ESCULHAMBADOS

WagnerRengel;FaenaRossilho,

Tradução: “Eu levanto a minha lâmpada ao lado da porta de ouro" — em tempo High Line/NY — Dorothy Iannone Crédito: Faena Rossilho

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Escutei na semana passada, no Litercultura, a escritora italiana Igiaba Scego. Filha de imigrantes somalianos, trouxe uma fala contundente e forte sobre literatura, racismo e migrações. Temas que tanto fazem parte das nossas histórias. Por conta disso, me vieram cenas de outros tempos da minha infância e adolescência onde a coisa mais comum que havia ali, mais para o sul, era piada de preto. Coisa de preto, se não caga na entrada, caga na saída e tinha um cara que, por ser mais moreno, já tinha o apelido de Nêgo. Coisa corriqueira, preto, nêgo, tição e aquilo de tão normal nem incômodo causava entre os brancos e vermelhos, naquele tempo de epidemias de alcoolismo e sarampo, lá dos anos setenta aos noventa. É que a princesa Izabel libertou os escravos e estava tudo certo. É pobre porque não foi atrás. A coisa tá preta. Negão, mostra os dentes que não te enxergo. E por aí a coisa andava. E a história dos negros foi contada pelos brancos para os brancos. E cada um no seu lugar, branco é protagonista, preto é serviçal. Novela das oito é isso.

Pois é, aí surgiu o tal do politicamente correto e deu uma abafada, as cotas surgiram e deram uma chance de ser diferente. Negro estudando junto com branco na faculdade. Novidade. Negro fazendo doutorado. Negro ensinando branco. Negro contando a parte esquecida da história. Negros e negras escrevendo literatura e abrindo os olhos para o cotidiano violento, para a segregação, para as migrações em fuga dos genocídios, dos crimes de guerra, da Santa Europa que tomou continentes, usou tudo, roubou tudo, abusou, violentou e deixou tudo esculhambado. Nós somos os esculhambados. Acho muita arrogância dos neonazistas latinos não entenderem que os neonazistas europeus ou norte-americanos odeiam os latinos. Latinos são latinos, pretos são pretos, pobres são podres. Entendeu? Não há como ser neonazista sendo latino, pobre e lógico, preto. Aqui no sul do mundo não existem mais os nobres  imigrantes europeus. Aqui, só há latinos. Só latinos, aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos mamelucos sararás
Crilourosguaranisseis e judárabes
, como diz Arnaldo Antunes. Quem tem dupla cidadania ostenta uma certa alegria de ter essa chance. Chance de quê?Quem nasce aqui será sempre latino, do submundo esculhambado, resto da Europa, ferida viva de uma história mal contada, romantizada. Eles são o que são porque nós somos o que somos.

Hoje é isso. A coisa tá abafada, mas não está morta. E as cotas indo por água abaixo. E só negro que morre na favela. Só tem negro na favela. Não. Mas quem morre é o negro. É a mãe com o bebê no colo, é o jovem de uniforme da escola precária. Governo eleito por um povo que não sabe mais para onde correr. E a mulher negra se não alisa o cabelo vira chacota. Sim. Eu vi.

Mas ninguém mais faz piada de negros. Fazem, ao vivo na TV. Na rua daqui do sul do mundo tem um outdoor enorme de uma faculdade particular com uma garota de olhos bem azuis e um sorriso que vejo sarcasmo. A cor te salva ou te condena e nas instituições existe um racismo velado.

E o governo já disse, não gosta de preto, nem de bicha, nem de pobre, nem de índio. E a Europa gostava porque usava. Agora não gosta, nem desgosta. Desde que não estejam lá. No norte das Américas, não precisa nem dizer. Tudo bem, estou generalizando. Eu sei. É que não existe pecado do lado debaixo do Equador, me ajuda Caetano.

Eu tenho nome e sobrenome alemães, pele branca, mas não esqueço que meu avô de sangue negro veio do Nordeste e minha bisavó, índia veia, que me benzia com água e um ramo de mato, não sai da minha cabeça seu rostinho redondo, olhos pequenos, puxados, cabelinhos brancos.

É o que me salvou e me salva, todos os dias. Bença, bisa.

 

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