Dívida simbólica, construção e destruição


Não acabou. Não parou. Área de Proteção Ambiental de Alter do Chão, no Pará, agora mesmo. Foto : Eugênio Scanavinno, do @saudeealegria

Dedico este texto à minha mãe, Vilma. Bióloga, pedagoga, professora da rede pública, capacitadora, ambientalista premiada. Atualmente aposentada, após 50 anos de serviços prestados à educação paranaense.

 

Manter as torneiras fechadas, apagar as luzes, separar o lixo (mesmo sem existir coleta seletiva na época) e reutilizar foram hábitos introduzidos muito precocemente em casa. Eles incluíam uma história de escassez vivenciada pelos antepassados, mas não só, havia um olhar em direção ao futuro, a preocupação com as próximas gerações e a preservação do planeta. Era preciso fazer a nossa parte! E o contato frequente com a natureza possibilitava uma vivência concreta desses valores. As corredeiras e correntezas traziam em suas águas partes da história materna (e paterna), o amor pela biodiversidade e muito aprendizado. O discurso do cuidado ampliava as esperanças no amanhã, pois uma “óbvia” conscientização estava se formando e nosso papel era manter essa transmissão como pagamento pela dívida contraída ao receber a dádiva da vida e do conhecimento, num movimento metonímico. Liberdade e criatividade foram grandes presentes, desenvolvemos a capacidade de transformar uma coisa em outra, pela ação metafórica sucata virava brinquedo e narrativas viravam brincadeiras e descobertas.

A transmissão geracional, para a psicanálise, se dá através de um lugar que se ocupa. Os pais devem se apropriar de uma posição de alguém que vai passar algo que recebeu da geração anterior e isso lhes confere uma autoridade; são encarregados de estabelecer um limite em relação aos filhos e transmitir um saber do qual um dia foram os beneficiários. Essa relação entre lugar, função e saber produz uma dívida, nomeada por Jacques Lacan de “dívida simbólica”. Os pais não podem ser reembolsados pelo pagamento da dívida, ela é transmitida à próxima geração que, espera-se, produza algo com isso, e assim sucessivamente.

Quando se trata de psicanálise, o nascimento de um sujeito não se dá apenas pelo biológico, mas principalmente pela inserção no campo da linguagem e da cultura. E cabe àqueles que ocupam a função de cuidadores transmitir os significantes que vão marcar esse sujeito, estabelecer proibições e humanizá-lo pelo laço afetivo. Como o universo simbólico já existe antes de chegarmos, ocupamos os lugares de receptores e transmissores, constituindo ativamente nossa subjetividade.

E como se humaniza um sujeito? Pela via do amor e do cuidado e pela via da proibição, do interdito do incesto (não se pode tudo). A intersecção das duas vias produz a lei do desejo, que faz com que o sujeito olhe também para fora da família e amplie suas possibilidades discursivas, desejantes, relacionais; ou seja: que se abra para outras referências. É a lei do desejo que institui a dívida simbólica e organiza as sociedades civilizadas.

No livro “A imagem inconsciente do corpo” a psicanalista Françoise Dolto desenvolve a ideia de três castrações em que aborda a transmissão da dívida simbólica:

– interdito do canibalismo: o limite em relação ao corpo da mãe, “não devora-la”;

– interdito do assassinato: não se destruir e não destruir o outro;

– interdito do incesto: renunciar aos pais como objeto de amor libidinal.

Essas castrações simbólicas permitem à criança uma organização do seu próprio corpo e das pulsões, a abertura para a linguagem, maiores possibilidades para o lúdico e a criatividade e o acesso à autonomia e o campo da cultura; pois por um lado a interdição limita a agressividade e destrutividade e por outro provoca uma expansão dos interesses em outras direções.

E o que ocorre quando a dívida simbólica não é transmitida a contento? A arte nos ajuda a compreender de forma bela e sensível como uma relação pode se tornar danosa. O filme “A professora de piano” (direção de Michael Haneke) retrata as consequências da não-interdição ao corpo materno e ao incesto. Uma mãe dominadora deixa sua filha a mercê dos acting-outs (comportamentos impulsivos), por estar impedida de ter acesso a lei do desejo, que enlaça a pulsão à palavra. Já no filme “Sonata de outono” (direção de Ingmar Bergman) é a via do amor e do cuidado que falha, a filha não consegue ter acesso à mãe, esta excessivamente voltada à sua carreira. Quando se Vê diante de uma oportunidade, a filha tenta acertar as contas com a mãe e com sua própria história. O filme “O cisne negro” (direção de Darren Afronosfsky) também traz uma narrativa sobre a relação devastadora entre mãe e filha, em que se deparar com o próprio desejo pode ser mortal, pois os interditos falharam.

Na clínica nos deparamos frequentemente com casos em que os sintomas revelam castrações malsucedidas. Cabe ao psicanalista escutar para além do enunciado, nas entrelinhas, acompanhando o sujeito na decifração da mensagem do seu discurso. Uma mulher jovem, que sofria com a obesidade, sentia o peso da pressão materna para que emagrecesse. Enquanto isso, apresentava sérias dificuldades em realizar suas atividades, como frequentar as aulas do curso que escolheu. Sentia-se julgada por todos e observada como se chamasse atenção em demasia. Para a mãe, uma mulher vaidosa e bastante ocupada nos cuidados com a própria imagem, tudo isso passava despercebido. Cada tentativa de emagrecer que falhava colocava a garota numa relação compulsiva com a comida novamente, ou seja, a privação se convertia em excesso; privação do olhar materno para além do seu corpo. Nesse exemplo, os limites que regulam o “não devorar” e “não destruir” não foram instituídos adequadamente, com consequências destrutivas para o sujeito, privado de exercer seu desejo e à mercê do sintoma.

E no que se refere à “mãe-natureza”, como articular esses conceitos da psicanálise com a questão ambiental?

No texto magistral “O mal-estar na civilização” Freud enumera três principais causas de sofrimento para a humanidade:

– a decadência e mortalidade do próprio corpo

– a impossibilidade de domínio sobre as forças da natureza

– as vicissitudes das relações com os outros homens

Freud explora mais profundamente este último ponto que considera a maior fonte de adversidades, mas vamos nos ater aos outros dois. Com o auxílio da ciência e tecnologia o homem se esforça para prever e conter a fúria da natureza, obtendo resultados apenas parciais. E isso vale para o corpo e o inevitável encontro com a morte; sendo ele parte desta mesma natureza, os êxitos também são parciais.

Como há uma desproporção entre imagem e realidade, fica o homem propenso a toda sorte de ilusões, muitas vezes sentindo-se indestrutível, como se pudesse gozar de uma vida sem interditos e consequências.  Na relação com a natureza, não raramente, presenciamos o homem usufruindo indiscriminadamente do corpo da mãe, sugando seus produtos sem constituir uma dívida, como se fosse possível, e o retorno vem em forma de fúria.

No livro “Por causa do pior” Dominique Fingermann e Mauro M. Dias retomam a ideia desenvolvida por Freud de que “a civilização ao excluir a parte maldita (selvagem) a inclui como mal-estar necessário”, o mal-estar é inerente à constituição humana e tem seus desdobramentos no social. É necessário trazer o mal-estar para o campo da palavra como tentativa de capturá-lo minimamente no simbólico, negá-lo ou tamponá-lo só pode levar ao pior do pior. Essa é a fórmula da ganância e também das compulsões, onde o objeto nunca é o suficiente, pois nenhum é, são todos parciais. A “satisfação completa” equivale à destrutividade, de si, do outro, da natureza.

Como a proposta é ilustrar o tema com uma música, desta vez a banda escolhida é conhecida pelas letras politizadas, de protesto. A Legião Urbana nasceu em berço punk, com influência das teorias anarquistas. O vocalista Renato Russo (in memoriam) é famoso pela sensibilidade de que tratava de temas incômodos. Mas Renato não recuava diante do “pior”, pelo contrário, transformava-o em letras profundas e autênticas. Na música “Fábrica” denuncia as relações abusivas de trabalho, a indiferença que desumaniza e a destruição da natureza.

 

Fábrica (Legião Urbana)

Nosso dia vai chegar
Teremos nossa vez
Não é pedir demais
Quero justiça
Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço
Eu quero um trabalho honesto
Em vez de escravidão

Deve haver algum lugar
Onde o mais forte não
Consegue escravizar
Que não tem chance

De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?
Quem guarda os portões da fábrica?

O céu já foi azul, mas agora é cinza
O que era verde aqui já não existe mais
Quem me dera acreditar
Que não acontece nada
De tanto brincar com fogo

Que venha o fogo então

Esse ar deixou minha vista cansada
Nada demais

 

Referências Bibliográficas

Dolto, F.A imagem inconsciente do corpo.São Paulo:Perspectiva, 2012.

Fingermann, D. e Dias, M.M. Por causa do pior.São Paulo: Iluminuras, 2005.

Freud, S. O mal-estar na civilização. In: Obras completas, vol. XXI. Rio de Jeneiro: Imago, 1974.

Hurstel, F. Autoridade e transmissão da “dívida de vida”: uma função fundamental dos pais. Disponível emhtpp:/www.pepsic.bvsalud.org