A fantástica fábrica dos “quinze minutos de fama”


A Factory de Andy Warhol ajudou a transformar a vida e o estilo de Nova York, contribuindo para a produção cultural do mundo inteiro

Em meados dos anos da década de 1950 Andy Warhol era ainda um aspirante a artista plástico, ex-estudante de design oriundo de Pittsburgh morando em Nova York, que trabalhava com moda e fazia ilustrações para revistas como a Vogue. Realizou algumas exposições baseadas em obras de Truman Capote e trabalhou com publicidade e propaganda.

Quando adentra o universo das galerias na década seguinte é que utilizou toda sua expertise publicitária, passando a realizar obras com a base nos motivos e conceitos das propagandas. Embalagens, outdoors, camisetas, fotogramas a partir de câmeras polaroides instantâneas, muita serigrafia e o conceito industrial de produção em série. Tudo que todo mundo já conhece: a pop art.

Mas foi em 1962 que Warhol passou a contribuir de fato para a transformação e o desenvolvimento da cultura norte-americana e mundial como um todo. Ele monta um estúdio no quinto andar do número 231 na 47th Street, em Midtown Manhattan. Um prédio que estava semiabandonado aguardando demolição, o que de fato ocorreria seis anos depois. Ao seu novo ambiente de trabalho Warhol conferiu o nome de The Factory. As coisas nunca mais seriam as mesmas no meio daquela ilha que atendia pela alcunha de Big Apple.

A “fábrica” tornou-se ponto de encontro, trabalho e festas espetaculares frequentadas pela nata moderna da boemia e da arte instalada ou de passagem por NY. Artistas que Andy passou a chamar de “Warhol superstars”, quase uma brincadeira com sua famosa frase na qual versava que “todos um dia terão seus quinze minutos de fama”. As “sessões” de trabalho e festas duravam dias e chegava-se a produzir numa mesma tarde/noite um filme, esculturas e pinturas, uma coleção de roupas e um ensaio de fotos. Tudo ao mesmo tempo. À base de anfetaminas.

A cineasta underground Barbara Rubin, também frequentadora da Factory e amiga de Warhol, levou o artista ao Café Bizarre numa noite de dezembro de 1965. No local havia uma banda residente pela qual Warhol se apaixonou à primeira vista. John Cale, Sterling Morrison, Angus McAlise e um certo Lou Reed. Era o Velvet Underground. As coisas mudariam ainda mais doravante. Maureen Tucker viria a substituir Angus na bateria do grupo, e Andy simplesmente assumiu a banda para si.

Warhol ficou famoso por conferir propósito a sua arte da mesma maneira que a indústria fazia com seus produtos. Eram litografias, serigrafias que saiam da “máquina” feito os carros saiam da Ford ou da GM. E não foi diferente com o Velvet Underground.  Warhol apresentaria ao grupo ainda a modelo alemã Nico, uma de suas “Chelsea girls”, nome que faz alusão ao hotel que hospedava artistas recém chegados a Nova York e que nomeou o filme experimental mais conhecido do artista (Chelsea Girls, Andy Warhol e Paul Morrissey, 1966). Nico seria, a contragosto da banda, uma das vozes do V.U.

O êxito sem igual da banda liderada por Lou Reed e o chamado “disco da banana” (Velvet Underground and Nico, 1967) não fez parar a efervescência da Factory. Pelo contrário, só aumentou.  A “casa” foi frequentada por Bob Dylan, Jim Morrison, David Bowie,  Patti Smith, William Burroughs… todo mundo. Andy Warhol conseguiu — tal e qual “industrialmente” —  uma dinâmica de união produção-entretenimento que proporcionava em torno dele uma profusão de gente oriunda do mundo pornô, viciados em drogas, travestis, músicos, produtores, empresários e enfant terribles (Basquiat por exemplo seria apadrinhado por Warhol alguns anos depois, com a Factory em outro endereço).

Toda essa atmosfera ajudou Warhol a desenvolver seu trabalho quase sempre em grupo. Havia frequentemente um tour de force para a realização de uma série de fotos, muita gente disposta a atuar em seus filmes, realizar performances em festas e instalações, frequentar os shows e acima de tudo criar.  Assim foi levado o ambiente que transformou a Factory em uma lenda. Uma fábrica de lendas. O estúdio mudou ainda três vezes de endereço após essa primeira fase entre 1962-68. Até 1984 na Union Square.

Como em um grande circo que pega fogo, todos que passaram por lá ganharam o mundo nas décadas seguintes, levantando e tocando suas próprias lonas. Afinal, o show não pode parar.

Imagens: reprodução

Ouça. Leia. Assista:

Andy Warhol – Factory Man (2007) – documentário

Chelsea Girls (1966) – filme

Velvet Underground and Nico (1967) – disco

Basquiat (1996) – filme