Desejo a você boas ideias


“As cidades são organismos políticos coerentes

que podem realizar mudanças com maior facilidade

do que os organismos estatais ou nacionais.”

(Victor Margolin, 2014)

 

É nas cidades que a vida acontece. É nela que circulamos, trabalhamos, aprendemos e nos divertimos. Nesse espaço, que é de todos, desenhar pensando na função e em melhorar a vida das pessoas, seja imediatamente ou para daqui 50 anos, é fundamental.

 

Vamos lembrar como Curitiba já foi um bom exemplo disso quando Jaime Lerner e sua equipe transformaram a cidade num laboratório de urbanismo sustentável, desde sua primeira gestão que começou em 1971, quando colocou em prática o Plano Diretor da cidade, que existia desde 1965 e que ajudou a detalhar enquanto trabalhou no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC).

 

Até então vigorava o plano Agache (1940 a 1960), também conhecido como Plano das Avenidas, que propunha um crescimento radial da cidade, interligando diversos centros, onde os protagonistas eram os carros. Lerner e um grupo de designers desenvolveram dezenas de projetos, como o BRT (Bus Rapid Transit) um sistema de vias exclusivas para os ônibus, tornando o transporte público mais eficiente. Assim a cidade priorizou os ônibus, permitindo-os se mover com rapidez e mais eficiência – introduziu corredores exclusivos para ônibus troncais, projetou uma rede de ônibus alimentadores e, em 1992, introduziu as estações-tubo, com ônibus maiores e com pré-pagamento. O modelo BRT se espalhou por todo o mundo. 168 cidades já operam e melhoraram o sistema, conduzindo mais de 31 milhões de pessoas todos os dias.

 

Foram implantados os primeiros grandes parques da cidade – Barigui, Barreirinha e São Lourenço – especificamente em áreas sujeitas a inundações, e criou um cinturão verde em volta da cidade. Criou o bairro Cidade Industrial de Curitiba (CIC) para receber as indústrias sem causar danos ao meio ambiente e garantir arrecadação dos impostos para o município. Curitiba lançou ainda a campanha Lixo que não é Lixo. Criada em 1989 pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente e a Secretaria Municipal de Abastecimento, ensinou os moradores a separar o lixo orgânico do reciclável e criou a coleta seletiva. Nas favelas, o programa “Compra do Lixo” atacou o problema nos bolsões mais pobres da cidade, onde o acesso dos veículos coletores era inviável e envolveu as comunidades no recolhimento do lixo, que era trocado por vales-transporte e comida. O programa recebeu o prêmio máximo das Nações Unidas para o Meio Ambiente em 1990.

 

Outro grande projeto foi o fechamento da rua XV, no Centro, para os carros. Abrão Assad, arquiteto contratado pelo Ippuc, foi o responsável pelo projeto que transformou a rua para uso exclusivo de pedestres na década de 1970, além de projetar todo o mobiliário urbano. Conforme o arquiteto Geraldo Pougy, Curitiba já foi psicodélica. O teto dos quiosques de flores e bares era roxo, formando uma bolha que transformava a luz do sol. Roxo também era a cor da cobertura de acrílico dos orelhões. Luminárias com cúpulas redondas parecendo buquês de flores de cabeça para baixo. O bondinho era uma visão de curvas contrastantes. E não era só na Rua XV. Táxis laranjas circulavam por toda a cidade, assim como ônibus vermelhos, verdes e amarelos. Tudo era muito colorido. Ainda hoje sobram resquícios desta época, como nos ônibus e nos táxis. De acordo com Abrão Assad, essa psicodelia aconteceu por acaso. “Não era o objetivo. Saiu naturalmente. As características daquele momento de Curitiba tinham muito a ver com o que acontecia no rock, na pop arte. Era a linguagem da época”, recorda. “As cores dos ônibus ajudaram a diferenciar as linhas do expresso, alimentador, interbairros e ligeirinho. O que eu queria com aquela bolha roxa nos quiosques da Rua XV era a luz que produzia”, afirma, mostrando que as escolhas visavam uma funcionalidade. Mas eram sempre permeadas pela estética do momento. (Fonte: Gazeta do Povo).

 

Todas essas atitudes influenciam a vida e o dia-a-dia das cidades. Foram fruto de uma gestão centrada nas pessoas com objetivos de melhorar a mobilidade, pensando no transporte público e não em transporte individual, a reciclagem, a ocupação das cidades pelas pessoas. O triste é constatar o que veio depois disso. Má gestão do sistema de transporte, malha pensada para carros. Porque infelizmente no Brasil existe a cultura política de destruir o que foi feito pela gestão anterior, sendo boa ou ruim. Agora, em véspera de eleição, é boa hora para a gente refletir muito sobre quem vamos eleger, já que políticas públicas influenciam diretamente a economia criativa e tudo mais. Precisamos trabalhar para garantir uma base social justa e democrática, senão não há como avançar. Vejamos os exemplos das grandes potências nos setores criativos, que continuam sendo os países do “primeiro mundo”. A hegemonia econômica, política e cultural desses países influencia diretamente os resultados da economia criativa. Se não despertamos, continuaremos à margem dessa economia.

 

Maria Teresa Romanó e Paulo Rogério de Souza

Imagem – Wikipedia

Anterior Atlético x Vitória | Brasileirão - 29/07/2018
Próximo LAÍS MANN NA CULTURA - COM JORGE BERNARDI - EXIBIDO EM 30/07/2018

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *