As canções do exílio


Período em que artistas brasileiros foram obrigados a deixar o país rendeu obras que se perpetuaram como clássicos de todos os tempos. A convivência com o estrangeiro ajudou a afirmar o caráter cosmopolita da arte nacional

Caetano Veloso realizava um show na boate Sucata, no Rio de Janeiro, em meados de 1968. Ele e a banda utilizaram como cenário um pano estendido com uma reprodução da obra de Hélio Oiticica. No estandarte aparece a imagem de um homem morto e a inscrição “Seja Marginal. Seja Herói”.

Essa cena pareceu aos censores ser a gota d’água para que Caetano e todos os membros do movimento estético chamado Tropicália, então no auge, fossem considerados pernona non grata para o regime.

1968 já vinha do famigerado maio, em todo o mundo. As ruas ferviam nos EUA contra a Guerra do Vietnã e o racismo. De Paris à Primavera de Praga, quase nenhuma parte da Europa escapou ilesa à fúria das ruas e aos anseios da juventude. Também no Brasil, a insatisfação com o Golpe de 1964 enfim alcançava a classe média e ganhava as universidades. Os quebra-quebras eram frequentes em todas as capitais.

A ordem era eliminar os inimigos do regime. E os artistas não escaparam ilesos. Caetano e Gilberto Gil foram as primeiras vítimas mais notáveis. Após o decreto do AI-5 em dezembro de 1968, foram poucos os meses no ano seguinte para que as garras da repressão deitassem sobre os tropicalistas.

Presos em São Paulo, foram transferidos em jipes do Exército para o Rio de Janeiro, onde permaneceram presos em um quartel no distante bairro de Deodoro, zona norte da cidade. Foram três meses de cárcere. Após muita negociação e protestos por parte de familiares e amigos influentes, conseguiram que a dupla fosse transferida a Salvador, onde permaneceram em prisão domiciliar por mais alguns meses. Nos escritórios nos quais eram interrogados, os militares deram-lhes a opção, nada conciliatória: deixar o país. “Vá e não volte, nós vamos te encontrar”, disse um oficial a Caetano.

A cidade escolhida, meio a contragosto de Caetano, acabou sendo Londres. A chuvosa localidade já contava com um grupo de brasileiros que se autoexilaram fugidos da turbulência e falta de liberdade. Era a meca para onde todos rumavam, também em busca dos novos ares do flower power, que era mais vivo e efervescente na capital britânica.

Com temperamentos diferentes, os dois artistas tiveram reações opostas à atmosfera londrina. Enquanto Gil se empolgou, comprou uma guitarra Gibson Les Paul e foi fazer um som com a turma do Traffic, Caetano se acabrunhou em banzo quase permanente. Contatos com um produtor e músico inglês chamado Ralph Mace, que tocara com David Bowie, acabaram por gerar as produções de ambos durante o exílio. Mace produziu os três álbuns (dois de Caetano mais o disco de Gil) dos baianos realizados na Inglaterra. A “turma” era formada ainda por Jards Macalé, Guilherme Araújo, Péricles Cavalcanti, Gal Costa, Jorge Mautner, Antonio Bivar e até uma adolescente esperta que acabou tocando gaita em um blues que fecha o Transa (Caetano Veloso, 1972): Ângela Rô Rô. O período de exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil se deu entre 1969 e 1972 e resultou nos cultuados álbuns Caetano Veloso (1971), o citado Transa (1972) e Gilberto Gil (1971).

Na Itália, Chico Buarque também se autoexilou com a esposa Marieta Severo, preferindo não voltar, após uma turnê 1970, sob ameaça de ser preso no aeroporto assim que desembarcasse. Chico ficou até 1971. O resultado foi seu álbum Construção.  Jards Macalé volta de Londres, onde foi diretor musical da banda de Caetano, e grava o cultuado Jards Macalé (1972). Em Paris, Cacá Diegues participa de festivais, trabalha em televisão e enriquece seu repertório, que resultaria no imprescindível Bye Bye Brasil de 1980, enquanto Glauber Rocha fazia caminho inverso e defendia o plano de Ernesto Geisel (1974-79) para a recuperação democrática e cultural do país, dentro de suas próprias fronteiras.

Diversas obras em formato livro ou filme foram realizadas contado a história do período. Escritores, dramaturgos e artistas plásticos frequentaram as repúblicas onde viveram os mais famosos exilados brasileiros na Swinging London. Algo que acabou, por linhas tortas, conferindo um caráter ainda mais cosmopolita à arte nacional.

Fotos: reprodução

Ouça, leia, assista:

Verdes Vales do Fim do Mundo (Antonio Bivar, L&PM, 1984)

Verdade Tropical (Caetano Veloso, Cia das Letras, 1997)

1968: O ano que Não Terminou (Zuenir Ventura, Nova Fronteira, 1989)

Tropicália (Marcelo Machado, 2012)

Canções do Exílio – A labareda que Lambeu Tudo (Geneton Moraes Neto, 2010)

Narciso em Férias (Renato Terra e Ricardo Calil, 2020)

Transa (Caetano Veloso, 1972)

Caetano Veloso (1971)

Gilberto Gil (1971)

Jards Macalé (1972)