Dica da EMA – Interlúdio

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Com seis décadas de carreira e mais de cinquenta filmes produzidos, é muito difícil selecionar uma única obra que englobe todas as facetas de Alfred Hitchcock. Interlúdio, de 1946, certamente não atingiu o sucesso de Vertigo ou Psycho, mas é um bom candidato. Um divisor de águas na carreira do mestre britânico,a obra combina uma nascente complexidade temática com alguns dos takes mais celebrados do diretor, como “o beijo mais longo da história do cinema”.

Boa parte do enredo se passa no Rio de Janeiro, com algumas filmagens aéreas da cidade nos anos quarenta. A protagonista, Alicia Huberman, viaja à cidade maravilhosa em uma missão de espionagem. Filha de um nazista célebre, Alicia é o grande amor do chefe de uma organização de fugitivos nazistas radicados no Brasil, Alexander Sebastian. Alicia aceita se aproximar de Sebastian por amor a T. R. Delvin, um agente americano que a acompanha. O ponto chave é confiança – excessiva ou insuficiente – em Alicia, o que levará um desses homens à perdição.

A relevância histórica de Interlúdio não vem apenas do papel dessa obra na carreira de Hitchcock, mas também por expandir os limites do que era considerado permissível no cinema. A ideia, sempre implícita, de que Alicia mantém relações sexuais com Sebastian, bem como as diversas cenas de beijos, eram ousadas para a época. Talvez ainda pior tenha sido retratar os agentes americanos indiferentes ou até desdenhosos dos sacrifícios de Alicia, um ano após a segunda guerra mundial. Acabamos simpatizando mais com Sebastian, o nazista apaixonado, do que com Delvin, o americano cínico. Para os mais aficcionados, é interessante observar a relação entre fotografia e enredo, aspectos minunciosamente entrelaçados pelo detalhista Hitchcock. Há também algumas tomadas clássicas em estilo voyeur, em que a câmera acompanha o ponto de vista do personagem. A cena final também é celebrada pelo inteligente jogo do enredo, que culmina com Alicia sendo escoltada por seus dois pretendentes. Deliciosamente antiquado, Interlúdio é uma das jóias da coroa de Alfred Hitchcock.