A voz e a vez das mulheres negras brasileiras


A voz e a vez das mulheres negras brasileiras
Djamila Ribeiro e Joice Berth lançaram seus livros em evento gratuito em Curitiba

Com seu auditório lotado, a Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, sediou na noite da última quarta-feira (21) o lançamento dos livros Lugar de Fala, de Djamila Ribeiro, e Empoderamento, de Joice Berth. Organizado pelo Grupo de Políticas Etnorraciais da Defensoria Pública da União e a Rede Justiça e Direitos Humanos do Paraná, o evento trouxe as autoras para um bate papo seguido de sessão de autógrafos. Lugar de Fala e Empoderamento fazem parte da coleção Feminismos Plurais, da editora Polén. Com coordenação da filósofa Djamila Ribeiro, a série reúne volumes escritos por intelectuais de grupos historicamente marginalizados, que tratam de temas como encarceramento em massa, racismo estrutural e transexualidade, entre outros.
Ao abrir a mesa, a escritora Joice Berth se emocionou com o público presente e agradeceu o convite, a oportunidade de estar em Curitiba, e se apresentou como uma pensadora negra de perspectiva feminista. Sobre o livro, “Empoderamento”, Joice explica que não é um conceito novo e nem inédito, mas fundamentado em raízes históricas e muitas e muitos já se debruçaram sobre ele para catalisar grandes transformações sociais em momentos importantes. “Trata-se mais de uma redescoberta do que de uma criação, já que há possíveis focos de aplicabilidade antes mesmo da denominação ser cunhada”, explica. “Entretanto, apesar de ser um conceito debatido há algum tempo, ainda há muita confusão, inclusive nas redes sociais, quanto ao significado e aplicação”, complementa. Por isso, partindo de pensadoras como Paulo Freire, Vivian Baquero, Patrícia Hill Collins, Bell Hooks, Lélia Gonzalez, Barbara Bryant Solomon, Angela Davis, Sueli Carneiro, dentre outras, a feminista negra, arquiteta e escritora, Joice Berth deixou a platéia em verdadeiro êxtase sobre o assunto e desencadeou importantes reflexões.
Como boa provocadora, Joice partiu do pressuposto de que não faz sentido se empoderar apenas individualmente. “Empoderamento não é algo que pode ser dissociado do coletivo. É simbiótico – o empoderamento precisa ser individual e coletivo”, afirma. “Se não for assim, a gente só troca de papel – e passa a ser o opressor tão criticado”, complementa.
Joice, assim como Djamila Ribeiro, também refletiu sobre como cercada por textos de pensadoras brancas, sentia falta de quem entendesse seus dilemas e conflitos como mulher negra. “As mulheres brancas feministas eram um grupo quase homogêneo. Falharam, por muito tempo, em se importar com várias questões de gênero”, explica. Mas no coletivo encontrou sua resposta, dentro do movimento feminista negro. “O maior legado das mulheres negras no feminismo é a interseccionalidade – elas trouxeram essas várias divisões da categoria mulher para o movimento”, defende.
Por fim, a escritora foi muito aplaudida e reforçou o conceito da palavra empoderamento. “Tudo agora é empoderamento. Conheça o mundo todo e seja uma pessoa empoderada. Suba de cargo, entre na política, assuma o papel do marido… A palavra é usada de forma errada e isso esvazia a discussão. É um pouco proposital esse esvaziamento. A sociedade capitalista sobrevive às custas da nossa ignorância.” Para reconhecer isso tudo ela busca os pilares da construção da palavra e do conceito dela na sociedade. “Empoderar é dar poder, a gente precisa discutir o que entendemos como poder e até que ponto isso construiu as relações desiguais da sociedade. Para isso, uso dois pensadores: Michel Foucault e Hannah Arendt. Foucault discute as relações de poder, como algo que atravessa as estruturas sociais, e Hannah Arendt fala do poder a partir da ação coletiva – algo que nasce da junção das pessoas, da coletividade. Ou seja, é delegado apenas para algumas pessoas. E essas pessoas não podem agir como donas do poder e sim como administradoras do poder da massa. É importante refletir sobre isso. Caso contrário, a gente parte para o caminho da inversão de valores: agora eu mando; entro na mesma estrutura de poder e assumo o lugar que eu criticava antes. Então, precisamos reconstruir o poder, reconstruir nossos comportamentos, o que fazer para não haver concentração de privilégios.”
O bate-papo seguiu com a escritora, mestre em filosofia e feminista negra, Djamila Ribeiro, que agradeceu a presença do grandioso público (maioria de mulheres), a participação da professora Dona Diva Guimarães e a curiosidade de falar sobre o livro em Curitiba – cidade extremamente racista, com um auditório lotado. Logo no início de sua fala, antes mesmo de citar o livro, Djamila levantou a importância de debater as questões étnico-raciais visto que a concepção do que é ser negro passa pela colonização, pelo apagamento do pensamento cultural e pela cosmovisão africana – interiorização do próprio ser, produtor de pensamento e cultura. A autora comentou que ainda é muito comum até mesmo no meio acadêmico as pessoas desconhecerem intelectuais negros. “Toda a filosofia e história são fundamentadas em conceitos europeus”, explicou.
Tendo em vista essa importância do reconhecimento da multiplicidade de vozes, Djamila Ribeiro coordenou o nascimento da coleção Feminismos Plurais. Organizada pela autora, a coleção visa abordar diversos aspectos e perspectivas dos feminismos, tendo como pilar principal mulheres negras e indígenas e homens negros como sujeitos políticos. “Comumente, esses sujeitos são tratados como implícitos ou relegados a condição de “mero recorte” dentro de uma história única e excludente. Feminismos Plurais segue a responsabilidade histórica de romper silêncios.”
O livro de Djamila, laçado na noite, é o primeiro título da coleção e chama-se “O que é lugar de fala?”. A obra trata do conceito que muito tem sido falado e no qual muitas polêmicas acerca do tema têm surgido. “O livro questiona quem tem direito à voz numa sociedade que tem como norma a branquitude, masculinidade e heterossexualidade”, conta a escritora. “O conceito se faz importante para desestabilizar as normas vigentes e trazer a importância de se pensar no rompimento de uma voz única com o objetivo de propiciar uma multiplicidade de vozes.”
Partindo de obras de feministas negras como Patricia Hill Collins, Grada Kilomba, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, o livro aborda, pela perspectiva do feminismo negro, a urgência pela quebra dos silêncios instituídos explicando  didaticamente o que é conceito ao mesmo tempo em que traz ao conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da história. “Pensar outros lugares de fala passa pela importância de se trazer outras perspectivas que rompam com a história única”, diz Djamila.
A autora ainda ressaltou como ela é questionada por defender o conceito de lugar de fala e como muitas pessoas que rebatem isso sequer leram o livro ou tem fundamentos históricos-intelectuais para tal. “Me recuso a seguir respondendo debates em redes sociais pois sempre caem no mesmo discurso vazio e infundado, baseado em preconceito e arrogância”, conta dando risadas. “Quero citar nomes aqui (os quais me confrontaram), mas fui proibida pelo meu advogado”, complementa. Djamila ainda citou experiências de racismo que vive diariamente como mulher negra e porquê dentro de todas essas vivências o lugar de fala se torna tão importante e revolucionário.
O auditório aplaudiu de pé as autoras e o momento encerrou com um grito único repetido pelos presentes: “Lula livre”. Os livros são vendidos por um preço popular, com o propósito de que todos tenham acesso a esse grande e poderoso conhecimento (reconstrução da história).