Coleção Vaga-Lume. A primeira viagem de várias gerações pelo mundo da leitura


Série de livros lançada semestralmente iniciou há quase meio século. E segue formando novos leitores até hoje

Em meados dos anos de 1950, a necessidade da educação de pessoas para além das classes escolares tradicionais, desde a alfabetização, era mais que um novo nicho de negócios, mas também uma carência do Brasil daquele tempo. Um país que se industrializava, e que via suas grandes cidades invadidas por uma nova classe trabalhadora, predominantemente vinda do mundo rural. Muito desse efetivo nunca teve chance de passar sequer perto de uma escola. Muito menos de um livro.

Nesse contexto, um grupo de jovens professores — os irmãos Anderson Fernandes Dias e Vasco Fernandes Dias Filho, junto ao amigo Antonio Narvaes Filho — inicia um empreendimento voltado para a educação de jovens e adultos: o Curso Madureza Santa Inês. As atividades começam em 1956. “Madureza” é a forma como foram chamados à época tais cursos, e consistiu do início do que hoje é o supletivo. O grupo seria responsável no futuro pelo curso Objetivo. Mas a história aqui é um pouco mais peculiar.

A equipe formada pelos irmãos Dias e o amigo Narvaes Filho logo se vê sobrecarregada em um quesito muito importante para quem lança empresa no ramo da educação: a necessidade de impressão de apostilas com conteúdo e material didático. Em 1962, eles fundam uma associação gráfica, a Sociedade Editora Santa Inês Ltda. (Sesil). O que já em 1965 ascendeu para a Editora Ática. E a história começou a mudar de verdade.

Na Ática dos primeiros anos, muitos dos editores eram também professores em escolas, a exemplo de seus fundadores. Caíam sobre as mesas executivas ideias diversas que dessem dinâmica à vida docente. Lá por 1969, a Ática lança uma série de livros chamada Bom Livro, que reuniu clássicos das literaturas brasileira e portuguesa. Os livros vinham com uma ficha de leitura. O que ajudava os professores que, no equivalente ao ensino médio da época, tinham o costume de solicitar aos alunos a ficha dos livros lidos. Uma novidade que pegou bem no meio acadêmico, e que rendeu sucesso à editora.

No início dos anos 1970, Avelino Correa, Granville Ponce, e Jiro Takahashi, editores responsáveis da Ática, com grande incentivo do diretor-presidente Anderson Fernandes Dias, iniciou a seleção de diversos títulos voltados ao público infanto-juvenil.  Com preferência para autores contemporâneos. A ideia seria uma série voltada para leitura extraclasse, mas com alunos das últimas séries do então ensino fundamental (ginásio naquele tempo, 5ª a 8ª séries).

Assim foram escolhidos dois livros: Éramos Seis, de Maria José Dupré, e Coração de Onça, de Ofélia e Narbal Fontes (um casal que escrevia a quatro mãos). Os títulos citados saíram pela série Bom Livro. A ideia era ver se estes títulos novos seriam aceitos como os clássicos usuais. Houve sucesso imediato. Outros títulos começaram a ser sugeridos por professores. Outros autores foram escalados. E assim surgiu a Série Vaga-Lume, em 1973.

O desenhista de quadrinhos Eduardo Carlos Pereira foi chamado para criar uma mascote. Um simpático vaga-lume chamado Luminoso. Meio hippie, com colete, boné e tênis. Luminoso fazia a apresentação nas primeiras páginas de todos os livros, em linguagem de gibi. A ideia era romper os padrões austeros das orelhas e aproximar cada vez mais a linguagem da série ao público jovem. Ao fim das histórias, em vez das antigas fichas de leitura vieram divertidos suplementos de trabalho, com palavras cruzadas, perguntas sobre a trama recém lida, charadas, entre outras.

Quatro títulos foram lançados em 1973, e em 1974 o primeiro “arrasta-quarteirão” da Vaga-Lume já aparece. O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida, atinge a incrível marca de 3 milhões de exemplares vendidos.

Houve muita estratégia para o lançamento e a consolidação da Série Vaga-Lume. O editor Jiro Takahashi escreveu para o site Coletivo do Leitor, em 2018: “A precificação foi um item importante apontado por professores, que indicavam que nenhum título poderia custar mais do que uma revista semanal das bancas. Passamos a usar esse padrão de preço para que os professores e os pais se sentissem confortáveis diante desse desembolso semestral, já que a meta inicial era que no mínimo um título fosse indicado por semestre. Por isso, por quase dez anos, preparávamos lançamentos semestrais dos títulos da série. De certa forma, essa sazonalidade era muito interessante para se harmonizar com a sazonalidade dos livros didáticos. Um hábito, de certa forma, muito utilizado no mundo rural no país”.

Estava formada a tríade que até hoje é chave para boas vendas no ramo editorial: escola-professor-aluno. A verdade é que ao longo da década de 1970 e 80 a Vaga-Lume formou algumas gerações de leitores. Ajudou a consolidar a carreira de escritores profissionais que viviam exclusivamente de literatura, como o icônico Marcos Rey, talvez o autor mais profícuo e emblemático da Vaga-Lume, com cerca de uma dezena de títulos lançados, todos best sellers. Rey escrevia em coisa de dois meses uma novíssima história, de encomenda para a coleção. Por isso sua leva infanto-juvenil é parte importante de sua obra e o consagrou como um mestre do gênero, especialmente o “policial noir para jovens”, se é assim possível dizer. Romances como O Mistério dos Cinco Estrelas (1981) e Um cadáver Ouve Rádio (1983) estão entre seus maiores êxitos.

A editora Ática após vários incrementos e mudanças corporativas teve a Série Vaga-Lume retomada desde 1999 e foi comprada em 2005 pela Abril. Segue iluminando gerações através do livro, com o divertido pisca-pisca do simpático Luminoso dando farol. A “primeira viagem” de muita gente.

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Coleção Vaga Lume – Estante Virtual

A Coleção Vaga-Lume Através dos Tempos – Youtube

Imagens: reprodução