CHADWICK BOSEMAN E O LEGADO DE PANTERA NEGRA

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Chadwick Boseman nos deixou em 28 de Agosto de 2020, aos 43 anos, vítima de um câncer contra o qual ele lutava há tempos, luta essa que ele mantinha em segredo. Sua verdadeira identidade, afinal, era a de um herói. E Pantera Negra é a obra que melhor sintetiza o legado heroico de seu memorável intérprete, não só por enfrentar super vilões em alucinantes cenas de ação, mas pelo discurso que traz, seja ele literal ou metafórico, mas sempre pertinente.

Sim, Pantera Negra é mesmo um verdadeiro manifesto social e cultural que versa sobre os atualíssimos temas da igualdade e da representatividade e ainda confirma a sua já esperada importância no cenário político mundial em que vivemos. Elogiadíssimo pela crítica à época de seu lançamento, 2018, indicado a sete Oscars e vencedor de três: Trilha Sonora, Figurino e Design de Produção, este longa da Marvel Studios traz consigo, no recheio de sua caprichada embalagem de blockbuster, uma série de abordagens que incentivam o expectador a refletir sobre escolhas, decisões, ações e suas consequências, não só na sociedade específica em que ele se passa, mas também no mundo real ao qual pertencemos. Não era de se esperar que fosse diferente, visto o nome escolhido para a condução do projeto, o sempre empenhado em defender causas sociais e raciais Ryan Coogler. No roteiro escrito por ele e Joe Robert Cole, o fictício país Wakanda e os desdobramentos acerca de sua sucessão real ganham contornos que se mostram muito relevantes, aludindo também ao delicado momento diplomático ao qual o mundo, atônito, mais uma vez observa.

Pantera Negra marca a terceira colaboração de Michael B. Jordan, que faz o vilão principal, com o jovem cineasta Ryan Coogler. A parceria começou no longa de estreia do diretor, o já engajado Fruitvale Station (2013), e continuou com a elogiadíssima “sequência quase reboot” de Rocky, Creed (2015). O compositor sueco Ludwig Göransson também se faz presente nas três obras. Sua trilha instrumental que, desta vez, naturalmente, inclui elementos da musicalidade africana, ilustra com exatidão algumas belas e iconográficas imagens em que vemos danças e rituais típicos do continente, ao passo que o repertório de canções hip hop produzidas (e algumas cantadas) pelo rapper Kendrick Lamar, complementam a trilha com aquela personalidade marcante conquistada pela influente música negra norte-americana que há mais de meio século tem garantido seu merecido espaço no mercado fonográfico. Os méritos do filme realmente são muitos!

Os primeiros segundos da projeção nos trazem uma bela introdução em computação gráfica apresentando a origem do minúsculo país encrustado no coração da África e que, graças ao meteoro de vibranium que lá caiu muito tempo atrás, se desenvolveu de tal forma a ponto de se tornar a nação mais avançada do planeta, contudo, mantendo em segredo e guardando para si seus trunfos tecnológicos. A parcela mais contestadora do público já pode emular aí o primeiro questionamento: por que não compartilhar de tantas maravilhas com outros povos? Por que não ajudar ao menos seus próprios vizinhos, os demais países do continente africano, muitos deles vítimas de golpes de Estado e sucessivas guerras civis? As atividades de infiltração perpetradas por Nakia (Lupita Nyong’o) tentam achar soluções para a equação desse dilema humanitário, e fazer a diferença na crise dos refugiados que, no nosso mundo real, volta e meia preenche os noticiários, para tristeza de todos aqueles que se compadecem com o próximo, mesmo que este próximo esteja a oceanos de distância.

Ainda no início do longa, somos levados à Califórnia dos anos 1990 onde vemos o rei T’Chaka (John Kani), pai de T’Challa, devidamente trajado como o Pantera Negra da época, em uma descoberta que o faz tomar uma drástica decisão em relação a seu próprio irmão, acusado de traição. O pequeno sobrinho do rei, contudo, nascido nos EUA, lá crescerá e verá muitas injustiças e crueldades ocorrendo com negros e imigrantes, o que só o fortalecerá para, no momento certo, reivindicar o trono de Wakanda. Uma vez rei, ele poderá fazer algo em prol de milhares de excluídos ao redor do mundo. Falando assim, parece até que estamos nos referindo ao herói. Trata-se, porém, do vilão que, como você acabou de ler, traz consigo uma das justificativas mais plausíveis até agora para um antagonista de um filme da Marvel Studios, tornando-o tão (ou mais) complexo quanto o herói.

Michael B. Jordan dá a seu personagem, o vilão Eril Killmonger, uma bagagem emocional extremamente verossímil, que também remete ao Magneto vivido com intensidade ímpar por Michael Fassbender na franquia X-Men. O expectador sabe que seus métodos são errados, mas fica tentado a imaginar o que aconteceria se ele chegasse lá. O discurso incisivo que Killmonger traz em sua agressiva investida fará o Rei T’Challa (Chadwick Boseman) rever seus conceitos acerca da política externa do país que começa a reger. Mas não sem antes ter sido derrotado em seu próprio território no desafio pelo trono proposto por Killmonger, também possuidor de sangue real. Jogado à correnteza no segundo ato, T’Challa tem tempo para refletir sobre o futuro de Wakanda e o seu próprio. Como ele é nobre de espírito, nosso herói irá, durante esse processo, assimilar grandiosos aprendizados, a serem aplicados quando recuperar seu trono perdido.

Além da presença e do carisma de Boseman e Jordan, o elenco de Pantera Negra é composto também por outros talentos igualmente formidáveis. O sotaque dos personagens de Wakanda (“I neverrr frrreeze!”) é muito descolado. O humor é leve e sutil, surgindo principalmente nas intervenções da irmã de T’Challa, a cientista Shuri – desempenhando um papel semelhante ao do Q de 007 –, vivida pela carismática Letitia Wright, e na canastrice proposital de Ulysses Klaue, encarnado em estado de graça por Andy Serkis. Os oscarizados figurinos resgatam com louvor a cultura afro. E as sequências de ação, incluindo um audacioso plano sequência (com uma ajudinha digital) no cassino da Coréia do Sul (a peruca em Danai Gurira compondo Okoye disfarçada está impagável!), até chegar ao confronto final no qual as Dora Milaje (guerreiras da guarda real) mostram seu vasto potencial de batalha, são contagiantes. Afinal, por mais politizado que o filme possa parecer, todos estes ingredientes somados dão ao expectador aquilo que ele também deseja: entretenimento, e da melhor qualidade!

E, se durante a projeção, em um ou mais momentos, você se lembrar de O Rei Leão, não se espante. Se no próprio trailer a referência já era declarada, na bela cena em que T’Challa, em transe, encontra seus ancestrais em forma de panteras descansando nos galhos de uma árvore tendo um céu violeta ao fundo, o longa traz muitos outros momentos que remetem ao grande sucesso da Disney de 1994 que, por sua vez, bebe na famosa fonte ‘shakespeariana’. As conspirações e traições ‘reais’ visando o trono e o poder (em que entra o dúbio líder tribal W’Kabi, papel de Daniel Kaluuya, o astro de Corra! e Judas e o Messias Negro), o ‘exílio’ do herói e, por fim, o seu retorno em grande estilo. Há ainda Zuri (Forest Whitaker), uma espécie de curandeiro do reino que desempenha função muito semelhante à do sábio Zazu, que serve à Mufasa e, depois, à Simba. Até trechos da trilha sonora se parecem. E por aí vai…

Embora seja pertencente a uma saga maior, nada menos do que o MCU (Universo Cinematográfico Marvel), Pantera Negra funciona muitíssimo bem sozinho. Afinal, o foco é no personagem-título, e em toda a sua jornada para se estabelecer como rei de Wakanda. Uma das cenas pós-créditos, na qual T’Challa discursa para a ONU, se comprometendo a compartilhar os conhecimentos de seu país com o restante do mundo, sintetiza a bela mensagem universal que a obra nos propõe: partilha, solidariedade, fraternidade. Esta fala, solenemente proferida por T’Challa, foi inteligentemente escrita em plena era de governo Trump: “Enquanto alguns idiotas querem erguer muros, os sábios preferem construir pontes”.

Discurso pertencente a uma produção cinematográfica possuidora de um poder de alcance que transcende o tempo, o espaço geográfico, as fronteiras entre as nações, o negacionismo, a indiferença, a intolerância, a cor, a raça, a nacionalidade, e a personalidade imponente de Boseman ao dizê-la em tela torna essas palavras ainda mais marcantes e inspiradoras. E como foi emocionante ver ao redor do mundo escolas e instituições levando suas crianças, muitas das quais nunca tinham ido a um cinema, para assistirem a esta obra tão representativa em sessões programadas exclusivamente para eles. Obrigado, Chadwick Boseman, o Pantera Negra de toda uma geração, por ter sido exemplo de coragem dentro e fora das telas. Wakanda Forever!!!

Pantera Negra está disponível no catálogo do Disney+.