George Clinton, a nave-mãe do funk


Cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor e criador do coletivo P-Funk, norte-americano é um dos mais importantes artistas da história da música

O jovem George Edward Clinton alisava cabelos em um salão/barbearia de nome Silk Palace, na Avenida Plainfield em Nova Jersey, nos meados dos anos 1950. Era sócio proprietário. Nos fundos da Silk, era comum as jam sessions onde o cabeleireiro reunia seus amigos diversos até formar com Ray Davis, Fuzzy Haskins, Calvin Simon e Grady Thomas o grupo doo-wop The Parliaments. Entre 1955 e 1969 a coisa evoluiu da inocência adolescente de um grupo vocal para uma usina de soul, funk, rock e r&b que faria toda diferença na música do mundo na década que viria.

Ainda lá por 1965 George Clinton já era convocado pela Motown para compor, arranjar e produzir singles de diversos artistas da icônica gravadora. As viagens a Detroit eram semanais e o trabalho era dividido com as produções dos Parliaments, que tentavam emplacar um hit, o que finalmente foi conseguido em 1967 com (I Wanna) Testify.

Clinton tinha dificuldades em “levar” o grupo nas costas. As gravações em Detroit normalmente eram conduzidas apenas com ele próprio presente, sendo os músicos da Motown contratados para fazer as vezes dos demais, que ficavam em Nova Jersey, por não poder viajar com a frequência que Clinton fazia. Após algumas disputas judiciais devido à falência do selo Revilot Records, Clinton perdeu os direitos sobre o nome The Parliaments. A solução foi inventar outro grupo, mais ou menos com os mesmos integrantes e continuar em frente. Isso seria uma constante ao longo dos próximos anos de carreira. E surgia em disco em 1970 o Funkadelic. E no mesmo ano, a “continuação” da antiga banda: o Parliament.

Por mais que tentem explicar em documentários e alguma literatura diversa, até hoje ninguém conseguiu entender direito o porquê de George Clinton manter dois trabalhos com nomes diferentes utilizando-se basicamente dos mesmos músicos. A verdade é uma só, ou duas: era um coletivo. E era uma sonzeira.

O funk foi colocado definitivamente no mapa, com tudo que lhe era afiliado. Psicodelismo, hard rock, jazz, fusion, além — por óbvio — do soul e do r&b, a mistura que gerou tudo aquilo. Álbuns, ora do agrupamento mais profícuo, o Funkadelic, ora do Parliament eram lançados em regime industrial, de alta criatividade. Além de discos solo de seus integrantes e do próprio Clinton, trilhas sonoras, performances de artes plásticas e moda — o visual de palco era algo notável, com design que lembrava uma fusão de Vivienne Westwood (antes de seu advento), ficção científica e moda black. O coletivo acabou como um dos símbolos da década de 1970, se consagrando e optando por se chamar Parliament-Funkadelic, ganhando ainda o abreviativo P-Funk. O que desaguou em uma espécie de gênero.

A rigor, não há nada de novo na criação de um coletivo como o proposto e realizado por George Clinton. Nos 1960’s, foi algo comum, que veio desde a Factory de Andy Warhol em NY, passando pelos experimentos do Gratetful Dead em San Francisco e com destaque para Frank Zappa e a Mothers of Invention. Em todos estes agrupamentos misturava-se a intensão musical com elementos multimídia de cinema, teatro, artes, performance e vestuário. A diferença do P-Funk estava mesmo na música. E não era qualquer diferença. O casamento dos ritmos do caldeirão sonoro que vinha à tona na reunião de até 20 músicos e performers em um palco, quando se tratava do coletivo de Clinton e seus asseclas, vinha com o suprassumo do que era produzido e muito especialmente executado no período que dá pra chamar de mais rico da história da música popular em todo o mundo. E era preto.

Um guitarrista como Garry Shider, mais um baixista de peso como Bootsy Collins, a não rara aparição do mestre Maceo Parker, mais Jerome Brailey, Catfish Collins, Rodney Curtis, Mallia Franklin, Lawrence Fratangelo e uma infinidade de outros, em uma festa sonora, feito uma instalação interplanetária que ajudou a construir a linguagem da música negra e do pop de todos os tempos dali pra frente. Sem George Clinton e o P-Funk é possível que não existissem artistas como Prince, Red Hot Chili Peppers, Faith No More e Ice T. Não da forma como os conhecemos.

É muito difícil tentar mensurar a importância de Clinton para a cultura do mundo no qual aprendemos a viver. É mais fácil entendê-lo como uma espécie de “nave-mãe”, como o mesmo se propôs com a Mothership Connection (1975) do Parliament e depois com o P-Funk All Stars. E ouvindo discos do Funkadelic como Maggot Brain (1971), America Eats its Young (1972) e Cosmic Slop (1973). Mas há mais, muito mais. A exemplo do citado Zappa, Clinton conta meia centena de álbuns, fora as produções, trilhas e participações.

A verdade é uma só, ou duas, ou três: é black. É George Clinton. É uma sonzeira.

Ouça. Leia. Assista:

The Legend of George Clinton (1998) – Filme

George Clinton & The Cosmic Odissey of the P-Funk – Livro

Funkadelic – Spotify

Imagens: reprodução