ANO NOVO E DOM PARA MUDAR


Crédito: Faena Rossilho

As resoluções de início de ano já viraram uma tradição, geralmente frutos das reflexões que os momentos de transição provocam nas pessoas. E a mudança de ano é emblemática, dessa vez uma nova década também se inicia. Projetos, listas, decisões revelam muitos desejos, e isso é bom pois coloca os sujeitos em movimento.

Mas, para que os itens possam vir a se concretizar, é preciso que alguma mudança ocorra e isso não é tão simples. Simplesmente porque a tendência é permanecer do mesmo jeito. Mudar envolve riscos.  E para permanecer igual, muitos sujeitos despendem trabalho e energia no que podemos chamar de sintomas.

Somos habitados por uma força muito poderosa que Freud denominou de “Pulsão”, essa força nunca cessa e ela pode apresentar diversas facetas e mirar em variados alvos. A energia pulsional pode ser empregada para fins de transformação, e bons exemplos disso são as manifestações artísticas, as produções científicas, o desejo de aprender, a abertura para o novo, as brincadeiras e criatividade das crianças. Mas outro viés da pulsão também convive em nosso íntimo e se manifesta na civilização; aparece na forma de repetições e fracassos, está a serviço de tudo continuar igual. É verdade: modificar certos hábitos e comportamentos é muito difícil, talvez mais do que continuar “assim mesmo”. Mas qual é o preço que se paga para ficar do mesmo jeito? A resposta é singular, mas geralmente é um preço alto, o de abdicar da tentativa de realização de um desejo.

É comum escutarmos que uma mudança depende da “força de vontade”, porém o que o senso comum não explica é do que se trata essa tal “força de vontade” e de onde ela vem. Um movimento em direção a uma mudança requer muitas coisas, uma delas é o afeto, a outra os laços, outro exemplo é um projeto. Estas sim são fontes de força para um sujeito, que podem suscitar algo de novo, uma saída criativa para um problema e até mesmo ajudar a cessar um comportamento repetitivo ou autodestrutivo.

Freud localiza a pulsão na fronteira entre o psíquico e o somático, o corpo erótico está posto aí para sentir prazer e para sofrer. E por se tratar da vida psíquica e somática os laços com os outros são essenciais. Se oferecermos a um bebê o que ele precisa em termos fisiológicos, mas não oferecermos amor, afeto, ele vai definhar aos poucos, sua vitalidade, seu brilho, vai se apagar. Atualmente se utiliza de maneira chistosa uma expressão curiosa: “vou fazer tal coisa nem que seja na força do ódio”, ela é interessante, pois demonstra o papel do afeto na vontade de realização (ódio revés do amor). Discurso e laço nos dão referência de tempo, espaço e pessoas. E você, como utiliza seu tempo?

A pulsão é como uma moeda: é uma só, mas tem dois lados; e também envolve questões econômicas. A psicanalista Radmila Zygouris nos ensina que a pulsão (nem boa, nem má na sua origem) é a responsável pelo fluxo ou estase da vida, dependendo do arranjo que o sujeito faz para satisfazê-la. A estase pode ser mortífera quando imobiliza a dinâmica da vida. As compulsões exemplificam bem essa estase, onde toda energia pulsional é investida num único objeto de satisfação e a existência do sujeito vai se empobrecendo.

A força da pulsão utilizada para fins destrutivos ou de estase revela um provável rompimento dos laços, situação em que outros recursos deixaram de ser uma alternativa. Numa guerra, por exemplo, as possibilidades discursivas e de acordos ficam mais improváveis e as diferenças mais exacerbadas que as semelhanças. E a diferença nesse contexto é uma ameaça a ser eliminada. E o que funda um laço? Em primeiro lugar é nosso desamparo constitucional, sem o outro não podemos sobreviver. Mas isso não é o suficiente. Um laço nos oferece o sentimento de pertencimento, de que fazemos parte de algo, de um grupo, uma família, uma história, um trabalho, que temos um lugar e uma forma de ser no mundo. Laço, amor e projeto são conceitos que se amarram.

As relações pressupõem dar, receber e retribuir, contudo, para que essa dialética não se resuma a uma simples “troca pela troca” é preciso um “algo a mais” e que acontece naturalmente. É o que Lacan chama de Dom. Os objetos de amor carregam esse Dom, Dom de amor.

Quando alguém se lança na busca de um objeto, imagina que vai encontrar uma completude, uma satisfação e isso é a paixão, que não se sustenta por muito tempo, pois é arquitetada em cima de um ideal, de uma ilusão narcísica. Com o Dom de amor é diferente, literalmente, pois é constituído na alteridade, há um reconhecimento e um espaço para a diferença, há movimento devido à incompletude, como no jogo do “resta 1” as peças só se movem porque existe um espaço vazio. E o motor que movimenta a relação é a palavra. Então, no Dom existe a possibilidade de mal-entendidos, hiatos, desencontros, mas ele se sustenta mesmo assim. Na paixão amamos o que “parece ser” e no amor “para além do que parece ser”. O Dom é aquela “alguma coisa” que não sabemos explicar e que nos encanta no outro. É o que faz a mãe capturar o bebezinho para a vida e a matéria prima dos amores, amizades, talentos.

Outro dia estava na rua com minha filhinha e fui abordada por um rapaz jovem que pediu dinheiro para comer. Ele me contou que tem uma formação acadêmica, que já teve esposa, mas que agora vive na rua. Apresentava sinais claros de ser usuário de crack. Antes de irmos embora falou: “meu sonho é ser pai”. E o que essa passagem tem a ver com a pulsão? O sonho de ser pai precisa ser mais forte que a vontade de usar crack. Eros X Tanatos. Amor X Morte. Se houver a oportunidade de fazer um laço, que ele seja olhado para além do usuário de drogas, existe a possibilidade de que, através do Dom, ele vá em direção ao seu sonho e que este se torne um projeto de mudança. Os projetos dão sentido à vida, e se tornam projetos porque um dia foram sonhados. E sonhos verdadeiramente se realizam com Dons e não com bens.

E já que a proposta desta coluna é ilustrar o tema com uma canção, espalhando com a Rádio Cultura de Curitiba os ventos que sopram a boa música, nada melhor que uma canção da banda que é puro amor: “Something” dos Beatles. Composta pelo guitarrista George Harrison alcançou o topo das paradas da Billboard e foi considerada por Frank Sinatra uma das melhores musicas de amor já escritas da história. A inspiração é um mistério, a versão mais conhecida é de que foi composta para Patti Boyd, a então esposa de George.

 

Something

The Beatles

 

Something in the way she moves

Attracts me like no other lover

Something in the way she woos me

 

I don’t want to leave her now

You know I believe and how

 

Somewhere in her smile, she knows

That I don’t need no other lover

Something in her style that shows me

 

I don’t want to leave her now

You know I believe and how

 

You’re asking me will my love grow

I don’t know, I don’t know

You stick around now it may show

I don’t know, I don’t know

 

Something in the way she knows

And all I have to do is think of her

Something in the things she shows me

 

I don’t want to leave her now

You know I believe and how

 

 

Referências Bibliográficas

Freud, S. A Pulsão e seus destinos. Edição Standart das Obras Completas. Ed. Imago, 1976.

Freud, S. Além do Princípio do prazer. Edição Standart das Obras Completas. Ed. Imago, 1976.

Lancan, J. O Seminário, livro 4. A relação de objeto. Editora Zahar, 1995.

Zygouris, R. Pulsões de vida. Editora escuta, 1999.