BaCk to Bahia


Se mudar pra Bahia em plena pandemia? Ah, mas você acabou de conhecer essa mulher! E o cachorrinho dela também vai? A ausência das aspas poderia indicar que essas indagações e afirmações baseadas em sei lá o que, fazem parte da minha cabeça cada vez mais cinza. Porém, o velho Willie sempre me lembra que nessa vida não há motivos para justificar qualquer tipo de preocupação. O caipira Willie fez 88 anos e lançou um manifesto com dicas para vivermos uma vida tranquila e feliz. Ainda não li isso, mas desconfio que o velho fora-da-lei mencione essa lição em algum canto. Agora ele está dentro da lei e lucrando milhões com a sua marca de maconha, mas isso é outro papo. 

A ideia sempre foi viajar, mas esse sonho latino americano foi pausado devido a maior pandemia do século 21, provavelmente dos outros também. Segurei o quanto pude, procurei me cuidar nesse meio tempo, mas o mosquito mochileiro me picou novamente e só me pediu pra não esquecer a máscara e o álcool em gel. O restante ficaria por conta da velha arma, também chamada de intuição. A mesma que vem me auxiliando em meu novo relacionamento. 

O sul já me mostrou tudo que poderia me oferecer, especialmente nesses tempos obscuros e que poderiam ser evitados caso nossas lideranças fossem sinceras, empáticas e minimamente inteligentes. Senti que era hora de abandonar os vícios sulistas: seus personagens recorrentes, seus prédios de mil andares, suas rodas gigantes megalomaníacas, suas bolhas sociais esquisitas e até seus papos pseudo naturebas, propagados por jovens virgens que já alcançaram suas iluminações, ao menos em suas mentes bombadas. E no topo de tudo isso, como se diria em inglês metido, sinto outra picada em minha pele mais enrugada, uma picada com o dobro de veneno, responsável por me fazer sentar novamente na frente de algum computador e… Escrever! 

E para escrever, o escritor precisa de assunto, conteúdo, inspiração com ou sem piração, ou qualquer outro nome pomposo que você queira inventar. E bem, nessa realidade pandêmica, nossos dias se tornaram previsíveis e é como se todas as pessoas do mundo virassem funcionárias de algum tipo de governo illuminati, capaz de criar um vírus como forma de controle populacional, e assim, todos os seres humanos ficariam presos em suas casas, alguns com algum conforto e muitos sem a garantia de um prato de comida. 

Em casa, o tempo costuma passar devagar, enquanto as tarefas do lar consomem uma parte do nosso dia. Cozinhar talvez seja a mais satisfatória e desafiadora de todas. Porém, se você tiver algum dinheiro e morar em algum centro urbano, com algumas dedadas no seu espelhinho preto favorito você pode comer rangos dos quatro cantos do planeta, ainda que suas receitas sejam adaptadas para a cultura local onde você, por algum motivo, esteja inserido. Mas falar de comida, de exercícios aeróbicos ou espirituais, filmes, séries ou qualquer outro produto que consumimos quando estamos em casa, não me parece o suficiente para qualquer aprendiz de escritor sentir vontade de se comunicar, assim como estou tentando fazer, sempre com tantas voltas assim como a referida roda gigante da terra dos liberais e dos fascistinhas cagadores de regras, incapazes de cumprir a mais simples de todas, o uso da salvadora máscara. “Bota a máscara, filho da puta”, diz a camiseta do comentarista esportivo da filial da emissora golpista. 

A viagem, ou melhor, a façanha de Hércules, como diria meu parceiro de estrada, ou mentor literário, como ele próprio gosta de repetir, envolveu uma série de tarefas enfadonhas, porém necessárias. Um depósito moderninho, para deixar boa parte das obras e tralhas minhas e da minha nova companheira. Uma caixinha para a cachorrinha, dentro dos padrões estabelecidos pela companhia aérea. MaMa é o canino não binário mais fofo e esperto que você irá conhecer. Além dessas funções, ainda precisei ir um par de vezes para a capital dos pinheirais e dos falsos profetas. Algo a ver com documentos roídos por MaMa e outros papéis amplamente valorizados no sistema burocrático que rege este país. O bacana foi ter passado minha última noite há quarenta quilômetros da (mal) dita capital. Meu pouso, apenas para recarregar as energias e retornar ao antro tropicapitalista, onde o negacionismo pandêmico reina e os reis estufam seus bolsos, enquanto suas ações nas bolsas decolam, meu pouso foi na casa de um camarada recente, um cara bem divertido e criativo que conheci melhor nos últimos meses que estive em Curitiba. Mas acontece que Leon não mora lá, sua casa fica em Pira-quara, nos arredores da grande capital. Em uma zona rural sossegada e bem, na real Leon tem duas casas, a sua própria, ainda em construção, e a outra, onde vivem um lindo casal de filhos e sua ex esposa, pra frentex e bem gente boa também. Leon é compositor, guitarrista e também pinta e desenha. Arte e música são nosso elo e nossas senhas para multiversos de loucura, regada a vinho e mais algum outro aditivo. Abraçados pelas benditas sincronicidades, comemoramos seu aniversário, justamente em um dos únicos 4 dias deste ano que passei nessa região. Ouvimos seus vinis, compartilhamos histórias, ideias e outras piras. Piraquara é legal pacas! Na manhã seguinte, Leon estava longe, com sua moto e suas missões, enquanto eu tomava um café preto e verde com seu filho maior. Kif é um garoto de ouro que também toca guitarra, além de criar desenhos com personagens da sua cabeça efervescente. Um dos seus sonhos de curto prazo é criar um canal no youtube e publicar vídeos jogando e comentando seus jogos prediletos. “Gamer” é o termo que inventaram pra isso, e talvez se você for tão velho quanto eu, essa ideia ainda soe nova pra ti. Conversamos sobre futurismos, ufologia, engenharia e de como estamos nos virando durante a pandemia. Kif confessou que tinha inveja de mim, pelo simples fato de eu já ter vivido muitas histórias antes do mundo se transformar nesse pandemônio sem prazo de validade, e que ele, por ainda ser muito jovem, está preso em casa, sendo obrigado a interagir com seus colegas de turma através de alguma tela cibernética. Uma tela asséptica, sem sal e sem molho, capaz de brochar mentes delirantes e corpos sedentos por aventura. “Até a cachorrinha vai viajar de avião, e eu que ainda nunca fiz isso na vida”, foi outro questionamento proposto pelo rapaz. Compreendo sua apreensão, mas lhe disse para aproveitar esse tempo ocioso para criar. Lhe disse que muitos artistas só desenvolveram seus talentos quando estavam confinados em suas casas, quartos de hospital ou mesmo em prisões decadentes. E essa mesma tecnologia brochante, pode ser seu refúgio de pesquisa e conhecimento. A expansão dos nossos sonhos passa por esse campo florido e ilimitado. A internet pode ter sido inventada por militares, porém hoje ela é amplamente usada por pacifistas e ambientalistas mundo afora. Encontrar algo positivo e revelador por essas bandas pode ser um pouco complicado, mas com um pouco de perspicácia e paciência, o belo da vida e tudo de errado que estão fazendo com o planeta estarão lá, de forma gratuita e sem filtros. 

O “pó da lua” da noite anterior ficou pra trás e era hora de caminhar pela empoeirada estrada de chão, rumo ao ponto do ônibus que me levaria a Curitiba e a carona de retorno a “BC”. E que carona maneira foi aquela, ainda que os congestionamentos pudessem provocar impaciência, o papo rolou solto e igualmente sem filtros. O condutor se chamava Rodolfo e possuía raízes nipônicas, e vinha fazendo esse trajeto com certa frequência, graças a nova namorada que conheceu no carnaval e que morava em Tubarão, uma cidade mais ao sul do meu destino. 

Após as resoluções necessárias, a viagem rumo a Bahia estava próxima. Minha companheira Dudu, sua cachorrinha MaMa e eu passamos a última noite no litoral catarinense na casa de amigos, uma casa bem interessante e cheia de arte, berço para diversos artistas de diferentes partes, algo a ver com aquela história sobre a casa dos sonhos de um passado cada vez mais remoto. Dudu tem sido minha companheira desde a virada do ano, após um encontro permeado por símbolos astrais, cupidos de ambos os lados e o bom e velho desejo sexual. O trajeto, na manhã seguinte, envolveria uma pequena viagem até a cidade vizinha Navegantes, passando por um ligeiro ferry boat de meros 15 minutos. O aeroporto estava lá, ainda que se assemelhasse a uma rodoviária em vários sentidos. E é sempre bom poder atravessar a rua e encontrar uma padaria honesta, distante dos assaltos costumeiros praticados em aeroportos internacionais. Na sala de embarque aguardamos nosso voo com certa ansiedade. Logo percebemos que o mesmo estava atrasado e que talvez até pudesse ter sido cancelado. No caminho até a companhia aérea, uma boa notícia apareceu na tela do saguão, nosso voo estava em processo de embarque. Faríamos uma conexão em São Paulo e graças ao atraso inicial, chegamos lá e saltamos para outro avião rumo à Salvador. Um voo meio incômodo, devido a uma criança sentada no assento traseiro e que berrou durante as 3 horas de voo. Quando não estava chorando ela também gritava e emitia sons agudos irritantes. Finalmente chegamos no salão onde resgatamos nossas bagagens e o curioso foi perceber que elas foram as primeiras a aparecer na esteira, algo que não lembro de ter acontecido anteriormente.   

Saímos pro lado externo do aeroporto e antes de terminarmos os primeiros cigarros em solo baiano, nosso carro ou transfer já estava lá, com um baiano pronto para nos levar até outro ferry boat, porém desta vez o trajeto seria mais longo, de uma hora, mais ou menos. O motorista se chamava Ronei, assim como seu conterrâneo que tinha uma banda com nome de filme clássico italiano. E foi nesse trajeto, do aeroporto até o ferry e depois do ferry até o nosso futuro lar, que pude lembrar algumas gírias locais, além de me atualizar nas novas. Outro ponto positivo do povo baiano é o senso de humor, sempre aguçado e direto. Ao ser abordado por um vendedor ambulante que ao vender uma garrafa de água ofereceu mais três, Ronei indagou: “Só uma rapaz, não quero tomar banho com essa água não”. 

E antes que chegássemos na almejada casa, comecei a receber algumas mensagens interessantes vindas do proprietário, poucas horas antes de pegarmos as chaves com o próprio. A primeira era sobre a estrada e sobre um trecho específico, sem iluminação. “Não se assustem, é assim mesmo e passa rápido”. A segunda era sobre um suposto alagamento na rua da frente da casa. “Choveu muito nesses últimos dias e a água invadiu parte do terreno, comprometendo o acesso ao imóvel”. Mas isso também não era algo para nos assustar, uma vez que ele já estava resolvendo a situação. De qualquer maneira, estávamos em uma ilha, e bem, uma ilha tem suas vantagens, assim como algumas desvantagens, como por exemplo, a dificuldade de encontrarmos os camelos famosos que Dudu gosta tanto de fumar. E como se não bastasse, nosso plano de fugir da “babilônia” não consistia apenas em morarmos em uma ilha na Bahia, escolhemos um bairro bem peculiar, batizado de “Cacha Pregos”. Existe a expressão para definir distâncias absurdas, os mais jovens talvez escolham dizer “lá na casa do caralho”, enquanto os mais velhos dizem “lá em… Cacha pregos!”.  Entretanto, esse aparente fim de mundo que escolhemos para passar esse fim de mundo atual, não é tão negativo como parece. O nome da nossa rua, essa mesma que no primeiro dia estava alagada e praticamente interditada, se chama Felicidade. E a Rua Felicidade faz parte do condomínio Harmonia. Fecharia com chave de ouro caso o número da casa fosse 13, mas fiquei contente com o número 9, o favorito do meu beatle favorito. 

Já estamos aqui há um mês, tempo suficiente para nos familiarizarmos com o local e só posso dizer que Cacha Pregos provavelmente é o melhor canto desse cantinho da ilha. Apesar de outros bairros ou vilarejos terem estruturas comerciais maiores, “Cacha” é naturalmente mais bela e apesar do pequenino povoado, as pessoas costumam ser simpáticas e acolhedoras, características comuns na terra de Gal, Paquito e do ex maldito Tom. O clima melhorou bastante desde que chegamos, e ultimamente tem se mantido estável, com tardes ensolaradas e poucas nuvens. Entretanto, enquanto finalizo essas linhas sem grandes objetivos, hoje a chuva caiu durante praticamente o dia todo e embaixo do toldo reflito sobre as mais de 500 mil mortes por covid e que poderiam ter sido evitadas, ao menos em boa parte, caso o governo tivesse respondido a proposta do laboratório das vacinas com a mesma velocidade que respondeu, sem hesitar, a proposta para sediar a copa américa, algo que certamente fará esse número de mortes crescerem ainda mais. Recentemente o ser inominável aparece numa “live” para dizer que a eficácia infecção do vírus “chinês” é maior que qualquer vacina, em mais uma comprovação clara da imunização de rebanho, uma estratégia maluca e genocida, e que, sim, precisa ser responsabilizada. Penso no sentimento daqueles que apoiaram e pasmem, ainda apoiam esse pseudo presidente assessorado pelo diabo, também conhecido como Sr. Malafaia. Se ainda há algum tipo de humildade em vossos corações, ao menos demonstrem seu arrependimento e claro, não se esqueçam de se informarem melhor na próxima vez que vocês resolverem seguir qualquer mito que lhes convenha. Por hora, só posso expressar o meu sentimento em relação ao maior genocídio da nossa história apoiado por grande parte do povo brasileiro: decepção. Vergonha alheia e tristeza profunda também se encaixam nessa descrição. No mais, a Bahia continua linda e ter acarajés na porta de casa é um grande privilégio. Sementes na lata também, porém isso é papo pra outro papo, bebendo licor de jenipapo. Mais uma vez, obrigado primo Tito por me ajudar novamente nesse sentido! 

 

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Igor Moura, junho de 2021

 

Arte: Luluca/IMA