A cultura do estupro, um muro para ser derrubado (urgente)

JuanaDobro

Falar sobre estupro é sempre necessário. Então vamos pegar o gancho desses tempos sombrios que vão de João de Deus à pastora Damares, apoios incondicionais à escola sem partido, caminhos contra a ideologia de gênero, presidentes casados com jovens mulheres, entre outros acontecimentos que se não lhe chocam, você deveria repensar seus conceitos (urgente). Quase todas as mulheres que conheço já vivenciaram algum tipo de violência doméstica. Notícias de feminicídio e abuso são, infelizmente, corriqueiras. Em uma roda de conversa entre amigas, questionamos se o número de agressões têm aumentado com as conquistas das mulheres na sociedade ou se apenas temos mais denúncias. Na verdade, esses dados não são precisos, muitas vitimas se calam (a maioria) e alguns tipos de agressões ainda são invisíveis e desconhecidas. Mas falar sobre isso é sempre essencial, e esse diálogo inclui pais, escola, sociedade e crianças também. As estatísticas do nosso país são alarmantes e tratar isso como tabu ou fantasia na educação das crianças pode tornar essa realidade ainda mais grave.

“A omissão dos pais e da escola, que se recusam a discutir esses temas com seriedade, é co-responsável por todas as violências contra a mulher decorrentes dessa cultura”, disse o professor André Azevedo da Fonseca. Entretanto quando penso em escrever algo sobre temas relacionados a violência doméstica e a cultura do estupro, acho essencial trazer pesquisadoras mulheres, porque elas estarão, na minha opinião, sempre à frente, visto que também são as vítimas dessa realidade (e isso nada tem a ver com feminismo por si só, mas com conhecimento maior de causa). Nessa linha, trago para o debate que proponho com o leitor essas três pesquisadoras, escritoras, professoras e mulheres fantásticas (especialistas no assunto): Andrea Dworkin, Sheila Jeffreys e Gail Dines. Também quero citar Virginie Despentes, porque o trabalho dela me fez enxergar violências que antes eu não percebia.

Não faz muito tempo que a violência doméstica (DV) era vista como uma questão familiar privada, em vez de um problema de saúde pública de enorme magnitude que tem uma miríade de efeitos sobre a saúde social, psicológica, econômica e, é claro, coletiva da sociedade. Graças em grande parte ao movimento feminista, que trabalhou para conscientizar o público sobre os múltiplos danos da DV, os profissionais de saúde de diversas áreas de especialização agora entendem o DV como uma questão que requer prevenção e intervenção. Vamos conhecer então, um pouco dessa luta, e entender porque ela é tão importante.

A sociedade e a cultura que sempre vivenciamos (nós mulheres) nos coloca na posição do dar, doar. Dar prazer, cuidado, comida, crianças, criação infinita e trabalho doméstico. Nós devemos ser empatas altruístas, que compreendem e toleram a dor e o sofrimento daquelas a nossa volta. Isso não é ruim, mas esse retorno e parceira do sexo oposto, dificilmente temos. O sofrimento nos é aceito, e é silenciado. É muito comum nós mulheres sofrermos emocionalmente com maior frequência.  E assim, nos fechamos para evitar dor.  Mas quando nos fechamos somos duras e frias (e por isso também nos julgam). Desta forma, quase sempre e perpetuamente, somos incapazes de encontrar um equilíbrio saudável entre a empatia e a raiva para com os homens.

Ironicamente ou não, as feministas são as acusadas de odiar homens. Mentira total. A raiva e o ódio são tratados às vezes como a mesma coisa, mas não são. Nossa raiva vem frequentemente da decepção, da frustração, da mágoa, ou da traição. Algo que queremos mudar porque, sobretudo, acreditamos num mundo sem ódio. O ódio é desumanizante.

Em um discurso em 1983, Andrea Dworkin disse: “Eu vim aqui hoje porque eu não acredito que o estupro é inevitável ou natural. Se eu acreditasse, eu não teria nenhuma razão de estar aqui. Se eu acreditasse, minha prática política seria diferente do que é. Vocês já pensaram por que nós não estamos apenas em combate armado contra vocês? Não é porque há uma falta de facas nas cozinhas neste país. É porque nós acreditamos em sua humanidade, apesar de tanta evidência contrária.”

De fato, é estranho considerar aquelas que imaginam um mundo melhor serem as extremistas e loucas, mas é assim. O certo seria que ao invés de julgar essas guerreiras combatentes, nos questionássemos: por que os homens não mudaram ainda? Por que os homens continuam abusando e matando e estuprando? Por que eles se recusam ativamente a mudar — se recusam a questionar sua abordagem ao sexo, às mulheres, aos relacionamentos, à comunicação? Enquanto mulheres estão longe de serem perfeitas, deve-se reconhecer que nós estamos tentando mudar constantemente. Nós estamos indo à terapia, lendo os livros de autoajuda, nos inscrevendo em vários seminários new age que prometem nos ajudar a compreender e lidar com nossas falhas espirituais e psicológicas, e processando toda e qualquer coisa com nossas amigas mulheres. Nós estamos meditando, fazendo yoga, fazendo toda dieta possível, reconstruindo nossas faces, procurando novas rotinas de exercícios, praticando comunicação não violenta e uma infinidade de outras atividades em nossa missão vitalícia para nos consertarmos.

Recomento aqui um dos melhores trabalhos que Andrea escreveu (com apenas 27 anos), Woman Hating, de 1974) Logo na primeira linha já se lê: “Este livro é uma ação, uma ação política onde a revolução é o objetivo.” Em Woman Hating (Odiando Mulheres), Andrea descreve e teoriza todas as maneiras de abuso e opressão masculina sobre mulheres e meninas. É um grande começo de leitura para nós mulheres. Chocante em todos os sentidos.

“A objetificação de mulheres no qual os corpos são tratados como objetos para outros usarem, à revelia de nossa vontade ou pessoalidade, como em estupro, abuso infantil, prostituição, são danosos para nós mesmas”, disse Sheila Jeffreys, escritora, professora, pesquisadora, ativista e feminista. “O que é feito aos nossos corpos afeta a nós. Para sobreviver aos usos abusivos ou violentos de nossos corpos nós temos que aprender a dis-associar para sobreviver. Em relação a prostituição o entendimento de ’nosso corpo, nós mesmas’ nos capacita reconhecer o mal da disassociação que mulheres prostituídas tem de fazer uso de forma a sobreviver a violação de seus seres é constituída pela violência sexual comercial”, completa.
Chegamos agora a um ponto de fala onde a pornografia entra como reflexão dessa situação. À medida que esses índices de violência contra a mulher crescem, tornou-se claro que não podemos mais nos sentar e permitir que a indústria pornográfica sequestre o bem-estar sexual e emocional de nossa cultura . Pesquisas científicas extensas revelam que a exposição à pornografia ameaça a saúde social, emocional e física de indivíduos, famílias e comunidades.

Esses impactos evidenciam o grau em que a pornografia deve ser vista como uma crise de saúde pública que prejudica os direitos humanos das mulheres e das crianças, ao invés de ser um assunto privado. Mas, assim como a indústria do tabaco argumentou durante décadas que não havia provas de uma conexão entre o fumo e o câncer de pulmão, a indústria pornográfica também, com a ajuda de uma máquina de relações públicas bem lubrificada, negou a existência de pesquisas empíricas sobre o assunto, e o impacto dos seus produtos.
Por sua vez, Gail Dines, professora de sociologia da Wheelock College, em Boston (EUA) e ativista contra a propagação da pornografia revela em seus estudos que “Muitos homens são expostos à pornografia pela primeira vez aos 11 anos, intencionalmente ou por acidente, e o resultado é uma geração que pensa que o sexo é apenas os que os filmes pornô apresentam”. Essa exposição precoce atinge diretamente a formação moral da criança. “A pornografia pode perturbar pessoas de qualquer idade”, esclarece Gail Dines. “Conheço casos de crianças de sete anos e também de senhores de 80 anos, influenciados pelo seu consumo. A indústria pornô vai identificando consumidores desde uma idade precoce com a intenção de mantê-los viciados para toda a vida”, argumenta.

Com base em tudo isso, vemos a importância de trazer o assunto (sexo, gênero e educação) desde cedo, em casa e na escola. Também é importante que nós mulheres ocupemos nosso lugar de fala e entendamos que não somos obrigadas a nada. Mas mais importante ainda é que os homens se conscientizem e mudem suas atitudes e julgamentos sobre nós, desconstruam toda essa cultura horrível que lhes foi imposta e que é reproduzida diariamente por eles. Esse sim será um grande passo para que nós não sejamos vistas apenas como objeto sexual e fonte de prazer, mas como seres humanos com opinião, sentimentos e vida.  Para finalizar que indicar a leitura de Virginie Despentes, que me abriu um vasto caminho para seguir enfrentando essa cultura patriarcal. O livro chama: Teoria King King. Sempre utilizando a academia para contar sobre suas experiências, Despentes cria pontes com clássicos como Simone de Beauvoir, Virginia Woolf e Angela Davis – cada página, é como um soco no estômago, onde questões estonteantes passam pela cabeça do leitor a partir das provocações da feminista: seria o Estado uma mãe perversa, e não um pai autoritário? Podemos criar tecnologias de proteção social às trabalhadoras sexuais? Se a pornografia de fato atua enquanto pedagogia, como podemos criar novos códigos de linguagem de gênero? Vamos mudar essas estatísticas. Vamos estudar, nos informar e reconstruir essa história tão sofrida para nós mulheres. E não vamos seguir caladas diante de uma política que nos fere e nos inferioriza. À luta!