CRÍTICA: A JORNADA

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Intimista e introspectivo, sentimental e emocional, adjetivos que definem esta produção francesa, um sensível drama focado em uma mãe astronauta divorciada prestes a embarcar em uma missão para Marte, e a relação dela com sua filha na faixa dos sete ou oito anos. Nesse caso, portanto, seria aconselhável ao expectador saber ao menos essa premissa básica bem como a proposta do filme que está prestes a assistir, para evitar sair da sala de projeção com aquela sensação de ter sido “trolado”.  A missão espacial aqui é apenas a embalagem do longa, cujo recheio está voltado para a relação entre mãe e filha.

Dito isso, A Jornada nos apresenta uma situação que, como as cartelas no fim da projeção entregam, é vivida por muitas mães astronautas no decorrer de suas jornadas na vida real: passar pelas árduas etapas de treinamentos, reclusões e, por fim, as demoradas missões em si, sem, contudo, deixar de dar atenção a seus pequeninos. Como ressalta a psicóloga da estação espacial, não é uma simples viagem de negócios, pois “sua mãe vai viajar para fora da Terra”. Como mãe e filha tão apegadas lidam com uma situação dessas?

Belíssima e talentosa como sempre, Eva Green é Sarah, a astronauta francesa da missão, que também conta com o americano Mike (Matt Dillon), e o russo Anton (Alexey Fateev). Embora seja divorciada, ela mantém um bom relacionamento com o ex-marido, o alemão Thomas (Lars Eidinger), e cabe a ele tomar conta da filha do (ex) casal, a pequena Stella (Zélie Boulant, que realmente parece uma versão mirim de Green, embora seus dons interpretativos talvez ainda estejam um pouco “verdes”), enquanto mamãe está na Rússia trabalhando, e já já vai embarcar para… Marte. As fórmulas matemáticas escritas nas portas e gavetas do armário da cozinha do apartamento de Thomas denunciam sua aptidão profissional, voltada para a Física. Soma-se a isso o fato de ele também exercer alguma função burocrática em uma das bases da estação espacial, e a trama nos leva a supor o quanto deve ser anormal para a pequena Stella ter pais como aqueles. Porém…

É disso que o filme trata. Dirigido e co-roteirizado pela cineasta francesa Alice Winocour, e falado em francês, alemão, russo e até em inglês (!!!), esta poliglota produção nos apresenta o amor incondicional de uma mãe astronauta para com sua filha, e vice-versa, em meio a uma rotina profissional que exige dela uma entrega total, e um foco absoluto na missão. Foco esse que chega a ser questionado por Mike no início dos treinamentos, com frases do tipo: “Você deveria procurar fazer exercícios mais leves, mais compatíveis com a sua condição física”, no que Sarah prontamente devolve: “O que você sabe sobre a minha condição física?”. Se, por um lado, o psicológico de Sarah, demonstrando preocupação acerca de situações cotidianas externas pode, de fato, afetar seus reflexos e até tirar brevemente sua concentração na hora da realização dos exaustivos exercícios necessários a um(a) viajante espacial para viver “lá em cima”, por outro, seus esforços, graças a seu incontestável vigor físico, somado à motivação profissional e, principalmente, ao apoio daqueles que a amam, provam que a afirmação de Mike estava completamente equivocada, como ele mesmo reconhece algum tempo depois, passando a também apoiar e até a admirar Sarah, a determinada astronauta/mãe que mostrou ser plenamente possível conciliar com harmonia estas duas atividades tão nobres.

Tecnicamente satisfatório, principalmente nos quesitos sonoros, o filme ainda nos apresenta uma bela rima visual, trazendo, em seus primeiros minutos, mãe e filha “encenando” a contagem regressiva, que ouviremos novamente no terceiro ato, envolvendo o lançamento do foguete propriamente dito, o que remete ao também início/desfecho de Gattaca, ficção-científica não tão famosa, de 1997, com Ethan Hawke, Jude Law e Uma Thurman no elenco e que merece uma redescoberta. E se você assistiu ao primoroso Interestelar (2014), do perfeccionista Christopher Nolan, deve se lembrar daquela malsucedida despedida entre o personagem de Matthew McConaughey e sua filha pequena, antes de ele zarpar para o espaço, bem como do vídeo que ele assiste em órbita, enquanto chora copiosamente, vendo o quanto sua menina cresceu ao longo dos anos e, por fim, o comovente reencontro dos dois na Terra, muitos anos depois.

Pois bem, neste novo longa, que inevitavelmente remete àquele, a destemida Sarah tem, como objetivo maior de sua missão, decolar da Terra rumo à Marte estando plenamente em paz com sua filha e, consequentemente, consigo mesma, na certeza de que ambas estão nutrindo uma pela outra o mais sincero amor fraternal. O filme, portanto, cumpre com aquilo que se espera de sua proposta, e oferece ótimos momentos de reflexão e auto avaliação a mães, pais e filhos que se dispuserem a embarcar nesta jornada! Ah, também se mostra o programa ideal para ser assistido em família no Dia das Mães!

Este filme atualmente está disponível em plataformas on demand.

 

A Jornada (Próxima). França, 2019, 1h 47min. Direção: Alice Winocour. Com: Eva Green, Zélie Boulant, Matt Dillon, Alexey Fateev, Lars Eidinger, Sandra Hüller. Drama. Dharamsala/Darius Films.