Afleck e Lucas Hedges - Manchester à Beira-Mar - Foto: Divulgação

“Manchester à Beira Mar”

Há tempos parei de levar o Oscar a sério. Indicados, premiados, vestidos, discursos, homenageados pouco me interessam. Fico sabendo sempre de quase tudo en passant, com certo desdém, em atraso. Mas, há mais tempo ainda, tenho comigo uma teoria que se comprova em quase todas as edições da láurea: nunca perca os olhos dos vencedores dos prêmios de Melhor Roteiro Original e Melhor Roteiro Adaptado. Principalmente, óbvio, do filme originado de um texto novo, da trama escrita especialmente para o cinema, da ideia inusitada que saltou da cabeça de um cara criativo para as telonas. Historicamente, esses roteiros não vencem o Oscar de Melhor Filme porque quase nunca são promessas de grandes bilheterias. Mas sempre são os filmes mais surpreendentes, deliciosos (ou não) de serem assistidos por trazerem algo de novo, apontando caminhos para a sobrevivência da própria narrativa da indústria hollywoodiana, acrescentando-lhe um certo grau de inteligência e criatividade. O roteiro é a gênese de todo e qualquer filme, ainda que, na prática, algum dia tenha sido apenas uma ideia na cabeça.

Foi assim em 2017. Com o desinteresse crescente ano a ano, muito pouco soube dos resultados do último Oscar a não ser que um sensível e dramático filme sobre a questão racial negra tinha levado a estatueta mais cobiçada. Sem desmerecer ou irrelevar a qualidade do filme, logo que soube disso na manhã seguinte do evento veio-me à cabeça: mais uma premiação “política”, já que seria uma forma de compensação para a grotesca “gafe” do ano anterior em que nenhum dos indicados às principais categorias do Oscar era negro – o que, cá entre nós, também já me pareceu algo bastante “político” visto que estávamos em plena era pré-Trump com o seu crescente e inabalável discurso de ódio e preconceito. O Oscar aconteceu em fevereiro e o cabelo de calopsita conquistou a Casa Branca no novembro seguinte de 2016. Cada um tem a teoria da conspiração que merece. Eu tenho as minhas e os critérios do Oscar, para mim, sempre fizeram parte de uma lucrativa tramoia financeira extremamente mal ajambrada entre os executivos “Y Generation” da grande indústria cultural.

Bom, dito isto, num feriadão do ano passado, entrei num desses sites de filmes & séries online em que encontrei perdido num gigantesco rol de filmes imbecis “Manchester à Beira Mar” – do qual, em algum momento recente, havia ouvido falar bem. No alto da miniatura do cartaz digital estava estampada a famosa estatueta e mais alguns ramos de oliveira, o que sempre tipifica se tratar de um filme bem premiado. Diante da impossibilidade de encontrar algo melhor num site desses (o que inclui o Netflix), me propus a assistir “Manchester à Beira Mar”. Em menos de 20 minutos, já havia intuído: se algum Oscar levou, certamente teria sido o de Melhor Roteiro Original. Enquanto assisto cada vez mais interessado, dou um Google no celular e – Bingo! – “Manchester à Beira Mar” havia levado o Oscar de Melhor Roteiro Original de 2017, junto com o de Melhor Ator para o irmão do Ben Affleck, Casey Affleck.

O roteiro é simples e discorre sobre a incapacidade de se superar o sentimento de culpa. Por mais que a vida conspire a favor e te empurre no sentido da transposição de uma imensa dificuldade, a culpa se impõe e te joga no chão. A atuação do irmão do Ben é magistral. Mas é a personagem do sobrinho dele que conduz toda a trama. A jovialidade e a espontaneidade do rapagão compõem o contraponto ao anti-herói que é a personagem principal da história – um cara de quase meia-idade, muito sofrido e com uma imensa culpa nas costas. É o sobrinho que protagoniza os melhores diálogos e as mais cômicas cenas. É dele o surto de histeria em que, embora tenha passado impassível perante a morte do próprio pai, não contém o horror e o desespero de ver dentro do freezer o corpo de um frango congelado. Nesse momento, todo o sofrimento contido explode como sempre explodem os sentimentos na adolescência.

Também é dele a grande tirada do roteiro, quando deixa claro que não quer mudanças em sua vida mesmo depois da morte do pai, que deixou proventos suficientes para os dois viverem em Manchester, mas o tio insiste em mudar para Boston. “Todos os meus amigos estão aqui. Sou do time de hóquei e de basquete. Preciso agora cuidar do nosso barco. Eu trabalho dois dias por semana. Eu tenho duas namoradas. E faço parte de uma banda. Você é apenas um zelador de prédio no Quincy! Por que diabos você está preocupado com o lugar que você mora?”.  A pergunta atravessa o estômago do tio como uma afiada lâmina de faca. Sem reação, resta a ele desejar uma “boa noite” ao sobrinho. Corte. É em torno do enfrentamento entre a necessidade de se estar num lugar e a impossibilidade de se conviver com as lembranças que esse lugar produz que “Manchester à Beira Mar” desenvolve a sua delicada e instigante trama. Os diálogos são econômicos e viscerais, dando o ritmo e graça ao filme.

É nesse jogo de palavras que sobrevive o nosso anti-herói: um cara de quase meia-idade que havia deixado Manchester para morar em Boston por causa de um imenso trauma que estava sendo forçado a enfrentar novamente porque, com a morte do irmão, havia sido nomeado em testamento tutor do jovem sobrinho. O detalhe é que o falecido irmão não o havia avisado da decisão antes de morrer. A inusitada situação abre o caminho para que Affleck mostre, em uma atuação rica em nuances e transições de emoções, porque foi merecedor da estatueta de Melhor Ator no Oscar e no Globo de Ouro. Embora os diálogos se destaquem no roteiro, o nosso anti-herói é de poucas palavras, é monossilábico, é intimista ao extremo. Como a personagem não expõe os sentimentos em palavras, Affleck é forçado a manipular – e o faz com maestria – o seu silêncio, ditando o andamento e, contraditoriamente, dando maior brilho aos diálogos. É com olhares que vão do meigo ao lacerante que Affleck participa das conversas, cresce e se impõe.

O roteiro e a direção são assinados por Kenneth Lonergan, autor dos cultuados “Conte Comigo” (2000) e “Margaret” (2011). Ao remoer os doloridos sentimentos do nosso anti-herói, o diretor realiza uma cinematografia rara de se ver em Hollywood. Conduz com mão firme e inteligência um argumento que poderia facilmente cair num dramalhão, como nos filmes da Merryl Streep que fazem jorrar lágrimas mundo afora.

A direção é precisa e bem pontuada. Os flashbacks não só justificam como também engrossam o caldo das doloridas emoções do nosso anti-herói. Sem firulas ou maquiagens da realidade, “Manchester à Beira Mar” mostra um lado diferente de Hollywood e, talvez, seja o prenúncio de uma produção de filmes mais sensíveis e que tratem de pessoas banais, no lugar de super-heróis militarescos e a sua eterna cantilena da superioridade do espírito vencedor norte-americano. Talvez Hollywood esteja fazendo uma releitura da atual situação dos Estados Unidos e se permitindo a dar um pouco de sua atenção ao cidadão comum. Se assim o for, “Manchester à Beira Mar” cumpre a missão de precursora dessa suposta tendência com toda a dignidade.

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