Enxurradas vaginais e o que os brancos deveriam saber


Não asseguro meus conhecimentos sobre o orgasmo feminino. Sou muito pouco competente para falar do tema, há gente mais versada por aí. E ainda que me julgue feminista em algum sentido – isso nem se trata de uma questão de escolha, mas de justiça social –, creio que a crítica sutil vinda de negras e negros de Ruanda é mais afiada do que poderiam ser meus argumentos acerca de ignorâncias e dominações machistas em torno da sexualidade feminina em certos mundos de brancas e brancos. Falo de um documentário que, infelizmente, tomei conhecimento só agora: Água Sagrada (SacredWater) do antropólogo e cineasta Olivier Jourdain, lançado em 2016. O filme, como descrito em seu site (www.sacredwater-movie.com), pretende confrontar uma visão ocidental sobre o prazer feminino com o ponto de vista da cultura ruandesa contemporânea. Todavia, para além da crítica à visão masculina da sexualidade, o que me interessa é a relação que esses africanos e africanas estabelecem entre água, órgão genital feminino e vida. E compreender a conexão entre esses e outros elementos é um caminho para pensar antropologicamente as reflexões que fazem acerca do mundo. Acompanhar a descrição antropológica audiovisual de Jourdain é uma oportunidade de observar as específicas relações que outros sistemas de pensamento criam, por exemplo, entre a vagina e todo o restante das coisas existentes. A pergunta ao longo de uma sessão cinematográfica como Água Sagrada deve ser: fora do meu universo, há que outras existências para o corpo? Quais nexos são possíveis entre o todo e as partes, no caso, o restante da vida e uma genitália?

A primeira sensação ao término de uma exibição do filme é a de que a vagina e o orgasmo da mulher são objetos quase totalmente livres nas conversas dos adultos de Ruanda, se não fosse uma noção de pecado que impede a legitimidade moral absoluta da Kunyaza, como é denominada a prática de fazer desaguar a vagina. Há uma correspondência substantiva entre a água ea secreção lubrificante das vaginas ruandesas – isso é o que me parece mais interessante.Nessa cultura apresentada pelas lentes de Jourdain, o controle social sobre o prazer feminino não só aparenta ser diminuto em comparação ao que se verifica pelo menos deste lado do Atlântico, como também um conjunto de saberes sexuais, míticos e medicinais a respeito da fisiologia da vagina circulam e orientam as relações de gênero. O que significa dizer que o documentário – premiado mais de uma dezena de vezes – merece ser continuamente assistido pelo deslocamento que provoca com a descrição da riquezaconceitual ruandesa sobre um tema condenado na história ocidental da sexualidade.

Nem mesmo a vida existiria em Ruanda sem essa água que escorre do entre pernas das mulheres. O mito diz que uma Rainha, após acordar sobre a esteira úmida, bateu-a fazendo com que suas gotas dessem origem a pequenos rios, e estes, por sua vez, o outros ainda maiores e responsáveis pelo aparecimento do Lago Kivu. Se não sabemos a princípio os motivos pelos quais a esteira real estava encharcada, as conversas de homens e mulheres sugerem a possibilidade de a umidade ter descido da vulva da rainha que aprendera com um de seus criados a atingir o orgasmo. A ausência do rei por conta de guerras oportunizara a aprendizagem sexual de sua esposa com seu empregado e, por consequência, o surgimento das possibilidades de vida. Afinal,a água de suas entranhas, até aquele momento desconhecida por ela mesmo, não é anterior a existência humana. A narrativa inverte o mito cristão em que a humanidade é a última a ser criada e a mulher é a derradeira criatura. Devido aos estímulos sexuais, ditos serem vibrações, a natureza vertera da genitália feminina. Se hoje vemos cachoeiras jorrarem água, umedecerem o solo, espirrarem por todo lado – e as cenas de Jourdain são exemplares nesse sentido –, isso se deve a enxurrada da rainha. Imaginamos que tudo tenha sido inundado por ela, como são capazes as mulheres do tempo presente – adverte um homem ruandês num banho coletivo – de deixar um homem completamente molhado no caso dele excita-la sobre seu colo.

A despeito da rainha ter conhecido êxtase sexual por conta de sua relação com um homem, o mito não ensina que o prazer feminino é sentimento conhecido passivamente pela mulher. Foi ela quem o procurou para satisfazê-la. O desejo, no tempo mítico, não é um sentimento estranho à mulher, além de ser dispositivo disparador da aprendizagem sexual e a causa primordial do aparecimento de rios e lagos. O mais interessante ainda é que fora do tempo mítico, um homem que quiser fazer brotar água da vagina – ou seja, refazer o evento de origem da natureza e da vida, sentir-se honrado e deixar orgulhosa sua parceira – deverá aprender como fazer Kunyaza a partir de suas experiências com as mais sábias. Cabe a ele saber como amar bem uma mulher. Em Ruanda, o orgasmo feminino é, portanto, uma questão de troca de saberes entre os gêneros na qual à mulher é reservada uma posição ativa e cujo intercâmbio é parte constituinte das pessoas masculina e feminina. A mulher mítica, dizem,produziu o mundo porque gozou. Os brancos não sabem disso. Deveriam saber, afirmam esses africanos e africanas, porque é essa água que mantêm os laços entre as mulheres e seus companheiros.Muitas têm certeza de que esse é o motivo pelo qual na “cidade”, entre “brancos”, ocorrem muitas separações matrimoniais. Essa crítica deve ter alguma eficácia contra mundos falocêntricos e machistas…

A centralidade da Kunyaza em Ruanda exige um conjunto de técnicas que, apesar de incidirem sobre o corpo da mulher, intencionam deixar as relações sexuais as mais prazerosas possíveis para ambos os gêneros. As negras ruandesas devem, dependendo de quem ensina uma para outra, esticar os lábios vaginais internos puxando-os ao mesmo tempo ou alternando um de cada vez, como se ordenhassem vacas. A ideia é faze-los maiores.A prática é conhecida como Gukuna, que deve ser auxiliada com uma mistura de ervas e, algumas vezes, manteiga. A mistura, ensina uma radialista em Água Sagrada, evita a comichão que se segue ao Gukuna. Com esses cuidados – intensificadores do prazer, lembra contrapondo-se aos costumes da circuncisão em demais países africanos –, os lábios internos não incham.É considerada uma tradição que fornece a forma genital necessária para que homens e mulheres atinjam o orgasmo e que tem resistido contra concepções moralistas que a julgam como incitadoras da masturbação e do desejo feminino. A satisfação sexual e o enorme volume de água vaginal sãoalmejados em Ruanda de maneira que devem consumir os alimentos adequados para aumentaro fluxo. Entre eles, os ensopados, a abóbora, as bananas e o feijão com batatas. Na eventualidade da diminuição da quantidade de líquido vertido por uma mulher, o que preocupará ela e seu marido, medicamentos fitoterápicos chegam a ser receitados.

Mas, qual a relevância para nós de descrições audiovisuais de concepções culturais africanas? Seriam apenas curiosidades sobre pessoas presas a costumes atrasados e que não podem desfrutar do advento da modernidade? Certamente a problemática passa longe de julgamentos morais desse tipo. Se a motivação para ter chegado até aqui foi a mesma de um colecionador de exotismos, então há ainda mais justificativas para mergulhar nas palavras, nos atores (muito reais) e nas imagens de produções como Água Sagradae de tantos outros documentários etnográficos. Devemos exercitar nossa capacidade de colocar perguntas semelhantes a que fizemos em nossa partida reflexiva. As pessoas – e isso é o que demonstramos – movem-se por concepções que são culturais e sociais, como essas de Ruanda que relacionam vagina, água, vida, ervas, mulheres, homens, mundo, e que são abismalmente distintas daquelas que fazem algumas “brancas” não experenciaremnunca o sabor do gozo da vida entre suas pernas. Água Sagrada é um convite antropológico à busca dos sentidos que estão na base do porquê algumas sociedades reprimem ou não os prazeres femininos. O efeito reflexivo – no sentido de reflexão intelectual e de reflexo espelhar – deve ser compreender quais são os significados que fundamentam a sexualidade em nossa sociedade. O que vemos sobre nós na imagem que fala sobre o outro?O experimento da comparação a partir do cinema que retrata a África contemporânea tem esse poder de também de dizer o que somos e o que não somos. Se não são alimentos, vida e água que se engendram à vagina, o que colocamos no lugar?Deixo uma última sugestão para treinar o pensamento antropológico: quais são os elementos que sul-africanos relacionam com a masculinidade quando se voltam aos seus pênis com as técnicas que usam nos rituais de iniciação apresentados em Inxeba, filme alemão de John Trengove lançado em 2017?