Finalmente, o Apocalipse!


 

“Pronto. Já estoquei papel higiênico para os próximos 6 meses. Já comprei 10 litros de álcool em gel, 8 quilos de feijão, 8 quilos de arroz, 30 pacotes de macarrão da minha marca favorita, 5 litros de molho de tomate, 50 miojos, 20 barras de chocolate 70% cacau, 10 quilos de batata, 3 quilos de cebola, 2 quilos de alho, 20 pacotes de pão “sanduíche”, 5 quilos de queijo, 5 quilos de banana (que estou congelando), 5 quilos de açúcar, 3 quilos de sal, 100 garrafas de cerveja artesanal, 9 litros de coca-cola, 6 dúzias de ovos, 5 quilos de café, 3 quilos de milho pra pipoca, 5 quilos de amendoim, 10 quilos de sabão em pó, 8 quilos de amaciante, 5 litros de água sanitária, 40 litros de água mineral, 10 litros de desinfetante, 200 maços de cigarro e 1 quilo de “ganja”. Me considero totalmente preparado para a pandemia do coronavírus e para a chegada do meteoro. Moro sozinho e passo esse tempo de quarentena consumindo boa parte desses produtos listados, ouvindo meus discos prediletos e assistindo uma porção de séries interessantes que aparecem por aí.” 

Esse breve depoimento poderia ser verdadeiro e acredito que exemplos como esse não deverão faltar em um mundo pré-apocalíptico, onde o capitalismo chegou em seu extremo e as pessoas se esqueceram do significado da palavra “empatia” ou “comunidade”. Basta os noticiários alertarem sobre uma pandemia global que o povo corre para os mercados para garantir a sua própria “sobrevivência”, pouco importando se ainda há gente morrendo de fome, ou se o vizinho, que está com as contas atrasadas devido a uma demissão recente, terá a capacidade de estocar produtos para sua família. 

A recente declaração do Papa Francisco sobre esse assunto tenta clarear os pensamentos daqueles que se julgam cristãos. Enquanto isso, no Brasil, o presidente que esteve com pelo menos 20 infectados pelo vírus, aparece em público para saludar os populares a favor do golpe militar, em pleno século 21. Restou ao bravo haitiano dirigir a palavra, de forma educada, ao presidente de uma das maiores nações do planeta. “Você não é mais nosso presidente”, disse ele. Imóvel, a figura do Estado pareceu não entender, ou pior, não querer entender a mensagem clara do rapaz haitiano, vítima de um país desastroso após dezenas de terremotos e governos corruptos.

Como esperar que alguém que seja a favor da tortura e da chacina de milhares de compatriotas tenha compaixão pelo próximo? Como fazer para que em um coração petrificado, cheio de ódio e preconceito, nasça flores? Continuo acreditando na resignação de qualquer homem, mas nesse caso coloco os dedos atrás da orelha e o máximo que poderia fazer para esse ser obscuro retornar ao caminho de luz proposto por milhares de líderes espirituais, bem, talvez o máximo que possa fazer seja orar, algo que confesso não ter muita experiência. 

Ao povo, cansado das mentiras ecoadas nas redes sociais ou em grupos de familiares no whatsapp, resta cobrar de seus governantes ações concretas para a retirada imediata desse messias às avessas, afinal, ainda não consigo entender como um “messias”, armado até os dentes e com fortes ligações aos milicianos, pode ser realmente considerado um… Messias. 

E se ainda queremos continuar acreditando em “mitos” ou salvadores da pátria, desejo que essa pessoa seja contra qualquer forma de violência e que seu exemplo de vida inspire todos ao seu redor. Desejo que esse ser iluminado seja humilde o suficiente para recusar títulos pomposos. Desejo que essa alma seja pura e inteligente o suficiente para não cair nas armadilhas do sistema capitalista, capaz de corromper até os mais bonzinhos. 

Porém, antes que essa pessoa apareça, sugiro que cada um reflita um pouco mais sobre suas próprias ações. Entenda que o mundo mudou. Parece mesmo que estamos próximos do fim e talvez esse seja o momento perfeito para entendermos o significado de outra palavra chave para a nossa sobrevivência: cooperação. 

Sem isso, todo esse seu esforço em estocar alimentos e produtos de higiene pessoal farão pouco ou nenhum sentido. Talvez você sobreviva alguns dias a mais, mas que tipo de vida você terá? Trancafiado em seu próprio casulo, assistindo pela internet milhões de pessoas morrendo, algumas delas da sua família. 

Lembro de quando essa história de fim do mundo começou a aparecer, um amigo me disse que ele já estava começando a estocar produtos, a princípio achei a atitude interessante, mas logo afirmei minha posição sobre o tema: “Eu não quero viver em um mundo onde terei que me armar para proteger minha comida, além de saber que boa parte da população está morrendo”. É possível que numa situação catastrófica como essa eu pegaria na mão da amada e juntos sairíamos correndo para o mato. Abraçados, esperaríamos alguma explosão, mas ao menos estaríamos bem longe dessa sociedade podre e capaz de provocar sua própria extinção, graças ao egoísmo travestido de individualismo.   

Parece impossível, mas juntos ainda podemos fazer alguma diferença! 

Em tempo, é bom alertar aqueles que ainda não entenderam a gravidade dessa situação, ou ainda a relativizam com outras epidemias do passado recente, e nesse ponto é interessante perceber que figuras diametralmente opostas como Eduardo Marinho e o atual presidente (que continuo preferindo não citar o nome), convergem nessa ideia de que “não é tudo isso que falam”, bem, para essas pessoas, é necessário prestar atenção no discurso recente da chanceler alemã Angela Merkel que anunciou ao mundo que essa é a pior crise que seu país está passando, desde a segunda guerra mundial. Além disso, nos Estados Unidos, todos os esportes foram cancelados e a NBA periga não terminar uma temporada regular, pela primeira vez na história. Curiosamente, foi bem nesse ano que voltei a assistir jogos de basquete e hoje me sinto um órfão durante as noites sem NBA para distrair a cabeça efervescente.  

 

E que venham as próximas notícias do fim do mundo! Enquanto isso é melhor aceitar e começar a se “apocalipsar”logo, no melhor sentido que você consiga criar. 

 

Texto e Narração: Igor Moura
Trilha Sonora: Miles Davis – Sanctuary