Getz/Gilberto. A alma da bossa nova ganha o mundo


Gravação do álbum que colocou gênero musical brasileiro no topo das paradas do mundo todo tem histórias curiosas, inclusive o início de um caso amoroso

Em 1963, a bossa nova estava na crista da onda nos Estados Unidos. Um ano antes, Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra, Newton Mendonça, Luis Bonfá, Sérgio Mendes, Roberto Menescal e Agostinho dos Santos realizaram o famoso show no Carnnegie Hall em Nova York. Reza que a noite do espetáculo não foi muito bem sucedida. Problemas técnicos e estranhamento da plateia. O que não impediu que o gênero musical brasileiro mais influente de todos os tempos fosse apresentado enfim ao calor do público estrangeiro.

A história começa, obviamente no Rio de Janeiro, onde alguns anos antes boa parte da turma escalada para a noite no famoso teatro novaiorquino começava a esboçar aquilo que viria a ser a Bossa Nova. Sob a sombra de Johnny Alf, depois com a regência de Tom Jobim, a poesia de Vinícius e a revolução “banquinho-e-violão” de João Gilberto.

Stan Getz nasceu em 1927, e já era um experiente e requisitado saxofonista lá pelo início dos 1960’s. Admirador de músicos brasileiros, muito especialmente violonistas, em 1962 havia lançado o fundamental Jazz Samba, ao lado do guitarrista Charlie Byrd. O namoro com os sons do Brasil continua em 1963, quando grava Stan Getz With Guest Artist Laurindo Almeida e Jazz Samba Encore!, com Luiz Bonfá no violão e Tom Jobim no piano e também ao violão.

Aí o jovem músico e produtor Creed Taylor entra na jogada, por ocasião do contrato de Getz com a Verve. Ali Stan Getz foi apresentado a sua nova paixão: o baiano João Gilberto. O músico já freqüentava Nova York desde o show no Carnnegie. Eterno misantropo, foi difícil tirá-lo do hotel para uma sessão de gravações “com um gringo que Tom conhecia”. Mas João se encaminhou para a West 48 Street, número 112, onde Milton Banana (bateria), Tião Neto (Baixo), Tom Jobim (piano) e Stan Getz (sax) aguardavam as batidas inusitadas do seu charmoso instrumento de seis cordas. Sua esposa Astrud o acompanhou até o estúdio.

Creed Taylor contava apenas 22 anos à época, e era tido como um conciliador contumaz. Mas teve trabalho para conter os egos do norte-americano e do brasileiro. Tom Jobim, que já era afiado no inglês, fazia um meio campo entre ambos. Há a famosa passagem na qual Gilberto o critica, dizendo a Tom: “fala pra esse gringo que ele não manja porra nenhuma”, ao qual Tom traduziu a Getz: “ele disse que seu grande sonho era gravar com você”.

A mixagem também teve confusão. Getz sempre colocava o saxofone adiante de tudo, a contragosto mesmo de Jobim, que executa os pianos sublimes, na charmosa marcação de Banana e Tião Neto. O resultado, apesar de tudo, é absolutamente primoroso.

Astrud foi convidada a cantar — em inglês — a faixa que levou o disco às rádios mundiais. The Girl from Ipanema desbancou A Hard Days Night, dos Beatles. Lançado em 1964, coisa de um ano após a gravação, o álbum ficou 96 semanas em segundo lugar na lista da revista Billboard, perdendo daí apenas e tão somente para o quarteto de Liverpool, que explodia nos EUA justamente naquele ano, dando início à beatlemania. Conquistou cinco prêmios Grammy e até hoje é provavelmente o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.

O casamento de João e Astrud não ia lá muito bem. O galanteador saxofonista americano não resistiu ao charme da cantora e ali iniciou-se um tórrido romance. Getz era casado e são muitas as histórias a respeito, como aquela em que o músico promove uma festa em seu luxuoso apartamento, e depois de os convidados irem embora ele promove um quebra-quebra total dentro de casa, tentando suicídio em seguida.

João Gilberto e Stan Getz voltariam a gravar em 1976, um álbum tão bom quanto, mas que não foi levado a cabo pela gravadora. Jobim faleceu em 1994, Getz em 1991, Banana em 1999, Tião em 2001. João Gilberto nos deixou em 2019. Mas a alma internacional da bossa nova foi registrada neste disco fundamental. Com direito a desafinadas encrencas e o charme avassalador de uma certa garota de Ipanema, apesar de baiana de nascimento. Ela segue viva.

Fotos: reprodução

Ouça. Leia. Assista:

Getz/Gilberto (Verve, 1964).

Chega de Saudade, por Ruy Castro (Companhia das Letras, 1990)