Breve reflexão sobre a pandemia, a vingança dos morcegos ou a lição da mãe Terra


O novo coronavírus expandiu-se por todo o globo deixando de ser um problema localizado. É tempo de pandemia, tempode desafio às capacidades reflexivas e agentivas de todos que se veem diante da difusão do patógeno que tem levado milhares de pessoas a hospitais e cemitérios. Desde que a doença atingiu proporções planetárias, ideias e soluções oferecidas por chefes de Estado,religiosos, pesquisadores etc. são colocadasà prova. Por fracasso ou sucesso, as proposições têm ganhado repercussão na mídia brasileira. Vimos, por exemplo,o prefeito milanês pedir desculpas por ter resistido ao confinamento social,alguns messiânicos anunciarem o apocalipse do retorno de Cristo e o projeto da Organização Mundial da Saúde (OMS) de testagem de hipóteses terapêuticas nascer sob comando da Fiocruz.

Com os indígenas não tem sido diferente, eles têm participado do debate. A deputada federal JoêniaWapichana (Rede-RR) apresentou proposta de lei para alterar a Lei nº 8.080/90 acreditando que os mecanismos legais para enfrentamento de pandemias são,ao menos em parte, inadequados às especificidades dos povos indígenas no território nacional. Ou seja, osindígenas são propositivos à resolução da crise sanitária. Entre os dias 27 a 30 de abril, o Acampamento Terra Livre (ATL), que acontece tradicionalmente neste mês, discutirá muito provavelmente a importância do direito específico à saúde dos indígenas, porque o contexto assim requer e porque, no ano passado, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) esteve sob ameaça de extinção. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), no dia em que divulgou as datas do ATL – que será online – ressaltou, em seu Instagram, a vulnerabilidade em que seus representados se encontram. Do ponto de vista dessas pessoas, não estamos sabendo construir medidas quesejam, em circunstâncias de diferença e desigualdade, tão igualmente eficazes para garantira saúde coletiva. Não se trata, percebam, de direitos iguais, mas de direitos diferentes para,na diversidade, assegurar qualitativamente igual o bem-estar de todos. Os indígenas colocam desafios ao curso que uma sociedade que se pretende democrática deve fazer para conter a pandemia.

Neste texto, defendoa necessidade derefletirmos,com os indígenas, sobre o momento. Isto é, de construirmos questões para a superação da crise a partir de reflexões conjuntas.Os indígenas, além dessas proposições pragmáticas às políticas sanitárias,têm interpretado a modos particulares essa que, nos jornais do país, aparece como uma guerra entre nós, os humanos, e o vírus.Duas de suas elaborações conceituais chamaram-me atenção nos últimos dias. Uma belamente traduzida do pensamento hunikuin por ElsLagrou, antropóloga da UFRJ, e uma outra não menos bonita revelada por Ailton Krenak em “O amanhã não está à venda”.

A conclusão de ambos os autores é que a pandemia tem como causa umaoposição filosóficaque humanos fazem com tudo o que não reflete a sua condição particular. Atribuímo-nos uma condição excepcional. Essa oposiçãofundamenta a forma capitalista que, no plano das relações, estabelecemos na atualidade com os diferentes. Tudo, ou quase tudo, que não seja gente é apropriável emercantilizável. Grosso modo, a ordem global hegemônica rompeu com outros sistemas,comumente classificadoscomo culturais (povos tradicionais) ou naturais (animais, vegetais, virulentos etc.), a tal ponto que seimpedeà apreensão do princípio da relacionalidade que governa a rede das existênciasinterdependentes. À medida que sustentamos o avanço dessa forma de se ver e viver,não estamos bem atentos à indiferença (ou ao pressuposto da superioridade, da hierarquia, da dominação, enfim…) que é mantidapara com os demais viventes (gente e não gente). Os não humanos, no entanto, são providos de potência reativa.

Os Xucuru-Kariri com os quais trabalho já narraram a mim, por exemplo, a ciência do jenipapo. Segundo alguns desse povo que vive no Sul de Minas Gerais, a tinta do vegetal já produziu ilusões e desarranjos orgânicos por ali. Os HuniKuin da Amazônia acreana e peruana, descreveLagrou, têm o conceito de yuxinpara explicar agências parecidas. O termo refere-se, em pouquíssimas palavras, à capacidade de muitos seres –o morcego, por exemplo– de afetar o outro. Pelo mundo, encontram-se intencionalidades com as quais deveríamos tomar muito cuidado.

Escrevendo num códigomais familiar a nós, a capacidade de fazer adoecer, liberada de animais na forma de vírus, conduzforçosamente à percepção de que a natureza,da qualnos queremos destacados,impõe seus limites.Encontramo-nos impotentes frente à vingança pela qual ela sinaliza, não é de hoje, seu contundente descontentamento com a vertiginosa desestruturação do equilíbrio das relações entre suas partes (o vírus e o morcego, por exemplo).Lagrou é bastante assertiva ao dizer que o problema não é o comer, mas como estamos criando necessidades que exigem mais recursos (leia-se menos áreas de conservação). Se os chineses lhe aparentam os únicos culpados, então seria bom refrescar a memória com a dispersão do Mal da Vaca Louca nos rebanhos do centro civilizado do mundo devido às exigências do consumo.As ações humanas criam seus “perigos mortais” ao alterar a natureza, escreveu Lévi-Strauss em sua “A lição de sabedoria das vacas loucas”.

Krenak, intelectual do povo que vive às margens do mineiro Rio Doce, diz quenos divorciamos do plano geral da vida (onde todos os demais seres estão reunidos) e, concebidos agora como os humanos, enfrentamosas inesperadas contrarreações em razão de nossolivre e irresponsável uso da Terra. A comprovação é clara: “o vírus não mata pássaros, ursos, nenhum outro ser, apenas humanos”. Nós, humanos, é que estamos em pânico, diz ainda Krenak.

Se, por um lado, isso tudo que está acontecendo é efeito-vingança de como viemos nos constituindo, por outro, é oportuno conseguirmos aprender algo. Krenak elabora que a situação é como amãe (a Terra) que determina contenção ao seu filhoimpetuoso (os humanos). O custo do aprendizado tem sido, infelizmente, muito caro. As vidas que se foram e as retrações econômicas não podem permanecer como estatísticas, precisam implicar em mudanças urgentes. Compartilho com o autor o receio de ouvir frequentemente o desejo de regresso à forma vivida antes: “tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro”. Mas quais mudanças e quão profundas devem ser?

Como disse outrora, enquanto pululam conversas sobre a flexibilização do isolamento no intuito de reaquecer a economia,deveríamos insistir em “recriar” o termo que aparece nas soluções que o governo e setores da elite quer dar ao problema. Mas, antes disso, vozes indígenas sugerem uma inflexão no conceito de humanidade que autoriza uma série de atividades, inclusive a econômica.Conforme pensamos juntos a causa da crise, redesenhamos saídas melhores – de mais longo tempo –para o conjunto das espécies. Queremos, talvez daqui uma década, assistir novas letalidades serem extraídas por nós dos não humanos? Posta dessa maneira a questão, tudo se encontra em relação, como dizem querer (apenas em princípio) os partidários do governo. Vidas, pessoas, economia, sociedade e natureza numa relação em que para uns existirem muitos não precisem desaparecer ou morrer. Que conceitos de economia teríamos, então: economia sustentável, agroecologia, agricultura familiar?

Ao que parece os povos indígenas têm muita lição a darquando levamos a sériosuas proposições compreensivas e resolutivas acerca dos eventos vividos. Sendo, portanto, rentável ouvi-los, não seria o caso de questionarmos se o povo morcego e a mãe Terra nos percebe somente como totalidade (a humana)? Quando inicia seu processo reativo, ela não distinguiria – segundo a classificação de Krenak – os “núcleos ainda agarrados a Terra” ou “sub-humanidade” (os caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes) que tem evitado levar um projeto como o da humanidade humana?A pandemia atinge humanos indiscriminadamente, diz Krenak. Embora isso, é constantemente lembrado que os mais vulneráveis são justamente quemestá nas bordas de quem empreende o sistema em expansão.

A mídia (leia-se a televisiva de massa) explica a pandemia principalmente de uma perspectiva médico-biológica. O número de infectologistas narrando reações inflamatórias causada pelo vírus é expressivo. Nos programas, nada ou pouquíssimo se incorpora dos indígenas que pensama doença como efeitos de ações humanas. Ganhamos em entendimentose a covid-19 for tratada mais do que interação entre organismos (sem a filosofia hegemônica que devora o mundo) e mais do que puro avanço do vírus (sem as alterações provocadas na ecologia existente).Ao que parece, essa é a mesma mídia que explica a vulnerabilidade da periferia, dos negros, dos indígenas no enfrentamento à pandemia mencionando as desigualdades socio-historicamente produzidas, logo por humanos.

Longe de querer dizer que isso não seja verdade. É completamente verdade. O que pretendo por último é apenas adicionar camadas de compreensão ao problema. Minha tendência é seguir o pensamento indígena, como vim fazendo.

Não lancei por acaso a questão se a natureza reage indistintamente contra os humanos. Krenak deixa evidente o começo dessa resposta: “como explicar a uma pessoa que está fechada há um mês num apartamento numa grande metrópole? Desculpem dizer isso, mas hoje já plantei milho, já plantei uma árvore…”. Ibã Sales HuniKuinnão permite responder de outra maneira. Lagrou escreve que ele disse ao final da conversa ao telefone: “Vamos nos retirar na floresta, vamos ficar quietos”. Dá aldeia xucuru-kariri em Caldas enviaram-me mensagem semelhante. Informaram-me, nesse fim de semana, que não estavam recebendo ninguém e que subiriam para a mata. Enfim, talvez possa ser ditoque onde reconhecemos a natureza seja onde esteja a cura e a proteção de que precisam. Comparado a nós, os indígenas têmsignificativamente menos infectados e mortos. A vingança é contra os humanos mesmo, mas os humanos que construíram o divórcio com as demais existências.Quem historicamente levou e pode estar levando doenças altamente mortíferas às aldeias foram os brancos.A vulnerabilidade de uns existe porque nós existimos. É hora de reconstruirmos os termos em relação. E isso não tem a ver só com economia e pessoas, ou pessoas como nós pensamos que sejam.A natureza está entre a causa e a solução.