Horses. Patti Smith rezando como manda o terço


Primeiro disco da cantora e escritora revelou ao mundo combinação de punk e poesia ainda inédito na música pop. E tudo começou em uma igreja

Patti Smith saiu das profundezas de Nova Jersey mais ou menos pela mesma época em que Bruce Springsteen começou a se tornar seu cidadão mais ilustre. Mas rezava um salmo diferente, e começou a se tornar conhecida numa igreja.

Realizava leituras de poemas, levada pelo poeta beat Gregory Corso, no projeto Poetry in Church na St. Mark’s, uma paróquia da igreja Episcopal localizada no número 131 da East 10th Street, em Bowery. Um coletivo baseado no mesmo templo onde o Theatre Genesis estava localizado.

Quando resolveu cantar, naturalmente tornou-se uma “poeta rock’n roll”. A palavras para ela geraram tudo o que necessitava, sendo o apoio musical o estertor que faltava para ganhar o mundo. Sob o som furioso do punk que emergia naquele início dos anos 1970 na Big Apple, Patti Smith promoveu uma espécie de resgate dos encantos primários do início do rock. Mas o que a fez verdadeira foi a palavra, e o matiz xamânico que imprimiu a suas performances, desde as leituras.

Pelas mãos do ex Velvet Underground John Cale (produção), arriscou seu primeiro disco apenas na metade da década. Horses (1975) é puro fundamento. Os três acordes promovem a levada necessária, em nuances arriscadas e brilhantes do guitarrista Lenny Kaye. O aparato monta a cama confortável para Patti deitar com seus poemas.

A revisita de Gloria, de Van Morrison é sobre sexo, com Patti fazendo a voz do homem na música, sem alterá-la. Redondo Beach descreve um suicídio a partir de uma relação lésbica. Birdland divaga sobre morte do pai de um menino, e a visão de um extraterrestre. Outro destaque do álbum é Kimberly, sobre sua irmã mais nova. Elegie arremata a estreia, sobrevoando a morte de Jimi Hendrix.

Na verdade, as canções não são “sobre” nada. Trata-se de uma série de fotografias situacionais e reveladas com o tratamento interno da “sala escura” que Patti Smith habita. O resultado é surpreendente, e elevou o álbum a um dos grandes clássicos daquilo que veio a se chamar protopunk. Na verdade, o punk propriamente dito.

Ainda sobre fotografia, o registro da capa é de Robert Maplethorpe, uma espécie de mestre do preto & branco, reconhecido pela sua sensibilidade no trato com os temas em que focava sua lente. Maplethorpe morou com Patti entre 1967 e 1972, em um amor que acabou retratado em livro futuro pela poeta. A foto que apresenta o álbum é de uma sinceridade sem igual. Provavelmente a imagem que levou Patti e ser “modelo” para mulheres do rock que seguiram como Chrissie Hynde, Joan Jett e Courtney Love.

A diferença é que — daí o motivo da existência do punk — Patti Smith não trabalhava com um emaranhado progressivo no qual a música pop estava afundada em meados daquela década. Ela era perfeitamente compreensível. Expressado em palavras, os “retratos” fluem à vida de qualquer pessoa, a partir de sua experiência pessoal.

A voz de Patti Smith é algo entre um recital de William Burroughs e o (outro ex Velvet Underground) urgente e estridente canto de Lou Reed ou Bob Dylan. Ou Neil Young.

Ela presenteia o ouvinte com a alma que só um poeta pode imprimir. E as comparações acima só são válidas a partir deste argumento palpável. E real.

Original é a palavra. O quão original se pode ser com guitarra, baixo e bateria. Beat pela batida. Beat pela atitude, dado que as fluências e influências são claras quanto a suas raízes em Allen Ginsberg, Kerouak, Burroughs e o amigo Gregory Corso.

O Lower Manhattan era um mundo à parte quando Patti Smith deu à luz este Horses. Era fácil deitar-se nos sofás da Factory de Andy Warhol sendo parte integrante de alguma obra em curso, bem como realizar outra obra e executá-la no CBGB, o mitológico clube que encubou e lançou ao mundo o punk rock, além dos moldes de toda pop music que viria nas décadas seguintes.

Patti Smith nasceu em Chicago em 1946. Cresceu em Nova Jersey e foi figura carimbada na Nova York dos Ramones, Talking Heads, Television e Lou Reed. Namorou Jim Carrol e Tom Verlaine, depois Sam Sheppard. Gravou mais 12 discos além de Horses. Escreveu romances, poesia e relatos de viagem em livros bastante cortejados neste século, como Linha M, Só Garotos, Devoção e O Ano do Macaco. Milita pelo partido Democrata, muito especialmente depois da eleição de Donald Trump, que conseguiu ver derrotado no ano pandêmico de 2020, após quatro anos de caos e infortúnio para a América e o mundo.

Patti Smith continua por aí. Dando palestras, recitando poemas e tocando rock’n roll. É muito fácil trombar com ela em NY. Preste atenção.

Ouça. Leia. Assista:

Horses – Patti Smith – álbum completo

Livros de Patti Smith

Dream of Life – Patti Smith – Documentário

Imagens: reprodução