Insólitos Causos Recentes


 

Estava lá, mais uma vez com os argentinos do jazz. Desta vez, após outro show borbulhante, fomos parar no famoso bar de nome composto, ali perto do trilho do trem. Do trem das cargas pesadas, do trem enferrujado que eu pensava passar apenas uma vez por dia. Desatento, mas auxiliado pelo novo amigo, gêmeo do outro, que me disse para colocar o carro bem ali, a poucos metros do trilho do trem, das cargas pesadas, enferrujado e supostamente pouco utilizado. Na mesa de sinuca recriávamos a rivalidade boba entre Brasil e Argentina, e foi justamente nesse instante que Martino abandona seu cigarro e corre em minha direção para alertar-me: “O trem tá vindo cara!”. Inicialmente não entendi sua preocupação, pois achava que meu carro estava seguro. Mas senti seu desconforto e corri em direção ao carro e logo pude presenciar uma cena que jamais havia visto. O trem enferrujado das cargas pesadas havia parado! Isso mesmo, graças ao bom Deus e ao maquinista que, apesar do horário, estava desperto e após ver meu carro em seu caminho, puxou o freio, saiu na janelinha e soltou um berro: “Ainda bem que eu parei hein!”. Envergonhado, coloquei o carro mais pra frente e voltei para o bar. O trem começou a mover-se lentamente e ainda sim fiquei preocupado, após ter sido informado por um desconhecido que havia vagões mais largos e que meu carro ainda corria perigo. Felizmente o trem passou e o velho automóvel seguiu intacto. Momentos depois, me chamaram novamente do lado de fora, para alertar-me que agora meu carro estava sendo vigiado por dois seguranças particulares e devidamente armados com escopetas pretas. Meu instinto inicial foi correr em direção ao veículo, porém outro desconhecido me desencorajou, afinal, os caras estavam armados até os dentes. Vi um deles mexendo no celular e só posso supor que ele estava se comunicando com a polícia ou algo do gênero, para informar que o carro estava estacionado em um local proibido. Pedi pros argentinos terminarem suas cervejas e assim que os seguranças saíram, vazamos rapidamente dali. Já tivemos emoções suficientes naquela noite e não queria ter que lidar com policiais, muito menos nessa cidade, onde já havia tido algumas experiências negativas com os mesmos. 

Em outro episódio ou presepada digna dos velhos “beltrâmicos”, fui com os argentinos para outro festival multicolorido, em uma cidade vizinha. Fui acompanhado por Mr. Pink e Dr. Robert, os quais iria encontrá-los mais tarde, na chácara onde o festival iria ocorrer. Fomos munidos de barracas, comida, limões, algumas caixas de cerveja, três vinhos e um litro de um destilado com gosto de limão. Seriam dias divertidos ao lado da natureza sempre amiga, amigos antigos e uma porção de bandas e artistas incríveis. Tudo corria normalmente, porém Dr. Robert acabou “queimando a largada”, matando uma garrafa de vinho ainda na viagem. Mais algumas latinhas de cerveja e algumas bicadas no destilado foram o suficiente para deixá-lo fora de si, ou quem sabe, dentro de si, tão dentro que a comunicação com o mundo exterior se tornava difícil e até impossível, em determinados momentos. Dr. Robert é um senhor simpático, bem quisto por todos, especialmente em zonas boêmias mundo afora. Mas acontece que esse meu amigo às vezes acaba exagerando um pouco nos goles, ficando de pileque por horas a fio. Imagino que nesse dia ele tenha esquecido de comer, fato que acaba potencializando a embriaguez de qualquer um. Nesses instantes obscuros, Dr. Robert costuma balbuciar frases aparentemente sem sentido, numa espécie de “buffer” da mente. Confesso que me esforço para traduzi-lo e em meio às palavras aleatórias, costumo rir de algumas das suas tiradas, que geralmente passam despercebidas ao cidadão comum. Já devíamos estar no local referido por pelo menos 24 horas, apesar de ainda não termos armado nossas barracas. Era noite e eu estava tirando um cochilo em um colchonete estirado pela varanda de uma casa, quando de repente um desconhecido me acorda de maneira cautelosa. Abro os olhos e logo escuto algo como: “Você conhece o Dr. Robert?”. Respondo afirmativamente e sou convidado a acompanhar o rapaz que trabalhava na organização do evento. No caminho ele me explicou que meu amigo esteve o dia inteiro incomodando sua staff e que supostamente ele havia agredido uma enfermeira que tentava ajudá-lo. Me disse que Dr. Robert precisava ir embora, pois ele não tinha mais condições de permanecer no festival. Vou atrás de seu filho, conhecido aqui como Mr. Pink, felizmente o encontro perto do palco e explico a situação. Firme, Mr. Pink toma a atitude de retirar seu pai do evento, para a alegria da equipe que havia sido movida apenas para lidar com essa questão. Dias depois perguntei ao Dr. Robert se ele lembrava de alguma coisa desse dia e ele me disse que vagamente, e que de fato não recordava esse momento da suposta agressão. Já falei recentemente sobre esse tema em outra crônica, e continuo tentando entender os efeitos de uma substância tão popular e que no meu caso, nunca tive problemas. Porém temos que levar em conta aquela velha máxima que diz que cada organismo é único e por isso é necessário que conheçamos a nós mesmos, antes de abusarmos do álcool ou de qualquer outra droga que apareça por aí. 

Definitivamente esse começo de ano veio cheio de surpresas, algumas boas e outras nem tanto, como essas que relatei aqui. O caos no país dos falsos heróis parece reverberar em nossos microcosmos, apesar de continuar acreditando que depois que nos tornamos escritores, o universo parece nos presentear com histórias cada vez mais inverossímeis e só me resta relatar esses episódios pitorescos e torcer para que o bem continue prevalecendo. Até um novo amor surgiu no meio dessa bagunça toda, mas isso é assunto pra outro texto. 

 

Narração e Edição: Igor Moura
Trilha: Libertango, Astor Piazzolla