Desamparo na contemporaneidade 


A princípio, Freud descreve a dimensão do desamparo como referente à prematuridade motora do bebê humano. Completamente dependente, ficaria à mercê da aniquilação caso um outro ser humano não ocupasse a função de cuidador, garantindo o mínimo à sua sobrevivência. A premissa continua válida, mas o conceito se desenvolveu ao longo de suas pesquisas.

De acordo com seu fundador, a psicanálise é uma práxis, não é possível separar os conceitos da experiência clínica, em transferência. E escutando, Freud percebe que o desamparo vai além da vivência de despedaçamento devido à falta de domínio neuronal, esse “além” diz respeito à condição mesma de constituição que o desamparo comporta. É preciso experimentar o desamparo para Ser; não necessariamente no sentido de se deparar com uma situação traumática, mas com o fato de que não há garantias. O desamparo é produto da relação com a linguagem, é ela que não oferece certezas de respostas definitivas às questões mais angustiantes da existência: desejo, sexo e morte. Diante do horror resta-nos paralisar, produzir sintomas, passar ao ato ou criar. Sendo o desamparo condição necessária para um sujeito se constituir, considera-se que há uma medida. Um excesso de cuidado pode ser tão prejudicial quanto a falta dele. É a dimensão do desamparo que possibilita aos sujeitos construírem respostas singulares diante das situações que os interpelam; e a qualidade dessas respostas dependem de um dia terem ocupado um lugar no desejo de alguém, que cuidou e amparou.

Para abordar o tema do desamparo em nossa época é preciso recorrer à clínica. O que tem surgido nos consultórios? Quais as narrativas atuais? A que recorrem os sujeitos para lidar com as questões que os fazem sofrer?

Crises de pânico, atuações, automutilações, mentiras, imediatismo, abuso de substâncias, dificuldade em estabelecer laços, somatizações. Essa coleção de palavras ultrapassa as queixas de pacientes e familiares e fazem uma denúncia: algo está ocorrendo no social e que a própria cultura não tem sido capaz de absorver e produzir transformações suficientes. O looping se instaura numa repetição que não comporta algo de novo, é mais do mesmo.

Não é novidade que o discurso social vigente é o de um imperativo: Compre! Beba! Fume! Coma! Goze! Os desejos se resumem a possuir: objetos, experiências, beleza, fama, prazer instantâneo. Claro que existem esforços na direção contrária, como a discussão sobre proibição de publicidade para crianças, por exemplo. Mas porque não são suficientes? Desamparo e impossível se tornaram temas-tabus, porém, como nos ensina Freud, o que não se fala retorna! Mais forte, mais avassalador! Recorrer às palavras tem deixado de ser um recurso primeiro e inúmeros objetos são ofertados diariamente para se anestesiar o sofrimento. E assim, os sujeitos retornam à posição inicial de despedaçamento, de vivência de incompletude. As palavras costuram, dão corpo, imagem e sentido quando encontram um outro interlocutor. Não suprem o que não pode ser abastado, mas possibilitam a condição para que algo novo e legítimo possa surgir.

Em nossa época testemunhamos uma patologia da relação com o tempo. Ninguém suporta esperar. O tempo de uma análise, o Natal para ganhar o presente, a construção de uma carreira, o esforço para adquirir um conhecimento, a ocasião para vivenciar uma experiência de prazer. Fazer as pazes com o tempo significa andar lado a lado com o impossível (de prever, de controlar, de ter…). E tudo bem! Do contrário, um abismo se impõe e com ele a experiência do horror.

As tentativas de acelerar o tempo colocam os sujeitos novamente diante da experiência de desamparo, já que o intervalo entre desejo e satisfação passa a ser suprimido. Mas é justamente no intervalo que algo do sujeito pode advir; nos momentos de crise, de insatisfações, de falta. Sem o intervalo para se sentir qualquer coisa, o saldo é o empobrecimento da subjetividade. Cabe ao psicanalista acompanhar os sujeitos na restauração de uma relação mais saudável com o tempo, com o próprio desejo e na construção de laços afetivos mais consistentes.

Diante da angústia testemunhamos criações de obras que expõem o que há de mais doloroso ou assustador sem dispensar o belo. Na música encontramos bons exemplos, e para ilustrar o tema do desamparo a canção escolhida para fazer essa articulação é de uma emblemática banda de rock estado-unidense, que tem como marcas um certo obscurantismo, a poesia e os rastros das experiências infantis: The End, da banda The Doors.

The Doors é uma banda controversa, não só pelo comportamento subversivo do vocalista Jim Morrison (in memoriam), mas também pelas letras de suas músicas, que tratam de temas espinhosos como os excessos e a morte. A música “The End” já escancara a questão do desamparo no título: “O Fim”. Deixando de lado a óbvia leitura edípica da canção, nos deparamos com versos que são narrativas do desamparo:

“O fim, de nossos planos elaborados, o fim

De tudo o que está de pé, o fim

Sem segurança ou surpresa, o fim”

Nos versos vislumbramos algo sobre a perda de um ideal, que talvez funcionasse como um laço libidinal que mantinha a sensação de integração e controle do sujeito sobre si, sobre o mundo. Quando o que estava de pé desmorona, depara-se com o Fim. Mas não é uma surpresa, diz a canção, afinal no fundo sabemos que as seguranças são sempre parciais. Quando adquirimos um produto com garantia o que se oferece é a possibilidade de reparos ou troca, o fabricante não pode afirmar que o objeto não vá apresentar nenhum tipo de defeito, há um limite. Na vida também não há garantias, mas podemos reparar, recomeçar, transformar, substituir, criar.

Continuando a canção:

“Consegue imaginar como será

Tão sem limites e livre

Desesperadamente precisando da mão de algum estranho

Em uma terra de desespero”

Parece que estar tão sem limites e livre não é algo muito confortável; vide “Além do princípio do prazer” (Freud, 1920), pois nos coloca a mercê do desespero e novamente na situação de total dependência. Freud lembra que é preciso renunciar à uma quota de satisfação em troca de um pouco de segurança. Liberdade total remete a um gozo sem limites e, portanto, mortífero.

Outros versos:

“Siga pela estrada do oeste, baby

Monte a cobra

Até o lago, o antigo lago, baby

A cobra é comprida, sete milhas

A cobra é velha e sua pele é fria

O oeste não é mal”

E depois:

“Venha baby, vamos nos arriscar…

Fazendo um rock triste, venha!…”

A cobra parece uma alusão à vida, você pode montá-la ou ela te devora. Ela é velha e fria, é a natureza dela. Pode te levar a um lugar que não é o ideal, mas nem por isso é mal, simplesmente é o que é. A música faz um convite: vamos nos arriscar! Não há salvaguardas quando corremos riscos, mas também não há vida quando se opta pelo esconderijo das ilusões de segurança. E fazer um rock triste é melhor do que só ficar triste!

Essa é uma livre interpretação de alguns versos soltos. A letra completa e da canção está disponibilizada e fica o convite para que se arrisquem a fazer suas próprias leituras, caso desejem.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Freud, S. Além do princípio do prazer. Edição Standart das Obras Completas, Vol XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1920.

Freud, S. Inibição, sintoma e angústia. Edição Standart das Obras Completas, Vol XX.  Rio de Janeiro: Imago, 1926.

Pereira, M.E. C.  Pânico e desamparo. São Paulo: Editora Escuta, 2008.

The End

This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I’ll never look into your eyes again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need of some stranger’s hand
In a desperate land ?

Lost in a Roman wilderness of pain
And all the children are insane
All the children are insane
Waiting for the summer rain, yeah
There’s danger on the edge of town
Ride the King’s highway, baby
Weird scenes inside the gold mine
Ride the highway west, baby
Ride the snake, ride the snake
To the lake, the ancient lake, baby
The snake is long, seven miles
Ride the snake, he’s old, and his skin is cold
The west is the best
The west is the best
Get here, and we’ll do the rest
The blue bus is callin’ us
The blue bus is callin’ us
Driver, where you taken’ us?

The killer awoke before dawn, he put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived, and then he
Paid a visit to his brother, and then he
He walked on down the hall, and
And he came to a door and he looked inside
Father? – Yes son – I want to kill you
Mother, I want to fuck you

C’mon baby, take a chance with us
And meet me at the back of the blue bus
Doin’ a blue rock, On a blue bus
Doin’ a blue rock, C’mon, yeah
Kill, kill, kill, kill, kill, kill

This is the end, Beautiful friend
This is the end, My only friend, the end
It hurts to set you free
But you’ll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die
This is the end