Grupo Fato lança single de “Movimento”


Créditos: Ivo Lima

O Grupo Fato lança o single da faixa “Movimento”, que inspirou o nome de seu novo álbum, Claro_Movimento, que será lançado em abril e teve produção do carioca João Cavalcanti, filho do pernambucano Lenine. O single pode ser acessado nas principais plataformas digitais através do link https://tratore.ffm.to/movimento.

“Movimento” é uma canção-síntese, com nove palavras. A composição de Antonio Saraiva – produtor musical do primeiro álbum do Fato – representa a trajetória, a resistência no tempo e o fazer artístico vividos pelo grupo ao longo dos anos.

“Curto tempo / mar adentro / tudo invento / sempre alento / movimento”, diz a canção. A faixa reúne participações de artistas que foram produtores musicais do Fato, como Paulo Brandão, Pedro Luís e o próprio João Cavalcanti. Os três, além de Antonio Saraiva, cantam ao lado dos integrantes do Fato.

Além do single, já estão disponíveis para o público dois clipes de músicas que integram o novo disco: “Lembra?”, dirigido pelo cineasta Luciano Coelho e “Eu”, dirigido pelo produtor musical e filmmaker Vinícius Nisi (que dirigiu o clipe “Oração”, da Banda mais Bonita da Cidade). Os clipes já podem ser acessados no endereço https://www.facebook.com/grupofato/playlist/243257720166285/ e também no canal oficial do grupo no YouTube, para se ter um ideia do novo álbum que vem por aí.

Claro_Movimento, álbum com 12 canções inéditas, foi gravado no estúdio próprio do grupo, em novembro de 2019, e será lançado na íntegra no dia 17 de abril. Formado em 1994, em Curitiba, o Grupo Fato criou uma sonoridade particular ao longo do tempo, investindo em combinações musicais únicas, que mesclam elementos tradicionais da cultura paranaense – como os tamancos de madeira do fandango – com instrumentos convencionais e outros criados por integrantes do Fato, como a Tamancalha – um batedor manual de tamancos.

 

O Grupo Fato é formado atualmente por Andrezza Prodóssimo, Grace Torres, Daniel Fagundes, Priscila Graciano e Ulisses Galetto. O álbum Claro_Movimento terá a distribuição física e digital da Tratore.

 

  • Veja o que o letrista Benito Rodriguez escreveu sobre Movimento

 

“Movimento” é uma pérola

 

Por Benito Rodriguez

 

Curto tempo

mar adentro

tudo invento

sempre alento

movimento

(Antonio Saraiva)

“Movimento” é uma pérola. Presente do músico e compositor Antonio Saraiva para o Grupo Fato, por ocasião dos 25 anos de existência da banda, completados em 2019, a canção é uma preciosa realização. E mais uma vez aproxima o artista carioca do grupo curitibano que ele não apenas viu nascer, mas ajudou a dar alguns de seus primeiros passos.

“Movimento” é uma pérola. A imagem, naturalmente, fala do valor que se julga reconhecer na peça. Mas não apenas. Uma pérola resulta, como se sabe, do resíduo de que a forma viva busca proteger-se. Essa flutuação entre algo que é belo, vivo e valioso, e por outra parte moléstia, mineral, detrito, de algum modo funde-se na natureza esférica desse pequenino objeto. Brilhante e opaco. Claro e complexo.

À primeira escuta, “Curto tempo” pode comentar a compressão de nossa percepção temporal, a aceleração dos ritmos de todas as nossas atividades. Quase um lamento. Contudo, ao somarmos “mar adentro”, uma outra dimensão de sentidos é acionada: não apenas podemos entender que se especula, em tom quase filosofante, sobre a brevidade do tempo; passa a ser possível reconhecer na palavra “curto”, não como uma qualificação do “tempo”, mas como ação verbal, que instala esse sujeito. “[Eu] curto o tempo” – que desfruta da existência lançando-se “mar adentro”.

Trata-se então de um sentido bem diverso do primeiro: em lugar de uma escassez de tempo, temos uma espécie de suspensão temporal, como se os relógios parassem para a fruição de uma experiência subjetiva. Essa mesma flutuação de sentidos segue em “tudo invento”. Tanto se pode ouvir aí uma constatação genérica, sobre a natureza frágil ou ilusória da vida contemporânea tão comprimida – “tudo [é] invento” –, quanto se pode perceber ainda a afirmação de um sujeito que cria, em meio à aventura incerta na qual se lança – “tudo [eu] invento”.

A ideia de aventurar-se “mar adentro” parece ser desdobrada em “sempre alento”, se entendemos “alento” como o vento, a força motriz do que segue sobre as águas. Mas ainda em outra dimensão metafórica, o “alento” pode também ressoar a imagem síntese da própria existência humana. O sopro de vida, cuja relação com a aventura nas águas toca tanto seu início – literalmente, no momento em que nascemos –, quanto no seu fim.

Nesse exato instante, a palavra-título da canção – “movimento” –, de uma só vez arremata e nos leva de volta ao começo. Como que produzindo, por meio dessas oscilações de sentido, finos deslocamentos nas relações entre as palavras no corpo da letra, e principalmente, na estrutura simples e cíclica de toda sua organização.

Em uma letra que mobiliza um arsenal de palavras tão mínimo, com uma paleta sonora – rimas, assonâncias, efeitos aliterativos – que compacta ainda mais sua configuração, a reiteração da palavra “movimento”, como título e como fecho, tem relevo. Mover-se é estar vivo, é romper com a paralisia no espaço.

“Movimento” parece encontrar também uma solução estética densa para os impasses dos debates éticos e políticos correntes. Em um momento em que todos tendem a gritar o mais alto possível na ilusão de se fazer ouvir, a canção aposta na sobriedade do tom; em face das estratégias mais espetaculosas e enganosas com que os meios nos armam – fake news & else… –, a música se organiza como “óbvia pérola de Colombo”, simples, brilhante e opaca. A canção investe em uma aparente repetição de sons e palavras, que, no entanto, deslocam-se e completam-se uns aos outros, a cada ciclo.

Nos arranjos, a solução adotada pelo Grupo Fato potencializou não apenas os sentidos, mas a eles acresceu vários. A faixa resultou em uma construção coletiva dos integrantes e de seu atual produtor, João Cavalcanti, mas também de alguns de seus parceiros no decorrer dos anos. E como as intervenções são necessariamente diversas umas das outras, dialogando com as temporalidades dos diferentes convidados, sua integração no registro final da canção permitiu combinar singularidade e coro, o grão específico de cada subjetividade, na pérola plena.

Serviço:

Claro_Movimento – Grupo Fato

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura: Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura Municipal de Curitiba.

Incentivo: Opus Múltipla e House Cricket.

Apoio: OQ Produções e UG Audio.

@grupofato

www.fato.org