FLORES RARAS E UM ROMANCE QUE ROMPEU FRONTEIRAS NO BRASIL DOS ANOS 1950

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A questão da igualdade de gêneros nunca esteve tanto em evidência quanto no panorama atual. No último dia 28 de Junho foi celebrado em todo o mundo o Dia do Orgulho LGBTQIA+. A data foi escolhida em tributo ao incidente conhecido como Rebelião de Stonewall, ocorrido em Nova York neste mesmo dia do ano de 1969, uma violenta ação policial que se sucedeu no bar gay acima citado, cujo tumulto e aglomeração contribuíram para o surgimento de um incêndio que só agravou os ânimos já inflamados. A catarse daquela noite gerou diversas mobilizações nos dias seguintes e, com o passar dos anos, cravou a data como um dia de protesto e luta por direitos da comunidade identificada com a causa.

É um momento propício, portanto, para resgatarmos uma produção nacional que, se por um lado, não tem nenhuma ligação direta com o trágico evento relatado no parágrafo anterior, por outro, aborda o tema da homossexualidade com a devida sensibilidade e que merece uma revisitada. Trata-se de um filme lançado em 2013, dirigido por Bruno Barreto, protagonizado por Glória Pires, e que coloca substância poética sobre o tema. Flores Raras foi exibido no Festival de Cinema de Gramado daquele ano, onde Glória recebeu pelo conjunto de sua obra o Troféu Oscarito, prêmio concedido apenas aos grandes nomes do cinema nacional.

Baseado no livro Flores Raras e Banalíssimas, escrito por Carmen Lúcia Oliveira e publicado em 1995, o longa de Bruno Barreto conta a história real de um corajoso romance que fez frente aos preconceitos em plena era de crescimento sócio-político-cultural que o Rio de Janeiro vivia nos anos 1950. Vale lembrar que a filmografia de Barreto também inclui aquele que por muito tempo foi a maior bilheteria da história do cinema nacional, Dona Flor e Seus Dois Maridos, lançado em 1976, recorde só superado em 2010 por Tropa de Elite 2, de José Padilha; hoje, Dona Flor e Seus Dois Maridos se mantêm na quinta colocação deste ranking.

A australiana Miranda Otto, mais conhecida do grande público por sua participação no segundo e terceiro filmes da milionária e oscarizada franquia O Senhor dos Anéis, aqui vive a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop, que venceu o Prêmio Pulitzer em 1956. Glória Pires faz a arquiteta carioca (mas nascida em Paris) Lota de Macedo Soares, uma das idealizadoras do projeto do famoso Aterro do Flamengo. Tracy Middendorf, por sua vez, interpreta a também americana Mary Morse, dançarina, amante de Lota e amiga de Elizabeth. Ao deixar Nova York, para visitar sua amiga no Brasil, a poetisa acaba se hospedando na casa da arquiteta, em Petrópolis-RJ. Aos poucos surge um sentimento entre as duas, que vagarosa e progressivamente irá se transformar em um sensível e poético romance, que ao mesmo tempo fragilizará suas forças e fortalecerá suas fragilidades. Triângulo amoroso à vista?

Um detalhe interessante deste filme genuinamente brasileiro é o fato de ele ser quase todo falado em inglês. Um desafio para Glória Pires? “Graças a Deus, hoje temos a figura do coaching (treinador), que ajuda demais”, ela disse a esse respeito. Sua atuação agradou crítica e público, e recebeu muitos elogios à época do lançamento do filme. Visualmente, o longa também possui muitas qualidades, a fotografia suave ajuda a compor com delicadeza a história que está sendo contada. Já a direção de arte e os figurinos garantem uma reconstituição de época lírica, e o conjunto de todos esses fatores forma um belo mosaico que ilustra com exatidão o Brasil dos anos 1950 e 1960, que presenciou, entre outros momentos históricos, o nascimento da Bossa Nova e de Brasília, a novíssima e promissora capital do país…

Esta obra de Bruno Barreto é mais um fruto do cinema brasileiro que adiciona substância no tema ao qual se propõe, e traça um paralelo pertinente entre a forma como este mesmo tema era tratado naquela época, e como vem sendo tratado hoje, um avassalador avanço na questão da representatividade.

Flores Raras está atualmente disponível no catálogo do Globo Play.

 

Fotos: divulgação Imagem Filmes.