Glauber Rocha. O cinema brasileiro nas cabeças


Cineasta colecionou prêmios e polêmica. Elevou a sétima arte nacional à categoria de arte, colocando intensidade social e estética no mesmo patamar de importância

Em agosto de 2021 completam-se 40 anos da morte de Glauber Rocha. O cineasta que organizou pensamento e reflexão sobre — e para — a produção brasileira. O Brasil produto, o país criativo, estético. Resultou no Cinema Novo mais radical e representativo, entre todos os seus pares.

Na estrada em que asfaltava a roça da cultura brasileira através do movimento, escreveu o manifesto Uma Estética da Fome (1965), enquanto apresentava ao mundo seu Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) — até hoje considerada a obra definitiva do cinema nacional, ficando atrás de Limite (Mario Peixoto, 1931). Realizou ainda Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969). Se eternizou não apenas nas telas de cinema, mas em livros como A Revolução do Cinema Novo (1980), a coletânea de artigos Século do Cinema (póstumo, 1985) e dezenas de crônicas reunidas na Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (1958-1963, publicada em 2003).

Dogmático e controverso, Glauber não passava batido. Seria chamado hoje de “agitador cultural”. Mas é pouco.  Em suas proposições para o cinema, estava a de um cinema de fato nacional. Dá pra dizer que filmou um Brasil.  Não respeitou — ou foi iconoclasta, melhor dizendo — a construção e o formato passado, provando que o intelectual de esquerda pode ser antes de tudo um revolucionário estético.

Acabou por criar desafeição tanto em ícones do cinema de outrora como o gigante Anselmo Duarte — até hoje o único ganhador da Palma de Ouro em Cannes com O Pagador de Promessas (1962) — ou novíssimos à época como Julio Bressane e Rogério Saganzerla — por ciúmes apenas, rezam as lendas.

Sua postura radical e irreverente acabou por desarmar os críticos de sua obra. Propunha de fato uma utopia. Não foi por acaso emergir e ser parte fundamental dos anos de 1960, e ter influenciado gente de importância para a contracultura. Gente que vai de Jim Morrison a Jean Luc Godard. Glauber encarnava a linha tênue que separa um Brasil de João Goulart, em cujo último ano concluiu seus Deus e o Diabo… e o regime brutal da ditadura que se seguiu.

Os filmes de Glauber Rocha foram as granadas atiradas de uma trincheira imaginária, que caíram no meio do teatro de guerra. E não era pouca guerra em se tratando de um país tão jovem, mas com suas mangas curtas já de fora. Jovem Guarda x Tropicalismo; MPB x guitarras elétricas; bossa nova x samba antigo, guerrilha x desbunde. Tudo era motivo pra discussão. E Glauber era o Antônio das Mortes, ou o Corisco perfeito. Metralhadora em forma de baiano, caiu como uma bomba.

Participou do Pasquim. Foi linha de frente nas demandas culturais, quando elas ainda não existiam, dado que as questões eram políticas e libertárias, entendidas como muito mais urgentes. Brigava-se pela existência, fincando-se bandeiras. Glauber fincou seu tripé, mas saiu com a câmera na mão.

O baiano com sua “lente-peixeira” pôs de joelhos a linguagem clássica hollywoodiana, que a Vera Curz paulista e burguesa vinha importando já nos 1940’s. Desde sua estreia com o curta O Pátio (1959) fez valer sua fama de hermético, de difícil compreensão, mas principalmente de confronto. E levou consigo alguns.  Mesmo a quem propunha a revolução social, como os CPC’s da UNE e o Partido Comunista, parecia mais um opositor ferrenho que um aliado. Glauber também não concordava com os rumos propostos pela esquerda. Afinal, nada passava mais longe do mecanicismo stalinista que a estética de seus filmes, e seu “messianismo nordestino”.

Exilou-se por cinco anos, primeiro no Chile, depois em Cuba. Retornou em 1976 e em Di-Glauber (1977), retratou de forma anárquica o sepultamento de Di Cavalcanti. Foi escrachado e repudiado pelos familiares e amigos do pintor. “Di foi o último grande pintor modernista. Precisamos filmar!”, bradou o cineasta. A filmagem foi uma tentativa de comédia anárquica, meio surrealista, “oswaldiana”.

A Idade da Terra (1980) é uma obra de quase três horas de duração, que fez dormir uma geração que provavelmente deixou pra trás o Cinema Novo e o cinema brasileiro por mais de década. Era tão difícil e confuso que ficava a critério do projecionista do cinema em que seria exibida a película a definição da ordem dos rolos entregues pela distribuidora. Cada um passava de um jeito. Tanto fazia. O filme era mesmo chato. Desconstrução da linguagem não colou, no caso.

Glauber barbarizou ainda na televisão com o programa Abertura (TV Tupi, 1979), no qual entrevistava personalidades e realizava matérias de protesto e encenação. Paradoxalmente ao jovem que dormiu no cinema em A Idade da Terra, houve com mais sorte os que se depararam com este auto-personagem com o diabo no corpo na tela de tevê. Ali o cineasta lançou mísseis que inegavelmente atingiram corações e mentes daqueles que veríamos depois em TV Pirata, Armação Ilimitada, no cinema de Antônio Calmon, na música da Blitz e dos Titãs, e na geração que fez a MTV Brasil já no início dos 90’s.

Em tempos de babaquice neoliberal e o espoque da estupidez na ultradireita do mundo, que nega ou despreza a ciência e as artes, faz falta um Glauber Rocha. Como confessou Paulo Francis, em seu Cabeça de Papel (1977): “Glauber pega porque é selvagem. Há nele o criminoso potencial que imitamos em pensamentos e nunca recriamos em atos”.

Glauber Rocha nasceu em Vitória da Conquista na Bahia, em 1939. Morreu no Rio de Janeiro em 1981.

Ouça. Leia. Assista:

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) – completo.

Terra em Transe (1967) – completo

O Século do Cinema (1985) – PDF

Programa Abertura   (1979)

Imagens: reprodução