Como se espera

ColunistadaCultura, Criatividade

Sempre que ia brincar de boneca, eu passava horas e horas arrumando tudo. As bonecas, as roupinhas, os acessórios, o cenário, o contexto da história… E muitas vezes a brincadeira toda acabava se resumindo a arrumar e pensar em tudo, nem sobrava tempo para brincar como se espera.

Às vezes a história envolvia uma lanchonete ou um salão de beleza, às vezes a praia ou a piscina e às vezes as bonecas estavam em casa ou em um hotel.

A grande questão é que cada uma dessas histórias, mesmo as mais comuns, exigia muitos aparatos. Alguns eu fui adquirindo com o tempo, com muitos Natais e aniversários e Dias das Crianças e mesadas e repasses da minha irmã – cinco anos e meio de diferença me renderam alguns ótimos brinquedos quando ela se cansava deles. Mas havia muitos ainda que eu não tinha e que nunca cheguei a ter. Então, claro, eu os criava.

O escorredor de louças de dois andares sempre virava beliche, com direito a uma cama de casal embaixo e uma de solteiro em cima. Os panos de prato eram os colchões e lençóis. A pia do banheiro era a piscina do clube. O sofá era a montanha que elas tinham que escalar. Canetinhas coloridas viravam tintura de cabelo. Até filhotinhos de pinscher viraram colegas das bonecas em passeios de Ferrari.

Bom, eu cresci, deixei as bonecas de lado – dei tudo para irmãs de amigas e crianças de comunidades que se comprometeram a continuar brincando e passar a brincadeira adiante. Mas, de certa forma, não parei de dar novos usos às coisas existentes e antigas.

Na vida adulta, pratos e canecas viraram vasos de flores. O cabideiro do antigo closet virou porta toalhas e prateleira no banheiro. O gaveteiro da escrivaninha virou armário de pia. A escrivaninha virou o rack da TV. Madeiras da decoração do casamento viraram peso de porta.

Assim, te convido a fazer uma pausa e olhar para trás e em volta. Para sua infância e aí, na sua casa mesmo. O que você usava e o que está usando hoje de forma diferente do que se espera?

Se conseguiu identificar algumas coisas assim, sendo usadas “indevidamente” (como alguns podem dizer), meus parabéns! Você é uma pessoa criativa. Pois desapego à função das coisas é criatividade, sim senhora e sim senhor!

Os meus grandes professores deste tipo de criatividade são a Ariel e seu amigo gaivota, Sabidão, o “especialista” em coisas de humanos. Quem não se lembra da cena clássica da Ariel chegando no grande salão do castelo do príncipe, ainda muda por ter trocado sua voz por suas pernas, se sentando à mesa para comer e finalmente encontrando algo familiar: um garfo. Rapidamente, ela o pega e, claro, começa a pentear os cabelos com ele! O Sabidão ainda nos lembra que um cachimbo de fumar pode ser uma trombeta, por que não? (Caso a referência não tenha ficado clara, é da animação A Pequena Sereia, Disney, 1989; vale assistir).

O inverso desse tipo de criatividade é o que chamamos de fixação funcional, ou seja, quando fixamos uma função a algo e não conseguimos ver novas possibilidades além desta função inicial. Esse fenômeno psicológico de limitação foi descrito pela primeira vez pelo psicólogo alemão Karl Duncker, com um experimento realizado em 1930 ou 1945 (já li sobre ele com as duas datas, mas nunca descobri a oficial).

Que tal testarmos o experimento agora? Você só vai precisar de um pouquinho de imaginação e não há risco nenhum, prometo.

Primeiro, os combinados: vá lendo com calma e não pule para o final, ok?!

Vamos lá!

Imagine que você acaba de receber uma caixa com tachinhas, uma caixa de fósforo com fósforos dentro e uma vela.

Agora você terá que prender a vela na parede utilizando apenas estes objetos entregues a você.

Como fará?

Pense. Imagine. Teste mentalmente diversas opções.

Se você tentou prender a vela na parede usando a tachinha, sinto lhe informar, mas não funcionou. O espeto da tachinha é muito curto e não consegue chegar na parede ou segurar o peso da vela.

Se você pensou em acender um fósforo para derreter um pouco da cera da base da vela e colar na parede, também não funcionou. Apenas a cera derretida não é capaz de segurar todo o peso da vela na horizontal.

Agora, se você pensou em esvaziar a caixa de tachinhas e pregá-la pela lateral, vazia mesmo, na parede com algumas tachinhas; depois, pensou em derreter um pouco da cera da base da vela para grudá-la no fundo da caixa de tachinhas, em pé; você está de parabéns! É isso!

Pois, por que a bendita caixa de tachinhas está fadada a passar o resto da sua vida sendo apenas uma caixa de tachinhas? Ou ainda, por que ela não pode assumir outro papel em um momento de necessidade?

Para resolver esse desafio, é necessário se desprender das amarras da fixação funcional.

O que impressiona no experimento de Duncker é que apenas um terço dos participantes conseguiu se desvencilhar da fixação funcional e ter esse olhar criativo para os objetos entregues, solucionando o problema apresentado.

Você conseguiu chegar a esta ou alguma solução de primeira? Se não conseguiu, talvez você esteja se apegando demais ao existente, ao conhecido, à função das coisas. E tudo bem.

Eu confesso quena primeira vez que me fizeram esse desafio, eu não consegui resolvê-lo sozinha. E tudo bem. Mas desde então, guardo a Ariel e o Sabidão num cantinho da memória e tento ver sempre as coisas e o mundo com novos olhos. E sempre que faço algo como se espera, me questiono se estou mesmo no caminho certo…