Christiane F. – Uma viagem dentro da Berlim hedonista


Um outro olhar acerca do clássico filme de Uli Edel faz ver além da história de adolescentes junkies. O filme é literalmente uma viagem vertiginosa por uma Berlim ainda dividida pelo muro

Christiane Vera Felscherinow é escritora e blogueira. Aos 58 anos, vive uma vida pacata em algum ponto no interior da Alemanha. Uma espécie de popstar que beira a aposentadoria, como tantas existem por aí.

Sua fama veio à luz há 42 anos passados, quando foi responsável pelo depoimento em um tribunal — onde era julgada por posse e consumo de heroína — que encantou e levou os jornalistas Kai Hermann e Horst Hieck a escreverem um livro sobre sua vida de vício e prostituição. O resultado se transformou em cult e best seller. Foram mais de 4 milhões de exemplares vendidos. Até hoje um dos livros de não-ficção mais procurados na Alemanha. Surgia aí o “personagem” Christiane F.

Após a fama instantânea, cantou em bandas de punk/eletropop, gravou, discotecou, teve recaídas diversas, escreveu seus próprios livros, e continua a dar entrevistas sobre sua experiência, de antes de depois do vício.

Christiane nasceu em Hamburgo, em 1962. Filha de pais separados, por volta de 1974 já vivia em Berlim e frequentava a Bahnhof Zoo, estação de trens e ônibus, um tradicional ponto de viciados em heroína e prostituição, onde jovens fazem michê visando dinheiro para aquisição de substâncias tóxicas.

A narrativa é envolvente e acaba tornando-se uma espécie de libelo do comportamento da juventude, com detalhes da cultura pop vigente, das dificuldades da classe operária alemã ainda em sequelas pela Segunda Guerra Mundial e a consequente Guerra Fria que se seguiu. Uma sociedade recém-saída dos escombros, que se reerguia na incerteza dos anos loucos da então quase finada contracultura. No olho do furacão da divisão do mundo entre capitalismo e socialismo. Viver em Berlim nos anos 1970 era estar de um lado ou outro do muro que separava estes dois mundos. Christiane vivia do lado ocidental. Moderno, industrial, pujante, e ao mesmo tempo agressivo e selvagem. Um pulo para o hedonismo. E o maior símbolo do hedonismo naquele começo de final de século foi o consumo desenfreado de drogas.

Na esteira do sucesso do livro, seguiu-se uma produção cinematográfica que já nasceu um clássico instantâneo. Não houve quem tivesse a mesma idade de Christiane à época de sua exibição ao redor do mundo (1981-82 no Brasil), que não saísse do cinema com “uma imensa vontade de tomar um pico”. É a grande verdade.

O filme Christiane F. – 13 anos, Drogada e Prostituída (Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, 1981) no entanto é muito mais que a triste história da adolescente junkie e sua gangue. Baseado no ótimo livro, é incrivelmente tão ou mais brilhante. Cinema alemão de qualidade. Contou com direção de Uli Edel e roteiro de Herman Weigel. A protagonista foi interpretada pela jovem Natja Brunckhorst. Jürgen Jürges e  Justus Pankal foram responsáveis pela escurecida fotografia, peça chave para o entendimento mais pontual e significativo da obra, algo a que muito poucos atentam.

A cinematografia é toda focada no transporte público de Berlim. Quase um tratado sobre. Sempre em takes muito etéreos e perfeitos, percorrendo um ponto a outro, com o ponto de vista de quem “está a bordo”. A “viagem” funciona como numa metáfora que retrata a transição da adolescência para a vida adulta e/ou a própria transcendência através das drogas. Além, é claro, de o ponto de encontro da turma de viciados de Christiane ser a tradicional estação que nomeia o filme (Estação Zoo, terminal estratégico para o transporte público nos tempos daquela Berlim dividida).

Não são poucas as cenas em que Christiane está, ao final de uma tarde-noite de “mangueio” (ato de angariar dinheiro na rua) no ponto de ônibus, onde sempre há um conflito com algum cliente ou traficante, ou com seu namorado Detlev (Thomas Haustein), igualmente viciado e michê de carteirinha, que engana a namorada dizendo “não ser profissional do ramo”. A tais cenas, seguem-se sempre o embarque da garota no coletivo, e o traslado para um metrô na volta pra casa. Sempre a trajetória como foco. Luzes da cidade, prédios de algumas espécies de “cohab” — iguais ao conjunto no qual vive Christiane com a mãe, em um subúrbio berlinense — surgem às dezenas na paisagem.

O filme tem linguagem. É apropriado em toda sua proposta, roteiro e fotografia. Segue mais ou menos à risca tudo que é descrito no livro, mas ganha em vivacidade. Mesmo a morbidez da Bahnhof Zoo, da boate Sound e dos jovens ao redor do ginásio onde acontece o histórico show de Bowie acompanhado pela turma de viciados que encabeça a trama da película. Os cenários soam vivos e ardentes aos olhos de quem assiste. Ninguém de fato passou ileso pela viagem de Christiane F.

Apropriadamente, a canção que Bowie canta na parte em que ocorre seu show dentro da história é Station to Station. Certo.

 

Fotos: reprodução

 

Assista: Station to Station, Bowie in Chistiane F.

 

Assista: Christiane F – Trailer