ESSE RIO DÁ EM ALGUM LUGAR?

GuilhermeZawa;

Crédito: Dan Roizer

Os grandes autoboicotes acontecem em pequenos projetos

Existem desejos e ideias que custam a passar. São aquelas vontades que teimam em não ir embora. Podem ser vontade de conhecer algum lugar, de aprender algo, de tocar um instrumento, enfim, há desejos que nos acompanham pela vida. Éramos adolescente e eles estavam lá. Ficamos adultos, ainda lá. Já temos cabelos brancos, deixa ver aqui e, bingo, ainda estão comigo.

Porém, fazemos mil meios para que estes desejos sejam postergados. Parece haver sempre um deixar para lá em operação. O fato é que há uma estranha maneira nos autoboicotarmos.

Existem aqueles autoboicotes deliberados, quando se acham maneiras de evitar algo. Se o resultado do boicote se materializa ficamos supostamente livres daquilo que não queremos encontrar. Ele serve de álibi para uma vida sem movimento. Enfim, é um cenário construído.

Há também o autoboicote como forma de autoinfelicitação semi-consciente. Eles funcionam como agenda programada e propõe um modo de vida. Nunca há a plenitude, pois há um compromisso culposo com a felicidade. Há um valor para a autorrealização ao qual culposamente não se pode ultrapassar.

Por fim, há o autoboicote suicida. Aquele de serrar o galho onde se apoia. Se sofre para não encarar o desafio real.

Percebe que há sempre a ideia que preciso anotar mais não anoto. A ideia para o começo de um livro, de um desenho, do esboço de um projeto, da linha de uma casa, enfim, do esboço de algo que ainda é só etéreo, não material.

Essas ideias não anotadas se tornam não-ideias e perdem força com o tempo. Aliás, por um princípio de funcionamento da mente, ficamos cada vez melhores em construir não-ideias. Ficamos craques no não-movimento. Mestres das idéias frustradas. Adeptos de um processo estéril, digo assim, pois não há algo que nos fecunde, ao contrário, se cria um sistema de vida que dá sempre em nada.

Observando artistas que trabalham comigo e também meu próprio processo reconheço que todos passamos por momentos de autoboicote, entretanto, o ato de boicotar pequenas ideias não costuma dar o sentimento de um boicote propriamente dito, pois é difícil averiguar o estrago de algo que por si só é ainda apenas um rabisco no papel.

Uma ideia guarda o potencial de propiciar um ato gerador de oportunidade para se desabrochar potenciais latentes. Ela é semente de ações que precisarão ser realizadas com o balizamento da razão e a constância da paixão. Ela apresentará de maneira crua aquilo com o que ainda temos que lidar no caminho e exigirá uma acompanhamento atento que desenvolverá conhecimento tácito sobre aquilo que estamos fazendo e que deverá ser checado de tempos em tempos para saber se estamos indo no bom caminho.

Se a ideia vem e vai com certa constância, então guarda em si uma forte verdade de alma pela constância que a fez vencer a tensão da superfície da psiquê e traz relatos das profundezas de onde veio. Falo aqui da alma como sentido de existência e não como sentido exotérico. Alma no sentido do que nos é simbólico, não é material, não tem forma, mas é.

Sendo assim, uma ideia poder afluir para um rio interno que deságua no mar de toda uma existência.

Ainda, o fluxo de ideias são espécie de linguagem com sintaxe, e topologia. Na constância dele podemos nos perceber nas estrelinhas e dar forma ao mensageiro e à mensagem. Sobretudo para que o próprio ser humano possa ser lido.

É nesses momentos que a arte traz a ampliação do discurso analítico e empresta meios diversos para a expressão da linguagem pessoal. No meu ateliê houve o caso da fotógrafa que fez fotos de bebês recém nascidos e não sabia bem o porquê. Então descobriu que a sua própria questão quanto a maternidade estava em pauta e só pode ser revelada conforme o processo todo seguia. Outra artista saiu nas ruas de São Paulo colando adesivos em placas de ruas que levam o nome de torturadores da ditadura. Ela não sabia bem o motivo quando saiu de casa, mas ao final do processo percebeu que era uma maneira significante e criativa de um engajamento político ao qual precisava se submeter.

O contrário do processo estancado de se produzir não-ideias é fluir. Simplesmente ser e fluir ideias parece trazer a energia necessária para transmutar o pensamento em matéria dentro de si mesmo e flui sempre para um lugar maior e mais profundo, ao qual não se é capaz de chegar se não se segue o afluxo.