Dica da EMA – A Última Tentação de Cristo

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Quem era vivo em mil novecentos e oitenta e oito talvez se lembre da polêmica que envolveu A Última Tentação de Cristo. Vítima de forte oposição de cristãos fundamentalistas e igrejas evangélicas, a obra rendeu ameaças de morte ao diretor Martin Scorsese. De fato, Scorsese tomou algumas liberdades ousadas – mostrar Jesus, um marceneiro, fazendo cruzes para os romanos, por exemplo. Apesar disso, aquele flexíveis o bastante para interpretar o cristianismo para além dos dogmas vão gostar desse retrato profundamente humano da pessoa de Jesus Cristo.

A Última Tentação narra alguns dos principais momentos na vida Jesus, como o período no deserto, o batismo, a última ceia, a ressurreição de Lázaro e a crucificação. Diferente das centenas de produções narrando a mesma história, Scorsese não retrata Jesus, o filho de Deus, mas Jesus, o homem, e, como tal, sujeito a inseguranças, erros e sofrimento. Longe das acusações de blasfêmia e heresia, ao mostrar Jesus dessa maneira, o filme nos permite entender o grau das provações por que passou.

Se os ativistas religiosos fracassaram em impedir o lançamento de A Última Tentação de Cristo, foram bem-sucedidos em trazer a discussão para um plano teológico/religioso, e longe dos aspectos técnicos e narrativos da obra. Boa parte da crítica se dedicou em evidenciar como a obra não era (ou sim era) contrária ao cristianismo. Que o filme permita esse tipo de discussão já é testemunha do poder de sua mensagem. Como a maioria das obras primas, a produção de Scorsese não oferece respostas fáceis. O ponto central é a dualidade de Jesus, algo que é muito bem retratado por WillemDafoe. Ao longo do martírio, Dafoe é a personificação do sofrimento, mas os momentos em que Jesus questiona a própria divindade são os mais fortes. Suas expressões seriam hoje em dia matéria fértil para memes de todos os tipos. A cena final, de onde o filme tira seu nome, é icônica, terrível e perigosamente tentadora.