“I Like Fucking”


Sempre que estou com a camiseta de alguma banda de róque passo por uma situação comum e algum macho espertinho de plantão questiona: “fala aí o nome de alguma música dessa banda” (ironizando que não as conheço). Adoro responder com toda a sabedoria e sarcasmo do universo, além de cuspir na cara do moçoilo trocentas referências sobre o artista/grupo, e calar a boca do roqueirão de prédio. Mas, o que me intriga, é que tenho percebido que essa condição de interrogada é exclusiva das mulheres. E quem, frequentadora desse mesmo meio, nunca passou por isso? Parece historinha do século passado, mas acontece todos os dias. Basta encontrar um tipinho desses pelo seu caminho. Pior que isso, descobri que os preconceitos do estilo vão muito além de episódios como esse.
A crítica construtiva é sempre válida, pode e deve ser abordada, mas fico impressionada com a quantidade de gente que tem uma visão ingênua da música e da cultura como uma escolha individual movida pela paixão, sem nenhuma relação com sociedade, indústria e política. Infelizmente, nada é tão simples, e a cultura é fundamental para autoestima, expressão e formação de ideias de um povo. Se você só vê mulheres magras na capa de revistas, só assiste filmes em que homens são heróis e só ouve músicas comerciais, dificilmente vai achar que garotas gordas são bonitas, que mulheres podem ser heroínas ou que existe música boa fora desse universo mainstream. Nossa opinião é formada pelo que ouvimos, lemos, assistimos e pelas pessoas que nos cercam. E você não é tão diferentão e especial como gostaria para conseguir escapar fácil desse círculo vicioso.
Eu nasci no interior e a música sempre foi parte imprescindível de minha vida, embora as descobertas musicais que mais definem a minha personalidade só vieram após minha adolescência. Meu gosto transita entre diversos estilos do róquenrol: a surf music, o rockabilly, o punk rock, psychobilly, o blues, o jazz e outros. Mas preciso confessar uma coisa deprimente, que eu tenho entalado na guela em muitos casos, o ambiente de shows de rock é, em geral, bastante hostil para mulheres. Já sofri, presenciei, e ouvi violência de gênero várias vezes.

 

 

A indústria cultural do rock estourou e, enquanto os garotos americanos estavam com a cabeça na guerra, as garotas financiavam o sucesso das bandas mais famosas do mundo. Elas, que desmaiavam na porta dos teatros lotados, amavam a música, e, por que não, os músicos. Logo foram chamadas de groupies, identificadas não como principais consumidoras daquela cultura, mas como objetos sexuais que atribuíam status ao “rockstar”.
A expropriação do trabalho e da sexualidade das mulheres no universo da arte e da cultura é um capítulo pouco contado da opressão sexista. Mulheres condicionadas ao espaço privado enquanto a cultura pede o espaço público não tem acesso aos meios de produção de cultura que, por herança histórica, têm um domínio masculino. Hoje é possível ver, através dos números, a disparidade entre bandas compostas por mulheres e homens, o staff da produção lotado de mulheres e a técnica de homens. Além da abusive publicidade sexista para shows com público feminino: damas grátis e bebidas liberadas para facilitar o assédio.
A história do rock é recheada de coisificação de mulheres. Existe uma lenda sobre o tratamento que o AC/DC dava a suas groupies que é terrível, prefiro nem comentar (a maioria dessas garotas eram adolescentes). Ainda sempre rolou esse abuso do homem que se acha mais macho porque está no palco. Podemos também observar nesse meio, que muitas vezes, artistas que agradam o público gay ou meninas são severamente ridicularizados(as).
Você pode estar pensando: “Besteira isso tudo que você está dizendo porque o rock é muito melhor que isso e é livre de preconceitos”. Nao mesmo. Vamos contextualizar um pouco disso tudo para entender.

 

 

Provavelmente, a primeira banda bem sucedida só de mulheres foi a Runaways, em 1975. Quem viu o filme, sabe que a história delas foi bem difícil, atormentada por violência de gênero, inclusive. E depois delas, qual tem sido o lugar das mulheres no rock? Sempre bem complicado, embora essa realidade venha mudando. Courtney Love, por exemplo, passou a carreira inteira sendo responsabilizada pela morte de seu marido Kurt Cobain, que a deixou com uma filha para criar. Kathleen Hanna, da super banda Bikini Kill e do fanzine Riot Grrrl, confessou que era muito difícil estar em uma banda feminista no começo dos anos 90 (e hoje também, não é gente?). Kathleen disse que sempre tinha que escutar coisas do tipo “ poxa! Você é uma garota legal, mas eu sempre ouvi dizer que era uma vadia”, também contou que esta palavra a perseguia, que foi chamada de vadia até por pedir um copo de água, e que ter esse preconceito atrás dela em todos os shows era realmente cansativo. Por volta 1998 o Bikini Kill se separou. Foi depois disto que Kathleen decidiu entrar em contato com a gravadora Kill Rock Stars para lançar uma gravação que ela mesma tinha feito em seu apartamento. Ela chamou a gravação de Julie Ruin, e abordava sobre feminismo e resistência ao abuso policial. Um ano depois junto com amigos em Nova York ela formaria a banda Le Tigre com um estilo punk mais eletrônico, e tendo como temas o feminismo e LGBTs. Kathleen Hanna sempre servirá de inspiração para as mulheres que lutam contra o machismo e homofobia, e usam a música como instrumento de luta. Outra expoente artista desta fase foi a vocalista do Blondie, Debbie Harry. Nos bastidores, uma mulher punk sem muitas frescuras e vanguardisticamente transgressora; sobre o palco, uma pinup que ria com ironia do ideal masculino que pairava sobre a mulher. Antes de Debbie, Patti Smith foi talvez uma das primeiras cantoras dessa geração e compositora de rock a liderar uma banda só de homens. Mais tarde, viriam Poly Styrene com seus X-Ray Spex, Siouxsie Sioux com seus Banshees, Kim Gordon com o Sonic Youth e Lydia Lunch com seus Teenage Jesus and the Jerks. Todas elas com construções e problemáticas bem específicas.

Mas todo esse movimento feminino no rock`n`roll começou mesmo nas plantações de algodão com o estilo saudosista conhecido como Blues, refletindo em grandes nomes da musica cantada por mulheres que sempre enfatizaram o empoderamento e questões políticas e sociais vigentes. Eu gosto muito da Koko Taylor, Bessie Smith e da Nina Simone. Muitas das mulheres dessa época nem sequer foram gravadas ou tornaram-se conhecidas. Sabe por que? Porque eram mulheres e negras. Aliás não é errado afirmar que  o gênero (rock) nasceu praticamente das mãos de uma mulher negra. A norte-americana Sister Rosetta Tharpe (1915 – 1973) empunhou uma guitarra elétrica lá nos anos 1930 e influenciou nomes como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Johnny Cash e os Beatles, através do seu som que mesclava música gospel com um blues acelerado. Tal junção se tornaria popularmente conhecida mais tarde como “Rock and Roll”.
Uma coisa linda que está acontecendo há uns 5 anos no Brasil é o “GIRLS ROCK CAMP BRASIL: Acampamento Diurno de Férias com Vivências Musicais, Exclusivo para Meninas”, que rola em janeiro  em diversas localidades do País (Sorocaba, Curitiba e Porto Alegre). Trata-se de um espaço onde as meninas têm a oportunidade de aprender a tocar um rock dentro de uma banda exclusivamente feminina, compartilhando sonhos num ambiente seguro. Umas das precursoras dessa ideia é a super Flávia Biggs, que trouxe o evento para nosso País, ela também é integrante da banda The Biggs. Iniciativa como essa buscam mudar um pouco essa lógica machista e tornar o ambiente mais igualitário, quebrando paradigmas.

 

 

Mudar o meio musical e artístico no geral tornando-o um espaço livre para mulheres é o ideal de muitas de nós. Para a guitarrista curitibana Taís D`Albuquerque (Cigarras, Rabo de Galo, Faca Cega),  essa mudança ainda exige um grande esforço do meio e mais união feminina para bater de frente contra esse patriarcado na música. “Percebo que na maioria dos festivais de rock o número de bandas masculinas é muito maior ou ainda exclusivo se comparado ao de bandas de mulheres, e na realidade já temos diversos grupos femininos ou com mulheres na formação dentro desta cena”, explica Taís. “Acredito que isso se deve muito ao fato dos homens serem amigos entre si e não indicarem bandas de mulheres por diversas razões”, completa. A guitarrista ainda comentou sobre a cobrança no conhecimento musical: “exigem muito mais técnica e conhecimento de uma mulher que de qualquer homem”. Esses são alguns dos diversos problemas que ainda permeiam nesse universo do róque. Outra problematização são as letras e ou clipes que reduzem mulheres a objetos sexuais, e a má fama que promovem das groupies (não pode nem curtir o som da banda que ja é taxada de piranha). Até jornalistas mulheres tem seu profissionalismo ignorado, são reduzidas a possíveis groupies e assediadas por membros de bandas. Síndrome de Biel não é exclusividade do funk.

 

Mas afinal qual é o motivo da falta de artistas femininas devidamente reconhecidas e respeitadas? O primeiro motivo é a falta de representatividade positiva. Até temos mulheres na cena sim (e fantásticas diga-se de passagem), mas a maioria é tratada como mero fetiche adolescente ou gurias que querem atenção da mídia e do público. O segundo motivo é falta de visibilidade, como citou a guitarrista curitibana Taís. Quantas vezes você viu nesses festivais de bandas menores ou de cover, bandas unicamente formadas por mulheres? Ou indo mais próximo da realidade: com vocalista feminina? Em comparação com o número de bandas masculinas, é uma porcentagem bem pequena.
“Ah, mas por que então as mulheres não param de se vitimizar e não formam bandas?” Mas, você ouviria? Iria a shows? Compraria os cds? Recomendaria pros brothers? Não ia julgar como banda de mulherzinha ou acusá-las de querer atenção? Quantos artistas homens você ouve? Quantas artistas mulheres? De quantas bandas com letras problemáticas exaltando a violência, a hiperssexualização feminina você gosta? É sempre bom lembrar que gostar de algo não deveria nos impedir de exercer nosso senso crítico.

 

Quanto às músicas, não precisa se esforçar muito para lembrar de letras horríveis. Desde as bandas mais próximas e locais até as bandas famosas internacionais. De Raimundos, Camisa de Vênus ou Velhas Virgens , à  Beatles, Led Zeppelin, Guns&Roses, Deep Purple e outras, é fácil reconhecer a pureza das poesias de “abre essas pernas pra mim, baby”, “Silvia piranha…” e tantas outras. A violência contra a mulher é marcante na letra de Run For Your Life, dos Beatles (ele prefere vê-la morta a vê-la com outro homem…). Led Zeppelin pode ser uma das bandas mais incríveis de todos os tempos. Mas, na letra de Since I’ve Been Loving You, Robert Plant expressa toda a chateação de um homem que parece ser um provedor, frente a uma mulher que “nega o seu amor”, e se transforma em interesseira, ardilosa, por não atingir às expectativas dele. Como lidar com tudo isso?

 

E ainda rola o preconceito da sociedade e da família, quanto ao estilo, às opções e às escolhas. É dose hein?! Ser roqueira ainda é caminhar em linhas de resistência. Talvez seja justamente isso que nos fortaleça e nos mantenha no combate: a coragem de mudar as regras estabelecidas. Sem entrar em outros quesitos do estilo, como preconceito racial e questões de homofobia que podemos ver aos montes nesse cenário “libertário”. Tão retrograde. Li esses dias e quero reproduzir aqui (me julguem): “ O rock se tornou um senhor branco, arrogante, machista, conservador e bunda mole”.

 

Música é paixão, mas é também cultura e é indústria. A cultura nacional (música, cinema, literatura, culinária, moda) é fundamental na criação da identidade de um povo. Ela ajuda a definir sua identidade, influencia sua autoestima e seu espaço nos meios de comunicação. Ninguém é uma ilha. Nossos heróis da juventude são atores, cantores, atletas. Por isso é importante que esses “heróis” sejam de várias cores, regiões, gêneros, etc. Só assim mudaremos algo e construiremos um novo futuro. Com a verdadeira igualdade que proliferamos dessa ideologia (rebelde e contra o sistema), quase esquecida.

 

Machismo

 

(Joan Jett/Kenny Laguna)

 

Machismo doesn’t wanna know macho, macho, macho

It’s always such a show, when anyone is watchin’

Even when you’re wrong, you just won’t admit it

You think you’re bein’ strong, so you take it to the limit

 

Everyone’s watchin’ everyone’s watchin’

It’s time to play the fool again

Everyone’s watchin’ everyone’s watchin’

You think you’re cool but baby you’re not

Everyone’s watchin’ everyone’s watchin’

You gotta rule and call the shots

 

Machismo doesn’t understand macho, macho, macho

What makes a man a man, it ain’t about your ego

You have to make your point but where the hell’s it got ya

You’re just a bunch a noise, but that ain’t nothin’ new

 

Always so macho, always so macho

If you could only see yourself

Always so macho, always so macho

You ain’t got the balls to be yourself

Always so macho, always so macho

You take it out on everyone else

Always so macho, always so macho oooohh

 

Machismo loves to fight macho, macho, macho

That you think might is right!

But I know that it just ain’t so

Bravado is veneer, and yours is one I see through

You’re really insecure and you’re afraid I know you

 

Everyone’s watchin’ everyone’s watchin’

You gotta rule an’ call the shots

Always so macho, always so macho

If you could only see yourself

Everyone’s watchin’ everyone’s watchin’

You thing you’re cool but baby you’re not

Always so macho, always so macho ooooohh

 

You’ve got to have your say

Always have to get your way

Don’t want Machismo anymore

 

 

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