IMS: Cultura e natureza vistas por ChichicoAlkmim, Carl F. P. Von Martius e Haruo Ohara

JoaoRobertoBortJr

Exposição do IMS de Poço de Caldas - Crédito: João Roberto Bort Jr.

Passear pelo Sul de Minas Gerais é oportunidade para provar além dos já bem conhecidos prazeres gastronômicos da região, que incluem vinho, queijo e doces. É desse algo a mais que se encontra em Poços de Caldas que pretendo falar um pouco. A cidade mineira, também reconhecida pelas suas águas termais, possui uma das unidades do Instituto Moreira Sales (IMS). Até o fim das férias é possível conhecer numa única visita as duas exposições que estão localizadas nos dois pisos principais do IMS e uma outra que o público aprecia no charmoso café. Aqueles que já possuem programação para todas as férias poderão conhecer a exposição “O mapa de von Martius – ou como escrever a história natural do Brasil” até o dia 30 de fevereiro e a de fotografias de Chichico Alkmim nos próximos meses, uma vez que se encerra em 5 de maio.

A experiência com os retratos de Alkmim é positivamente surpreendente desde o princípio da visita. A qualidade das imagens expostas – apesar da distância temporal que separa sua produção e este momento das altas tecnologias – e suas dimensões – que por vezes fazem as personagens maiores que o observador – impactam. Como afirma a curadoria de Eucanaã Ferraz, a técnica do artista é capaz de impor para nós um sujeito vivo. Embora imagino que a produção e a montagem da exposição tenham parcelas de responsabilidade pelo amplo volume de presença e vida que nos chega. Diante disso, apesar do anonimato dos muitos mineiros e muitas mineiras capturadas pelas lentes de Chichico Alkmim (1886-1978) em Diamantina durante a primeira metade do século XX, não conseguimos deixar de fazer alguma pergunta sobre suas identidades, suas escolhas pela cena ou alguns de seus objetos que procuram exibir. Os jornais são o mais comum. É uma relação de estranhamento – embora saibamos que isso implique igualmente em algum espelhamento sobre nós mesmos – efetivado pelo passar do tempo. É uma alteridade, tanto que uma das visitantes com quem eu compartilhava o espaço de exposição orientou sua filha a posicionar-se do lado de uma das personagens de Alkmim para poder ver as dessemelhanças entre as meninas separadas por cem anos. Ela exercitava pela justaposição de pessoas alguma reflexão: quais as diferenças possíveis e existentes entre nós e eles? As conclusões daquela mulher não me foram acessíveis como sua escolha metodológica, mas isso pouca importa nesse momento em que pretendo evidenciar os efeitos antropológicos da exposição. Ela é uma ocasião para experienciar a diferença com outros humanos: gente distante cultural e socialmente de nós por conta do imperativo temporal. Por essa razão mesmo se relacionavam de modo particular (as práticas sociais da época são acessíveis com alguma observação paciente e cuidadosa da relação entre os fotografados); usavam e interagiam com a máquina fotográfica de maneira singular (isso é facilmente notável, por exemplo, diante das fotos de familiares com seus bebês mortos, os “anjinhos”); construíam uma Diamantina que se preparava para vir a ser a que hoje conhecemos (imagens das ruas, bares e comércios fornece noções sobre os espaços sociais). Essas são algumas das problemáticas possíveis de serem levantadas, mas, novamente de acordo com a curadoria, há potencialidades virtuais nesses retratos. Preferiu-se manter inteiramente o que está nos negativos, evitando os enquadramentos posteriores do artista, para adentrarmos naquele tempo. É possível se aproximar perguntando-se sempre um pouco mais. Por exemplo, porque num certo retrato dois homens num piquenique exibem, segurando pelas pontas, o jornal “O Operário”? E, noutro, porque números sobre algum documento da justiça eleitoral (título?) aparecem pregados aos paletós? A que interesses serviam essas imagens?

Se basicamente as atividades humanas num interior de Minas Gerais parecem ser o foco dos retratos de Alkmim, ficando os aspectos naturais de Diamantina quase esquecidos, no piso inferior do IMS inverte-se o protagonismo. A exposição de von Martius parece colocar em segundo plano o que é produto humano – a cultura e a sociedade –, e evidencia as características da natureza brasileira. Para os mineiros, há uma parede inteira dedicada a morfologias geográficas e ecológicas do estado. Ilustra-se ainda parcelas de Ubatuba, São Sebastião, Rio de Janeiro, entre outras localidades.

A exposição é parte comemorativa dos 200 anos da Missão Austríaca no Brasil, conforme nos informa a curadoria de Iris Kantor e Julia Kovensky. Ainda segundo elas, são as obras de Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) que foram publicadas no primeiro dos 40 volumes que integram “Flora brasiliensis, publicada inicialmente em fascículos entre 1840 e 1906.

Se é possível observar formações vegetais características da cantiga, do cerrado, da Mata Atlântica, da Amazônia e dos pampas e conhecer a diversidade vegetal que as compõe, a presença de uma escrava lavando roupa numa obra e a existência de casarões, viajantes e embarcações em outras são ignoradas nas legendas. A forma pela qual o objeto contemplativo é apresentado deixa, por consequência, entrever a relevância de aspectos ditos naturais em detrimento dos humanos. O que se ilustra sobre manifestações culturais de escravos e alguns indígenas – sobre os quais não se tem nenhuma informação para além de suas denominações, quando estão presentes – são numericamente bem mais reduzidas em relação às que se dedicam ao natural. Isso em nada significa um defeito da exposição, estamos apenas – e esperamos o que leitor acompanhe a interpretação – procurando ver como as obras, os artistas e os curadores, quando seus trabalhos são vistos em interação, constroem discursos sobre o Brasil do passado privilegiando a forte presença humana ou a forte ausência humana. Portanto, é possível fazer uma apreciação das obras a partir das suas relações horizontais com as que compõe o seu conjunto, localizadas no mesmo piso, ou a partir das relações verticais com as do outro artista, localizadas no piso abaixo ou acima do IMS. Independente da escolha que faça o visitante – conhecer mais aspectos sociais e culturais daqueles brancos e negros da velha, porém jovem republicana, Diamantina, ou mais das características naturais do atual território, ou ainda os ver transversalmente (na horizontal e na vertical ao mesmo tempo) – será uma oportunidade para conhecer realidades brasileiras. Optando por uma ou outra leitura, inegavelmente temos que embaralhar o que nos é exposto: é preciso perguntar sobre o quanto de construção humana – de von Martius e dos homens de seu tempo – há nas paisagens ou de quanto limite foi imposto pelas jazidas àquela sociedade diamantinense, que se pensava próspera e rica e que por Chichico Alkmim mostra-se posterior a fase de glória.

Por fim, o paranaense que se arriscar nessa viagem até Poços de Caldas para conhecer a exposição poderá observar, quando estiver no café do IMS que inclui comida vegana no cardápio, um pouco da obra do japonês Haruo Ohara (1909-1999). Após adquirir terras na nascente Londrina, no norte do estado paranaense, e ter ganhado de José Juliani sua primeira máquina fotográfica, Ohara começou a registrar imagens em 1938. Ele aparenta conjugar mais equilibradamente natureza e cultura em sua produção. Como nos esclarece a curadoria da exposição “Séries digitais”, que visa dar acesso ao acervo fotográfico do IMS e oferecer possibilidade de aquisição de fotos a partir dos negativos, Ohara revela-nos sua família, colonos e amigos japoneses, frutas e flores, plantações e colheitas de café, vistas urbanas e vistas áreas de regiões rurais. Enfim, da cultura rural ou urbana à natureza, o japonês é artista pelo qual podemos conhecer mais da história de uma outra região do país – como as relações de trabalho, vida e costumes de imigrantes orientais – a partir tanto do que registrou de sua própria trajetória quanto da de outros. Fica, enfim, a critério do visitante tentar colocar em relação as imagens que foram produzidas em e sobre Londrina por Ohara e por seu contemporâneo Alkmim em e sobre Diamantina.