Lá é bem ali

GuilhermeZawa

– Está vendo aquele homem ali do outro lado da rua, meu filho?

– Sim, pai.

– É um bom sujeito. Honesto e boa gente. Cara legal, divertido.

– Conhece ele, pai?

– Conheço, mas ele anda meio mal. Está com uns problemas de saúde. O coração não vai bem.

– E você não pode ajudá-lo, pai?

– Não, filho, impossível.

– Mas você não é médico do coração, pai?

– Sou, filho, mas o homem está do outro lado da rua.

– Mas não basta atravessar a rua, pai?

– Filho, entenda, aqui somos do Chuí. Mas ali, do outro lado, é o Chuy.

O homem pára na calçada.

– Mas é apenas uma rua, pai.

– Não filho, esta rua não é apenas asfalto, ela é a materialização encarnada, mas invisível, do espaço intransponível entre nós e eles. Aqui Brasil, lá Uruguai. Aqui é a pátria. Aqui são os nossos.

O homem parece estar olhando na direção deles.

– Mas então, ele não pode atravessar a rua e vir até aqui, pai?

– Não filho, essa barreira é inexpugnável. Ele pode até vir até nós, mas seria só o seu corpo e sua mente, todo o mais que dá a existência real mesmo, que é a jurídica, a política, a cédula, o documento, o imposto a pagar, a conta de luz, tudo, tudo isso é o que nos faz ser quem somos, mas isso, meu filho, ainda ficaria do lado de lá, principalmente a bandeira. A bandeira e a insígnia são impossíveis de se mudar.

– …

– Veja, filho, essa rua não nos separa por acaso, ela nos separa porque merecemos. Merecemos estar do lado de cá.

– E aquele homem merece passar para o lado de cá, pai?

– É difícil dizer, filho, veja, ele não tem um dos sobrenomes do lado de cá, e nem fala como se fala aqui. E se fala, fala com sotaque que não temos aqui. E, mesmo que se esforce, talvez nunca venha a ser tão como nós, pois não basta apenas ser por si só, há que ser da nossa pátria, mas depois ainda há que ser de nossa cidade, então de nossa família e, por fim, das nossas afinidades.

O homem parece olhar na direção deles e acena.

– Pai, aquele home nos acenou.

– Rápido, entra no carro.