LATINIDADES CURITIBANAS – A Cultura Alimentar da América Latina em Curitiba

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Os humanos são animais adaptáveis e colonizadores. Desde que o homem é homem, e mesmo antes disso, uma de suas características foi a conquista de novos ambientes e sua transformação. Com a invenção da agricultura e do pastoreio, as migrações humanas transformaram-se em migrações simultâneas de diversas espécies animais e vegetais. A itinerância das espécies domesticadas está inscrita na própria linguagem. O pêssego (persicum) traz no nome sua imaginada origem na longínqua Pérsia; o damasco remete ao Califado de Damasco, no Oriente Médio. Por outro lado, em russo e grego a palavra que designa a laranja é Portugal.

O processo de transmigração de espécies aumentou exponencialmente a partir do século XV, com as viagens oceânicas iniciadas pelos portugueses. Desde então, os navios passaram a transportar não apenas homens, mas plantas e animais. Diversas espécies, domesticadas ou não, foram tiradas de seus ambientes originários e atravessaram os mares. Os animais domésticos do Velho Mundo, vacas, cabras, carneiros, porcos, patos e galinhas mundializaram-se. Por sua vez, as Américas cederam para o mundo dezenas espécies que hoje fazem parte do padrão global de alimentação: milho, batata, tomate, pimentão, entre outras. Paralelamente, espécies ornamentais e frutíferas se difundiram em velocidade vertiginosa.

No século XVII, este processo, até então pouco metódico, começa a assumir um caráter mais sistemático, com a difusão dos jardins botânicos. No início, esses jardins eram destinados ao cultivo de símplices, as ervas de uso medicinal. Aos poucos, eles se tornam plataformas de difusão e aclimatação de espécies para uso alimentar, produtivo (fibras, corantes, madeiras) e médico.

Um dos primeiros jardins botânicos de nova modalidade foi criado pelo príncipe Maurício de Nassau, em Recife. No entanto, foram os franceses que deram forma final aos jardins de troca e aclimatação de espécies. Mais para o final do século XVII, Gustav Colbert, famoso ministro de Luís XIV, reergueu a Academia das Ciências e fez reformar o Jardindes Plantes.

Paulatinamente, a coroa francesa fez construir uma rede mundial de jardins botânicos, iniciada no Caribe e na América do Norte. Os mais conhecidos são os de Pamplemousses (1767), nas Ilhas Maurício; Saint Denis (1769), nas Ilhas Reunião; La Gabrielle (1778), em Caiena; Saint-Pierre (1803), na Martinica; Le Jardin Royal (1816), no Senegal e o de Pondichéry (1827), na Índia. A intensa troca de mudas e sementes espalhou a produção de especiarias pelo mundo, quebrando o quase monopólio, que então era dos holandeses.

A segunda metade do século XVIII, foi um período de reposicionamento das potências coloniais no mundo. O desenvolvimento da botânica e da zoologia fez parte desse processo. As ilhas oceânicas passaram a ser consideradas bases estratégicas e foram disputadas. Este foi o momento de descoberta e início da ocupação das ilhas do Pacífico e da Austrália. Ingleses e franceses disputaram esses novos espaços e financiaram viagens que, ao mesmo tempo que tinha um caráter bélico e estratégico, levavam junto naturalistas, astrônomos e cartógrafos. Basta lembrarmos as viagens de Bougainville, de La Perousse e do capitão Cook. A descoberta e aclimatação de espécies foi um dos propósitos dessas viagens. O conhecido episódio do motim do navio Inglês Bounty, ocorreu quando foi feita a primeira tentativa de trazer a fruta pão, recém descoberta na Polinésia, para o Caribe. A Inglaterra estava em busca de uma espécie produtiva e rentável para produzir alimentação barata para escravos.

Portugal não ficou alheia a esse processo. Em 1772, foi criado um curso de Filosofia Natural na Universidade de Coimbra e fundados dois jardins botânicos, um que pertencia à Universidade e outro em Lisboa. Também foram enviadas expedições de estudo às colônias: as Viagens Filosóficas, iniciadas em 1783. Por coincidência, todos os naturalistas que chefiaram essas expedições eram ex-estudantes da Universidade de Coimbra, nascidos no Brasil. Os baianos Alexandre Rodrigues Ferreira e Manoel Galvão da Silva seguiram para a Amazônia e Moçambique. Os cariocas Joaquim José da Silva e João da Silva Feijó, para Angola e Cabo Verde. Uns anos depois, Hipólito da Costa Pereira, da Colônia do Sacramento, foi mandado aos recém independentes Estados Unidos para estudar a agricultura da América do Norte e mandar mudas e sementes para Portugal.

Mais para o final do século XVIII, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ministro do ultramar, ordenou a criação de uma rede de jardins botânicos nas colônias, inspirando-se no caso francês. Além disso, estimulou a troca de espécies, principalmente entre as colônias do Brasil e da Índia. Foi nesse período que foi introduzida de forma sistemática na Bahia uma série de espécies indianas e da Oceania que hoje a gente acha até que são nativas: jaca, jambo, manga, cajá-manga, caneleira, etc. Estas espécies juntaram-se a outras, como o cacau e a graviola, trazidos da América Central, para construir toda uma paisagem “natural” que se tornou típica da região.

As descontinuidades administrativas da colonização portuguesa fizeram que esses jardins de aclimatação entrassem em decadência e desaparecessem. Outros, como o do Rio de Janeiro e Salvador, sobraram como Passeios Públicos. No entanto, com a vinda da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, foi criado um novo jardim botânico, que subsiste até hoje no Rio de Janeiro. Ali foram aclimatadas diversas espécies trazidas do Oriente, em especial o chá. Muitas variedades botânicas também foram trazidas da Guiana Francesa, pois, assim que chegou ao Rio de Janeiro, D. João ordenou a ocupação daquela colônia e a transplantação das espécies de seu famoso jardim botânico para os jardins do Brasil. Uma das espécies transplantadas foi uma variedade de cana-de-açúcar mais produtiva que os franceses haviam trazido do Oriente, a cana de Caiena, que aportuguesamos para cana caiana.

Todo esse movimento alterou drasticamente as dietas humanas de todas as regiões do planeta. A batata dos Andes foi introduzida na Europa, inicialmente como comida de porcos, pois as pessoas consideravam seu sabor horrível. Só no século XVIII, após muita pressão das coroas europeias, o consumo humano da batata se difundiu e hoje é “típico” da culinária de muitos países europeus. O que seria da culinária portuguesa sem o bacalhau do Ártico e a batata dos Incas? O que seria da culinária italiana sem o molho dos tomates e pimentões astecas? O que seria da nossa culinária sem o feijão e a mandioca domesticados pelos indígenas e o arroz, trazido da Ásia no século XVIII? Os animais e plantas domesticados e difundidos ao logo da história humana são um dom de nossos antepassados, compartilhados com toda a humanidade.

É óbvio que o impacto ambiental desse todo esse movimento tem sido profundo, principalmente em ilhas e outras regiões cujas espécies se desenvolveram em isolamento. O problema maior, no entanto, não é a transmigração em si, mesmo porque a mundialização de espécies vegetais e animais, na qual se inclui o homem, é um processo que ganhou tal escala que já não poderá ser revertido. O grande problema atual é um tipo específico de agricultura e pecuária que, desde o século XVI, vem tomando conta do mundo: a monocultura extensiva. Mais recentemente ela vem sendo “tecnificada”, eufemismo para designar o uso de agrotóxicos, cujos efeitos são já bem conhecidos, e de sementes geneticamente modificadas, capazes de gerar problemas que ainda nem imaginamos.

 

 

Por Magnus Pereira (historiador)

 

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PORQUE COMIDA É CULTURA!

Equipe: Lai Pereira (coordenação geral), Marcelo Empinotti (curadoria), Meg Mamede (pesquisa histórica), Juana Dobro (fotografias e entrevistas), Rádio Cultura de Curitiba (edição e veiculação)

 

 

 

PROJETO REALIZADO COM O APOIO DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA – FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA E DA PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA

 

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ACOMPANHE A SEGUIR AS DATAS DE LANÇAMENTO DE RECEITAS DE 12 PAÍSES DA AMÉRICA LATINA COM SEUS RESPECTIVOS REPRESENTANTES EM CURITIBA.

 

24/jun Argentina Pablo Aimar Lomito
08/jul Bolívia Carmen Espejo Sopa de Maní
22/jul Brasil Doralice Messias Tacacá
05/ago Chile Ximena Leon Caldillo de Congrio
19/ago Colômbia Claudia Rueda TamalSantafereño
02/set Cuba Teresita Campos Yuca em Mojo e Plátano Maduro Frito
16/set Haiti Gabrielle Philogène Legume Haitiano
30/set México Daniela Nieto Enchiladas Verdes
14/out Paraguai Maria Elena Khouri Chipa-Guasu
28/out Peru Fernando Montenegro Locro Peruano
11/nov Uruguai Jorge França Pasta Flora
25/nov Venezuela Samuel Osorio Majarete