Hasta luego Brasil!


 

O ano foi pesado e marcado pela morte física da minha mãe querida. Nos sonhos, ela continua mais viva do que nunca e independente do que acontece no mundo real, ela seguirá sendo uma espécie de guia eterno, me protegendo dos caminhos obscuros típicos dos tempos modernos. Viajar se tornava novamente necessário. Viajar naquele sentido profundo do termo, ou seja, sentia que precisava trocar a roupa da alma mais uma vez, após outro ano complicado e pré apocalíptico. Enquanto a estupidez e a violência tomam conta dos poderes institucionais no país dos falsos heróis, me vejo obrigado a usar minhas últimas gotas de lucidez para transformar positivamente a realidade ao redor. Primeiro o afastamento geográfico, importante para cicatrizar algumas feridas antigas e oxigenar a cabeça. Em seguida, a vivência em terras estrangeiras, ao lado de poucos amigos. 

Dias suaves sem grandes compromissos. Dias contemplativos sem as nuvens negras da cidade natal. Dias de sol e praia. Noites de vinho e erva legalizada. Me impressiono com a quantidade de empanadas por metro quadrado e com a capacidade do turista brasileiro para se envolver em trampas. Trampas envolvendo preços de cerveja não divulgados. Trampas envolvendo ganja natural vendida a preço de ouro. Trampas envolvendo dólares, reais e os pesos locais. Trampas envolvendo mendigos malandros ladrões de isqueiros. A distância do lar provoca alterações psíquicas, dificultando o bom senso e gerando uma estranha ansiedade capaz de induzir erros tolos. Mas são nessas histórias que aprendo algo novo, ou talvez tão velho que já havia esquecido. Lições do manual de sobrevivência do ser humano que decide viver em terras estranhas, com pouco dinheiro no bolso e sem parentes importantes por perto. Jorge Caldabranca talvez represente essa família. Jorge talvez seja aquele tio louco, com tinta no cabelo cumprido e sem “batatas” na língua. Disposto a me mostrar os encantos do país vizinho e de uma vida dedicada ao zen nadismo. Enquanto isso, na nuca do pensamento, os flashes do passado recente carimbado pelos fatos esquisitos. O projeto da casa dos artistas havia gerado dois filhos e uma porção de casais, boa parte deles desfeitos devido a ação implacável do tempo. O ritmo acelerado da sociedade contemporânea faz as relações se tornarem fúteis e carentes de perdões. É mais fácil seguir o seu próprio caminho e deixar a fila andar. A paciência se tornou artigo raro. O suposto amor livre que deveria nos salvar da caretice ou do patriarcalismo histórico está nos fazendo sentir cada vez mais sozinhos. E é nessa solidão descolorida que a tecnologia opera, oferecendo as distrações necessárias para suportar o vazio. Mas é justamente nos solos inférteis que a esperança costuma brotar, sem pedir licença, funcionando como algum tipo de aviso divino que apesar de tudo, as coisas podem melhorar. O mundo continuará seu processo autodestrutivo, mas você e eu não precisamos colaborar para que isso aconteça. Juntos, podemos apontar para alguma outra direção, menos egoísta e mais cooperativa. E às vezes para termos essas sacações, precisamos sair por aí, explorar cantos inexplorados, conhecer gente diferente, voltar a se apaixonar pelo céu, o mar ou essa última lua cheia bem no dia do meu número de sorte. A natureza não está nem aí para a sua opinião ou seus problemas, mas seu poder de cura é infinito.  

Estou novamente em uma cidade relativamente pequena, distante dos venenos da capital e ao lado de um dos meus amigos mais puros, apesar dos seus pequenos vícios burgueses. Jorge Caldabranca já se fudeu o suficiente na vida para poder desfrutar dos prazeres carnais propiciados por uma situação financeira estável, especialmente após cinco décadas no melhor estilo “on the road”, como ele próprio costuma esbravejar. Ele já lançou seus livros e ganhou algum dinheiro com isso, porém hoje ele se dedica ao ócio criativo, além de se divertir atuando como cicerone de jovens viajeros, em busca de algum tipo de aventura. Há dois anos ele largou o Brasil e veio viver no único país sul-americano onde ainda existe um sopro de democracia. Diz que só volta pra lá quando o povo voltar para o poder. A frustração política o fez tomar essa decisão e graças a isso, hoje tenho um local aconchegante para passar meus dias de exílio, após um ano explosivo, daqueles que ficam na memória para sempre. Não vou usar a palavra ruim, pois para mim ruim é quando não fazemos aquilo que queremos e passamos o tempo postergando sonhos ou atrapados em histórias repetidas com finais previsíveis. Neste ano vivi intensamente tudo que quis, apesar de ter tido que lidar com a partida da minha mãe, algo que certamente ainda ecoará em meu coração pelos próximos anos.  

Os dias no Uruguai passam na velocidade do vento que costuma castigar esses ares. No HD recauchutado da mente, ainda preciso processar certos pontos, apagando as pontas desnecessárias e tentando compreender certas viagens meio bizarras, como o compartilhamento feminino entre pai e filho, ambos amigos antigos e que me acompanharam nos primeiros dias longe de casa. E o fim dessa jornada, ao lado da micro família já citada, culminou em um hostel psicoativo comandado por alguns brasileiros, fãs assíduos da planta mais famosa do país, e já residentes permanentes nessas terras celestes. Hoje ficamos sem grana, após todo o investimento necessário, mas acredito que depois da partida dos dois camaradas, conseguirei economizar uns bons pesos, além de conseguir ter mais tempo para produzir e quem sabe, descolar alguns trampos. Viajar não é uma tarefa tão fácil assim, especialmente quando você está com o dinheiro contado, porém com um pouco de inteligência e uma boa dose de esforço, é possível economizar e ainda viver com uma certa qualidade de vida. Não sei ao certo como será os próximos dias, nosso amigo escultor estará nos visitando em breve, e só posso esperar que a passagem do ano seja tão memorável quanto o próprio.