A dor da adolescência – para refrescar nossa memória

RaquelRomano,

A escuta de adolescentes proporciona um encontro com o sofrimento inerente desse processo, no texto anterior ressaltei que a adolescência é um processo pelo qual a criança se transforma em adulto. Ainda não o é de fato, mas está no processo próprio de vir a ser. É uma hiância, ainda não o é; sendo!

Lhe foi tirado a infância, o corpo infantil e seus pais. Não é mais! Não tem mais! Perdeu o que era. Está em luto. O adolescente está de luto e luta para sair desse período.

É difícil adolescer, crescer, viver nesse mundo. Até aqui tinha proteção, era considerado como apenas uma criança. Obedecia ordens ou nem tanto e seguia a boiada.

Agora o adolescente tenta nos dizer aquilo que esquecemos:

Mas como continuar no mesmo caminho se o que vejo não condiz com a lógica? Ah, a lógica é novidade, pensamento cartesiano, causa e efeito e todas essas paradas só fazem sentido agora.

Agora meu corpo muda na velocidade da luz. Dói sabia? De verdade, quando vou dormir minhas pernas doem. Minha cabeça não para um segundo. To entendendo muita coisa e não faz sentido.

Vou me rebelar! Pintar o cabelo de roxo, experimentar álcool, beijar na boca, sair sem avisar, não responder o celular, não tomar banho! Pronto! Não vou tomar banho nunca mais.

Vou colocar um piercing, tomar cerveja, namorar alguém mais velho, fazer sexo, fazer tatuagem escondida! Sair a noite numa seita secreta que se encontra no cemitério….

….(e fazer isso e outras coisas diversas vezes)

 

Não pera, melhor não. Quero ser jornalista, ou design de moda, quem sabe veterinária. A pessoa que é minha crush já está no terceirão, já fez Enem. Mas não vou fazer nutrição só porque minha mãe quer.  Vou ser dançarina! Meu pai me mata! Já sei: vou ser dançarina profissional!

 

A adolescência como um evento ou episódio que faz parte da história do desenvolvimento humano, se diz um evento porque, supostamente, tem um começo e um final. Esse começo dar-se-ia pela puberdade que é biológica e supostamente determinante, mas sabe-se que as marcas do que é vivido modifica as questões biológicas e acaba sendo tão determinista quanto a primeira.

 

Perder o papel infantil talvez seja uma das mais custosas tarefas:

 

A dias atrás minha mãe penteava meu cabelo. Ele é enrolado, sabe como é, tem jeito certo de fazer. Mas o jeito que ela fazia era muito melhor. Gosto quando ela faz.

 

Um carinho diário, uma escuta específica que é oferecida à criança, já não existe mais. Não que deva existir, talvez seja melhor que não esteja ali tão presente o corpo em contato com o corpo, mas a essa discussão vou deixar para quem quiser continuar.

 

Agora sei arrumar meu cabelo, meu irmão mais velho me ensinou. Fui no barbeiro novo lá perto de casa e fiz um raio aqui do lado.

 

Nessa hora até o capuz sai da cabeça e emerge o sujeito bem faceiro na sua melhor função: ser.

 

Os pais da infância que se modificaram ao longo dos anos, essa é outra perda. Os pais se modificam. Os jovens se queixam referindo-se aos pais que não são mais os mesmos. Das cobranças proferidas por eles e do que era possível fazer antes quando criança e agora não lhe é permitido e por outro lado ainda não lhe é permitido viver como adulto. Dupla proibição vinda dos pais ou dos cuidadores: não ser mais criança e ainda não ser um adulto.

 

Não tenho direito de ir e vir, não me sustento, não sei se amo alguém, nem se esse alguém existe e não sei quem eu quero ser no futuro. Não posso correr para baixo da aba de quem me protege porque tô grande demais.

 

Adolescer é processo de profundas perdas, verdadeiros lutos que como todos os momentos de evolução e crescimento requerem mudanças e perdas significativas que devem ser cuidadosamente sentidas e pensadas a ponto de renascer um novo sujeito não mais como era.

Se o suposto adulto que está ao lado do adolescente nessa estréia que também é uma travessia pois tem fim, colocar-se minimamente no lugar daquele que sofre porque perde, talvez assim o processo seja menos doloroso para todos. O lugar do adulto como aquele que oferece amor, na contingência do abraço, na troca do olhar, na humanização do ser.