Dica da EMA – O Discreto Charme da Burguesia

DicadaEma

OUÇA:

 

LEIA:

Luis Buñuel foi um dos mais longevos dentre os pioneiros do cinema. Sua primeira obra, Um Cão Andaluz, foi realizada em conjunto com Salvador Dalí em 1929. Este é provavelmente um dos curtas-metragens mais conhecidos devido ao seu papel central no movimento surrealista. Em contraste, O Discreto Charme da Burguesia, lançado em 1972, é uma obra muito mais próxima do cinema atual do que do experimentalismo pré segunda guerra, embora mantenha uma abordagem surrealista.

O enredo acompanha um grupo de seis pessoas de classe alta que tentam repetidamente jantar juntos, sem nunca conseguirem. Os motivos vão desde o mais prosaico, como errarem a data do encontro, até absurdos, como a morte do dono do estabelecimento. Os personagens reagem a todos os acontecimentos de forma comedida, como se normais. Mesclados às tentativas, há diversos relatos de sonhos, alguns narrados por personagens sem nenhuma importância. A sucessão de cenas acaba por formar um conjunto coeso, ainda que aberto a interpretações.

O fato deste filme ter sido um grande sucesso de bilheteria mostra como as sensibilidades do público e o modelo de negócios do cinema se degradaram. Vista de forma superficial, a obra parece uma sucessão de eventos aleatórios e desconexos – para uma audiência com olhar mais ativo, háum propósito evidente: demonstrar a hipocrisia da classe social que retrata. Há uma cena, por exemplo, em que os personagens estão prestes a jantar quando percebem estar em um palco, assistidos por uma platéia às gargalhadas. Todos ali representam um papel, sem jamais deixar transparecer uma essência. Tudo é artificial. Apesar da mensagem clara, o filme não é “ativista”, preferindo uma abordagem leve e irônica. O enredotende para a comédia, com diversos momentos engraçados, mas é difícil de classificar. Como dizia Ingmar Bergman, Buñuel normalmente faz filmes de Buñuel. Esse é o caso de O Discreto Charme da Burguesia, um filme muito particular, artístico e agradável.