Disco mitológico do rock brasileiro ganha livro que disseca sua produção


Capa de um dos discos mais cultuados da música brasileira. / reprodução

Trabalho integra coleção Sound+Vision da editora Barbante. Marcelo Dallegrave, Melissa Medroni e Theo Marques são os responsáveis por Corredor Polonês, feito “para se ouvir em volume alto”. Lançamento é terça 12/Nov no Gilba Bar

“Ouça este livro bem alto!”, é a exclamativa frase que introduz o livro Corredor Polonês (Barbante, 2019), de Marcelo Dallegrave e Melissa Medroni, com fotos de Theo Marques.

Quem esteve no Teatro Paiol há 32 anos, para assistir a um show de uma tal Patife Band, contava no máximo com a recomendação de ser a “banda do irmão do Arrigo” ou, aos mais antenados: “ a banda que toca aquele som no filme Cidade Oculta”, ou além: “é a banda do batera do Itamar Assumpção”.  Muito pouco se sabia sobre os londrinenses radicados em São Paulo, que a partir do gênio Paulo Barnabé integravam a Patife Band.

Apesar do inusitado do desconhecido – ou devido a – o teatro estava lotado. E todas as pessoas que lá estiveram, sem exceção, saíram com a certeza de ter assistido algo nunca antes feito, sequer em semelhança. Marcelo Dallegrave era uma dessas pessoas. Deixou o Paiol transtornado com a apresentação de Paulo Barnabé e sua trupe, que lançava naquele dia o álbum Corredor Polonês, primeiro e único da banda.

O resto é história. Corredor Polonês e a Patife Band são lendas até os dias de hoje. Gravado com Paulo Barnabé nos arranjos, vocais, percussões, guitarras e algumas baterias, contou ainda com o baixo de Sidney Giovenazzi, a guitarra de André Fonseca e a bateria de Paulo Mello, sob a produção de Pena Schmidt. Demais convidados são descritos no livro, que resgata a importância do registro sonoro.

Capa da edição, editora Barbante

Não há descrição possível do disco. É um turbilhão que envolve jazz, atonalismo, dodecafonismo, punk rock, referências urbanas as mais diversas e até uma sanfona rural, como em Vida de Operário (da banda punk Excomungados, depois regravada pelo Pato Fu), uma das grandes faixas do LP. Corredor Polonês (WEA, 1987) é disputado a tapas até hoje, avaliado em centenas de reais em feiras de vinil país afora. Uma raridade que sequer ganhou por parte da gravadora versões digitalizadas para audição em download, em que pese haver cópias em mp3 à base de pirataria bastante difundidas.

Paulo Barnabé é um dos pontos da chamada tríade fundamental da Vanguarda Paulista. Os outros dois são o irmão Arrigo e ninguém menos que Itamar Assumpção. Os três viveram em Londrina (Itamar é de Arapongas, pertinho) nos anos 1970, até rumarem para São Paulo, onde capitanearam o movimento que mudou os rumos da música brasileira. Paulinho, como é chamado, tocou tanto na banda Sabor de Veneno do irmão, quanto na Isca de Polícia de Itamar, em registros fonográficos pra lá de históricos, incluídos entre os melhores de todos os tempos. È baterista e percussionista de origem, mas com formação erudita, toca diversos instrumentos. Até realizar seu incrível trabalho “solo”, ao qual chamou Patife Band. Com a formação que viria a gravar o Corredor Polonês, Paulo registrou antes um EP homônimo à banda (1986), apenas, com alguns esboços de sons que viriam a integrar a obra-prima futura.

A verdade é que há discos que necessitam explicação. Corredor Polonês é um deles. Conversei com Marcelo Dallegrave, um dos autores do livro e o responsável pela pesquisa que gerou a obra que “explica” a obra.

Foto de Theo Marques. Ilustração do livro e exposição no Gilda

“Bem, a história é a seguinte: num ano novo lá em casa, estávamos com amigos, entre eles o Alessandro Andreola que é o dono da Barbante. Aí falávamos sobre a coleção Sound+Vision,  para a qual ele escreveu o primeiro volume,  The War On Drugs: Lost In The Dream. Aí um amigo me desafiou perguntando quando eu iria escrever um volume para a coleção.  Eu respondi que nunca, pois não sou escritor nem nunca fui ou escrevi coisa alguma. Ainda mais um livro. O Alessandro sugeriu o Corredor Polonês.  Nós demos risada e viramos o ano. Era 2017/2018. Daí aquilo ficou na minha cabeça, martelando. Entre madrugadas acordado para cuidar da recém nascida Aurora,  resolvi sentar e fazer um texto da música Poema em Linha Reta, do álbum”.

Dallegrave apresentou o texto à esposa, a jornalista Melissa Medroni. Ganhou assim o aval e a parceria de que precisava para empreender até o fim. O fotógrafo Theo Marques colabora com os registros artísticos que incrementam a cuidadosa edição.

O apanhado conta com depoimentos de todos os músicos que participaram. Aborda de forma superficial as “encrencas” pessoais entre os integrantes, todos músicos de temperamento difícil. “Foi um disco preciosista, muito bem cuidado nos detalhes. Segui a onda da banda e fomos buscar timbres precisos e muito bem esculpidos em todos os instrumentos”, revela Pena Schmidt, consagrado produtor que teve a tarefa de organizar a confusa produção desta obra sem igual. Ainda John Ulhôa (Pato Fu), os artistas responsáveis pela capa do álbum Julio Villani, Renata Bueno e Ruth Singer, também deixam seus relatos, entre outros.

O lançamento de Corredor Polonês – Patife Band e a criação da obra-prima esquecida do rock brasileiro será no Gilda Bar e Restaurante, nesta terça 12 de novembro, a partir das 19 horas, com sessão de autógrafos e exposição das fotos do livro.

Serviço:

Corredor Polonês – Lançamento

12 de novembro – terça – 19 horas

Gilda Bar e Restaurante

Cândido Lopes, 323 – Centro

Livro: R$37

Compra online: aqui.

Ouça o disco: aqui.