A ficção de “CarnivalRow” e a cena que Roberto Alvim cria para o cenário brasileiro


Nas férias desse verão fui conhecer melhor parte da costa fluminense. Contudo, parti antes de Ubatuba para apresentá-la a um amigo. Assim finalizávamos o projeto de passar dias admirando a beleza que é o litoral Norte de São Paulo. Mas como muitos devem saber, Ubatuba é divertidamente chamada de “Ubachuva”. Nossa experiência não foi diferente das que dão razão ao apelido continuamente repetido para a cidade que parece ter índices pluviométricos comparáveis aos do Norte-amazônico. Já que não ia dar praia mesmo e o passeio pelo centro não tinha sido menos difícil com tanta água e espaços culturais com restritos horários natalinos, meu amigo resolveu propor que assistíssemos a “CarnivalRow”,série criada por Travis Beacham e René Echevarria, lançada pela Amazon Prime Video em agosto de 2019. Então eu, que apresentava um lugar, fui apresentado a uma série. Talvez seja importante você também saber um pouco do que assisti.

Como bem atentou Raphael Silva Fagundes na Fórum oferecendo mais do que as críticas que minimizam a qualidade da primeira temporada a partir de um ponto de vista técnico-narrativo, a série lança luz sobre a extrema-direita que estampa cenários nacionais na América Latina (faltou Fagundes mencionar a do Norte) e na Europa. De acordo com o colunista, com quem concordo neste ponto, existem semelhanças impressionantes entre a produção da Amazon e o mundo do presente. Isso porque, em CarnivalRow, a estratégia para subir ao poder utilizada pela filha do principal político da oposição é, como ela mesmo afirma em diálogo com o filho do chanceler, a criação da oportunidade por meio do caos.Conseguido isso, a garota passa a implantar uma defesa ainda mais severa que a política de perseguição que seu pai fazia aos seres mitológicos (faunos, fadas, centauros e outros), os quais imigram de seu país fugindo da arrasadora guerra leva a cabo por um inimigo tecnologicamente bem preparado.A comparação, ainda segundo o colunista, pode abranger as crises geradas a partir da chegada de imigrantes na Europa, do fortalecimento do Brexit na Inglaterra, das desestabilizações da democracia na Bolívia e no Brasil, neste último devido à Operação Lava Jato.

Mas se já há comentários sobre a série, por que eu deveria abordar novamente a representação de fenômenos da política mundial que faz essa produção, prometida, conforme arrisca Beatriz Amendola no UOL, a virar blockbuster na esteira de famosas histórias sobre mundos compostos por seres humanos e mitológicos (Game of Thrones, O Senhor dos Anéis, Harry Potter, Piratas do Caribe, etc.)? As respostas são simples.

Primeiro, porque na última semana nos deparamos com Roberto Alvim, ex-Secretário Especial da Cultura do governo de Jair Bolsonaro, acenando musical, estética, cenográfica e discursivamente ao nazismo. Falo do compositor predileto de Hitler (Wagner) musicando o vídeo e dos elementos que remetia diretamente Alvim a Joseph Goebbels, a saber, o penteado bem ajustado, a composição de seu gabinete e as frases copiadas.

Enfim, diante do avanço, dia após dia, desses sujeitos que se alinham a posições indefensáveis em quaisquer circunstâncias, é imprescindível continuarmos reagindo contrariamente. Quanto a isso, CarnivalRow deve colaborar nalgum sentido.A utilização das tão famosas plataformas de streaming podem ser mais uma aposta à capilaridade que se pode dar à oposição que muitos de nós sentimos dificuldades em fazer com aquele amigo ou familiar que não reconhece as afinidades ideológicas do discurso de Jair Bolsonaro com o fascismo e/ou nazismo. O amor entre Rycroft Philostrate (um “mestiço”) e Vignette Stonemoss (uma fada), personagens protagonistas de Orlando Bloom e Cara Delevingne respectivamente, podem ser coisa de hollywoodianos, porém talvez funcionem muito bem para digerir ao grande público a compreensão do que significa o recrudescimento do ódio à diferença em políticas de Estado. A questão aqui é favorecer-se de produtos da cultura de massa para disputar como ultra conservadorismo instalado no Brasil.

O segundo motivo de eu tentar acrescentar algo mais ao entendimento sobre a crítica social que realiza CarnivalRow é que a leitura de Fagundes identifica uma única estratégia (o estabelecimento do caos) para ascensão de posições políticas com objetivos diferenciados em suas inclinações à direita. O efeito disso é que o autor acaba tornando nebulosa tais distinções.O texto inicia-se mencionando emergências da extrema-direita no mundo (menciona somente o fascismo, não o nazismo) para terminar falando da necessidade de uma ruptura nas condições democráticas, em que não vingaria o neoliberalismo,para que este consiga fazer evoluir sua agenda.

Há profundas diferenças entre uma pauta econômica de direita, como é o neoliberalismo, e o fascismo. Um regime totalitário é um projeto de sociedade mais do que um plano de economia. E CarnivalRow volta-se ao fascismo e ao nazismo. A propósito, quem assistir verá prováveis campos de concentração formando-se, que, até onde sei, foram construídos na Alemanha nazista, não, por exemplo, na Itália fascista.Ora, faz todo sentido começar a assistir a CarnivalRow quando o ex-secretário quis manter um discurso inspirado em Goebbels.

É verdade que CarnivalRow não aborda o problema econômico, mas não imagino que seja, conforme diz Fagundes, só porque a Amazon é uma empresa capitalista, como se estivesse evitando corroer sua sustentação ideológica e, consequentemente, seu sustento material. O fundamento do totalitarismo não é de base econômica, mas antropológica. Hitler fortaleceu a produção e os ganhos alemães, entretanto fez às custas de quem não deveria existir por não ser semelhante a si.É também por isso que os exemplos reais do colunista que iluminam a ficção têm importantes diferenças socioculturais (imigrantes e europeus; indígenas e bolivianos brancos). O que se assiste, portanto, em CarnivalRow é o problema político da alteridade (da diferençado Eu e do Outro).

Muito basicamente, uma vez que não pretendo fazer spoiler, a série é ambientada numa cidade imaginária (Burgos)aonde humanos veem pessoas que eles não compreendem como humanas (faunos e fadas são os mais presentes) chegarem aos montes, tudo por conta daquela guerra da qual falei. A trama, a partir daí, desenvolve-se com muitas histórias individuais cruzando-se. A dos dois irmãos falidos que começam a ser avizinhados por um fauno economicamente (não socialmente) ascendido não está desassociada das dificuldades que passam os apaixonados Philo e Vignettenem dos ataques que executam faunos extremistas ao chanceler, ou ainda das estratégias de integrantes das duas famílias mais poderosas no esforço de afetar o jogo de forças sociais por meio de assassinatos, sequestro e difusão de falsos fatos. Qual o problema geral? A relação entre diferentes: os vizinhos, os apaixonados, os governantes e governados etc.

Em CarnivalRow, como em qualquer sociedade, há uma estrutura sobre a qual se desenvolvem as mais distintas situações vividas pelas pessoas. Como na vida real, experiências diversas estão articuladas por que se passam sobre tal condição comum para viver (a estrutura). É um fundo sobre o qual a vida de todos pode acontecer, e esse fundo é que deveria ser entendido como o protagonista da série.A vida cotidiana e política é seu chamariz. Talvez isso resolvesse melhor a percepção negativa que alguns sites brasileiros tiveram da série por ela ter muitas narrativas concomitantes.

No caso de CarnivalRow, essa estrutura que visualizamos do conjunto das relações assistidas tem evidentemente similitude com as que existem em sociedades, a exemplo da brasileira,que transformam reiteradamente diferença em desigualdade.Em síntese, quem vive em Burgos tem mais ou menos chances, privilégios e condições a depender do gênero de criatura que se é (humano ou não-humano).A diferença que serve de material à desigualdade é a diferença de humanidade. Muitas das personagens entendem que pelos outros não serem gente não devem ter uma vida semelhante a que possuem ou nem deveriam estar ali.Por isso a recusa geral de que faunos e fadas ocupem o mesmo espaço ou a mesma posição. Isto é, há personagens que sequer os toleram. Esses são os mais radicais e são eles quem levará a cabo uma política de ódio.

Não se trata de diferenças de etnia ou raça, origem nacional ou regional, orientação de afetos ou identidade de gênero, as quais, no Brasil, são alvos de racismo, xenofobia e LGBTQ+fobia devido à má concepção que delas é feita. É preciso entender que não se pode colar diretamente na realidade o que se vê na série. O que me parece interessante é entender essa lógica de operar desigualdade na diferença, mas a diferença na ficção não é exatamente como a se utilizam alguns brasileiros para manter a desigualdade.

Na história do pensamento ocidental, já aconteceu de questionar-se muito sobre o status da existência de ameríndios e africanos. Em certos momentos, a Igreja, a ciência, a filosofia e a política contribuíram para incluí-los no mesmo campo existencial dos europeus. Embora hoje seja amplamente reconhecido que todos pertencem a uma mesma categoria de ser (humanos), isso não evitou que fossem construídas outras categorias para classificar o que somos ou a quem pertencemos, quais sejam, as classes que identificam se somos isso (negro, índio, mulher, gay, etc.) ou aquilo (branco, homem, heterossexual,  etc.). Mas também não faltaram os mecanismos (piadas, reconhecimentos e rendas diferentes, por exemplo) para desnivelar as condições de vida desses grupos. Entre o mundo de CarnivalRow e o mundo em que vivemos, há, portanto, lógicas semelhantes na organização da vida entre os sujeitos. Tanto lá quanto cá, a diferença é percebida de uma maneira a hierarquizar os sujeitos entre si.

O problema é que, vira e mexe, ideias surgem para alimentar o vínculo que se criou entre pertencer a certas categorias e ter certos (des)privilégios.Quando essas ideias ou posturas influenciadas por tais ideias insistem em querer conservara relação entre diferença e desigualdade (por exemplo, defender salários diferentes com base no sexo), surge o conservadorismo. E quando ideias e posturas reagem ao avanço de políticas que querem desfazer esse vínculo entre diferença e desigualdade (por exemplo, política de cotas), tentando conduzir as pessoas ao reconhecimento apenas da diferença, logo sem serem oneradas por não se identificarem perfeitamente entre si,temos, então, o conhecido reacionarismo.

Daí é possível tentar compreender posições que as pessoas adotam nas mais diferentes esferas da vida e como isso afeta alguém de maneira a alterar, ou não, a estrutura que aprisiona alguns na desvantagem. As atitudes que favorecem a desigualdade e estão relacionadas à esfera moral, econômica, política e social da vida são as que levam, em CarnivalRow, as fadas a permanecerem como prostitutas de humanos (são amadas apenas nessa condição); os faunos a realizarem os serviços domésticos (suas condições se reproduzem de maneira que humanos se perguntam como conseguiu enriquecer o fauno abastado); os humanos, e somente eles, a elegerem-se ao parlamento (aos faunos resta o extremismo político)e, por fim, a porta dos fundos ao fauno, mesmo que rico, e o disfarce ou a extração das asas às fadas.

Logo, se quisermos que a série nos conte sobre viver na sociedade brasileira, precisamos compreender que as personagens são possíveis alegorias de como deve ser viver como gay, negro, pobre, mulher etc. São personagens que representam muitas vidas. Mas isso quer dizer que todos os gays, negros, pobres, mulheres experienciam suas vidas exatamente assim? Claro que não, porque a vida é um jogo entre possibilidades e estamos falando dessas mais prováveis possibilidades para quem, por ser diferente, é tornado desigual.

As posições ultraconservadoras, fica claro no próprio termo, acirram intensamente tais probabilidades de tornar a vida desigual para os diferentes,a tal ponto que a própria existência da diferença é posta em risco. Em CarnivalRow, quando se recrudesce a política do ódio ao outro, estes são levados a guetos que muito lembram o processo de constituição da sociedade nazista – e sabemos por outros filmes o que acontece ao final.

A questão é até onde vamos deixar que pessoas achem normal inspirar-se em nazistas e, com estes, como disse Alvim em seu vídeo,  pensar que é nada tudo o que não é heroico. Afinal, como tentei deixar claríssimo, uma ideia (atribuir o nada a alguns e tudo a outros) alimenta experiências muito reais de desigualdade e, ao final, pode ser que a vida esteja se desfazendo, tornando-se o nada. Alvim foi demitido, mas quem o colocou lá, não. Essa gente – essa mesma que acompanha Bolsonaro – apenas suavizou o modo de tornar público seu ódio contra tudo o que dizem pôr em risco Deus, a família e a pátria. Relembremos a trajetória do atual presidente e vejamos quem são aqueles que ele julga destruir seu projeto de nação.