Campainha

WagnerRengel;FaenaRossilho

Crédito: Faena Rossilho

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– Quem é?

Nada assusta mais que o silêncio atrás de uma porta.

– Quem é?

Pelo olho mágico não vê ninguém. Se afasta. E de novo ouve o som da campainha. Leva um susto. Fica tensa. Não esperava ninguém.

– Quem é, porra?

Dá mais uma volta na chave e tranca de vez a porta. Liga para o porteiro que diz que ninguém subiu. Olha no olho de novo. Nada. Se afasta da porta. Apaga a luz e olha pela fresta embaixo da porta. Nenhuma sombra, nem luz. Liga de novo para a portaria e pede para o porteiro subir até seu andar e dar uma olhada. Ele sobe. Toca a campainha. Ela abre. Só os dois. Não tem nada. Desconfiam de vizinhos. De crianças. Ele vai embora. Ela se tranca lá dentro de novo. Se tranquiliza. Nem tanto. Liga para uma amiga. Pede para ir até ela e dormir junto. A amiga chega. Ela abre a porta e fecha rápido. Tomam um vinho, fumam um. Tentam relaxar. Falam bobagens.

– Pode ser coisa de espíritos.

Era frase que faltava ser dita e a amiga disse.

Duas da manhã dormem, mas nem tanto. Três e meia ouve a campainha tocar. A amiga também ouve. Vão devagar até a porta. Pela fresta olham tudo escuro. Nem a luz automática do corredor acendeu. Gelam. Ficam ali na frente da porta. A amiga reza enquanto fecha outro.

Arrumou tudo o que pode das quatro da manhã até o amanhecer. No meio disso a campainha tocou mais duas vezes e a amiga, chorando, fechou o terceiro. Oito e trinta abriu a porta com mala, cuia, amiga e o seu cágado de estimação. Pagou caro por uma empresa de mudança que tirou tudo de lá. Nunca mais voltou.

A moradora seguinte abriu a porta quando a campainha tocou. Não viu ninguém na primeira, nem na segunda. Ligou na portaria e pediu uma indicação de marido de aluguel. Seu Jorge veio todo vestido de branco e trocou a campainha.“Nunca mais tocara sem ninguém, minha fia”, disse Seu Jorge, com uma voz rouca e cansada.

Ela pagou, agradeceu e fechou a porta.

 

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