Dica da EMA – Samsara

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Em mais de trinta e cinco anos de carreira, Ron Fricke dirigiu apenas quatro filmes, todos não-narrativos. Não bastasse a natureza peculiar das obras, Fricke muitas vezes projeta as câmeras que usa, de acordo com as demandas de suas visões artísticas. Samsara, sua obra mais recente, foi lançada no festival de Toronto, em 2011, após cinco anos de filmagens em vinte e cinco países. Elogiado pela crítica tanto em termos técnicos como artísticos, Samsara é também um excelente exemplo do papel central da montagem na expressão de ideias no cinema.

Oficialmente um documentário, este filme é melhor descrito como uma “meditação guiada”, uma reflexão sobre a relação da humanidade com o transcendente e o impacto da modernidade na espiritualidade humana. Se o tema parece abstrato, é porque o filme não se preocupa com uma conclusão última, um sentido último – é uma obra, tanto quanto o possível, sem agenda. O significado que atribuímos ao filme vem do que podem nos sugerir as justaposições de cenas. Algumas são óbvias: a uma longa sequência de armas e munições sendo produzidas, segue um close de um veterano desfigurado; outras são mais crípticas, talvez para dar ao espectador espaço para suas próprias interpretações.

É necessário um estado de espírito particular para apreciar Samsara. Ao contrário da experiência passiva de assistir a um filme narrativo, esta obra requer interação. É preciso procurar significados, deixar a mente vagar pelas inúmeras sugestões trazidas pelas imagens. Imagens, por sinal, de uma qualidade excepcional. Fricke abusa das cores saturadas, dos takes amplos, do detalhe. A técnica time lapse, uma de suas especialidades, nos traz uma perspectiva histórica, milenar, sob a qual interpretamos as imagens rápidas e repetitivas da segunda metade do filme. O resultado é uma visão crítica e pungente de nossa realidade – sem o uso de sequer uma palavra, diga-se de passagem.