Incríveis e invisíveis mundos: a arte de JaiderEsbell e Denilson Baniwa em São Paulo e Sydney


Se as orientações para a contenção do coronavírus (covid-19) forem rigorosamente respeitadas, ao contrário da atitude do presidente Jair Bolsonaro nas manifestações de domingo (15), teremos sucesso no controle epidemiológico e, então, poderemos apreciar, principalmente a partir de setembro,a 34ª Bienal de São Paulo com a mesma tranquilidade com que voltam a respirar as pessoas do outro lado do planeta. Por exemplo, a 22ª Bienal de Sydney, iniciada no último 14 na Austrália, continuará recebendo o público. É claro, entretanto, que os responsáveis pelo evento australiano devem se preocupar com a transmissão do vírus e, por isso estão fazendo higiene dos locais compartilhados, orientando seu staff e os visitantes.

Meu desejo é de que a opacidade, como é concebida para aBienal de São Paulo deste ano, seja tão somente um direito “das expressões da arte e da cultura”, bem como “das próprias identidades de sujeitos e grupos sociais”, e não percepção da vida que a avalanche de notícias sobre a pandemia gera. Compreender esse “direito à complexidade e à opacidade”que reivindicam os curadores ficará para mais tarde, quando experimentaremos o novo formato da Bienal paulistana. Será um exercício antropológico num momento em que o evento se organiza de uma maneira diferente, porque se trata de um esforço de entender o que suspeito ser familiar aos envolvidos com o campo da arte e àqueles que recriam a exposição.

Neste ano, os artistas exporão individualmente em 25 instituições espalhadas pela cidade de São Paulo e uma parte deles estarão reunidos no Pavilhão da Bienal. Desse modo, o deslocar-se pela cidade implicará em mais aprofundamento na produção de um artista ou, em sentido contrário, na relação de sua produção com a de tantos outros que compõem a programação da mostra. Eu começaria perguntando-me sobre que diálogos existiriam entre Abel Rodríguez – artista colombiano relacionado às plantas, ao debate indigenista e à temática ambiental – e o indígena brasileiro Jaider Esbell. A concepção norteadora da dispersão artística é a de que as obras são simbolicamente elásticas em função das interações que diversamente podem ocorrer com as muitas pessoas localizadas em cada parte da capital paulista. A Bienal de São Paulo está alargada no espaço, mas também no tempo – algumas atividades, como performances, estavam previstas desde fevereiro.

No Museu de Arte Moderna de São Paulo, por exemplo, conheceremos os trabalhos de Jaider Esbell. O índio de origem Macuxi, um povo habitante no Brasil (Roraima), Guiana e Venezuela, tem notoriedade por produzir arte e se associar a ela de maneira variada. Segundo a curadoria da Bienal de São Paulo, “Esbell atua de forma múltipla, combinando o papel de artista, curador, escritor, educador, promotor e catalisador cultural”na projeção que procura dar ao “Sistema AIC – Arte Indígena Contemporânea”.

O artista, conforme escreveu em 2014, lidera uma processo criativo que, desde 2011, visa reposicionar os indígenas nos processos referentes aos seus conhecimentos,territórios e histórias por meio de muitas (novas e tradicionais) formas do fazer artístico. Muito instigante é toda redefinição que fez sobre Macunaíma (ou Makunaima?), essa personagem tão fundamental na formação do pensamento brasileiro que ganha forma completamente diferente nesta frase publicada em 2018: “Makunaima não é só um guerreiro forte, másculo, macho e viril distante de uma realidade possível, não senhores.Ele é uma energia densa, forte, com fonte própria como uma bananeira”. O que sempre foi, para mim (e provavelmente para você também), um índio mario andradiano com um duvidoso caráter é, para o Macuxi, uma entidade com capacidade de transformação. Mas, para que isso seja verdadeiramente compreensível,cabe alertarmo-nos, seguindo ainda o texto de 2018,sobre a necessidade de “visitar um outro mundo”. A arte de Esbell, enfim, ajuda na conexão com o desconhecido e o invisível.

 

 

Interessante seria pensar comparativamente com o que pretende, na Bienal de Sydney deste ano,um outro proeminente artista indígena, isto é, Denilson Baniwa. Perfeitamente notável pelo nome que tem, Denilson é um Baniwa,um povo habitante do Noroeste Amazônico.Como nos informa a curadoria australiana para defini-lo enquanto um “antropófago”, há, entre as referências desse artista reconhecido por quebrar paradigmas,o predecessor movimento do modernismo brasileiro.

Um exemplo vindo de uma fala dele é o questionamento que faz, a partir do entendimento que os indígenas têm acerca de outros planos de existência, da dominação não-indígena sobre a natureza. Distintamente da hierarquia humana sobre os animais, vegetais e demais seres, os indígenas criam conexões com o que existe e com o que não é necessariamente gente a fim de obter cura e saberes que possam ser divididos com a coletividade. O grande especialista capaz de realizar essas pontes entre humanos e não-humanos são os xamãs, que, no caso da performance de Baniwa destacada pelo Bienal de Sydney, tem forma que nos parece tão estranha quanto à que possui Makunaima entre os Macuxi.

Na imagem abaixo, visualizável no site da Bienal, Baniwa aparece em forma de onça (o Pajé Onça ou o Pajé Jaguar) com um expressivo facão apontado para cima.

 

 

Este, segundo o artista, é o trabalho de Baniwa. Ele não diz exatamente ao modo de Esbell, que afirma ser necessário visitar o outro mundo. No outro lado do planeta, o performer fala que é preciso ouvir Maliri, cuja presença pretende resgatar nesses lugares onde expõe sua obra.

Visitar ou ouvir o outro mundo, eis com o que nos presenteiam esses artistas indígenas que trazem saberes amazônicos que não ignoram demais existências só porque são invisíveis. É preciso mesmo que esses artistas nos façam ver para provocar dúvidas iguais a essas que restam ao final desse meu breve percurso antropológico: o que é, enfim, Maliri ou Makunaima? E quais as associações que existiriam entre esses conhecimentos indígenas, o direito à opacidade e as cosmovisões nativas da Oceania? Melhor dizendo, quais sentidos há entre esses temas a que se voltam Esbell e Baniwa e os temas centrais das bienais opostas apenas em suas latitudes?

São questões a serem respondidas no desenrolar de 2020 ou quando as portas do Pavilhão da mostra paulista se abrirem. Mas isso dependerá do quanto acreditaremos na transmissibilidade e na letalidade de mais algumas outras criaturas que também não enxergamos, mas que a ciência – não a arte indígena – faz serem críveis: os vírus; o coranovírus em especial. Os que fazem do presidente Jair Bolsonaro um mito podem acompanha-lo, e aí, além de não entenderem que na Amazônia tem mais do que madeira e minério – tem forças, espíritos, energia, seres etc. –, não verão problema em dar uma festa. Para eles, “há ‘histeria’ sobre o coronavírus’”.

 

 

Visite a Galeria JaiderEsbell: http://www.jaideresbell.com.br/site/

Visite as obras de Denilson Baniwa: https://www.behance.net/denilsonbaniwa