LATINIDADES CURITIBANAS: BRASIL – BIOMA AMAZÔNIA


O Brasil é também latino-americano. Culturalmente falando, a língua é o diferencial, pois é o único país de todo continente que fala português. Contudo, ele partilha de outros elementos culturais importantes que o aproxima dos países vizinhos, em especial quando o assunto é a cultura alimentar, já que todo o território da América Latina foi habitado por diversas etnias indígenas antes do período das grandes navegações. E é essa cultura que serviu de base para as dietas alimentares do continente. Porém, mais que isso, o país compartilha com alguns vizinhos a maior floresta tropical do mundo: a floresta Amazônica (da qual ele detém a maior área). O bioma estende-se pela Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa, e dele provém diversos insumos da cozinha indígena que até hoje se consomem no Brasil e em outros países.

O Brasil, que possui dimensão continental, tem registrado em vários momentos de sua história movimentos de migração interna. Quando da chegada dos portugueses, vários grupos indígenas que já migravam pelo país e que naquele momento habitavam a costa brasileira se viram obrigados a adentrar no continente. A esta população se acrescentem os africanos que para cá foram trazidos e consigo trouxeram também saberes de sua cultura. O país conta até hoje com um constante movimento de êxodo rural estimulado por questões econômicas e climáticas, que fazem com que pessoas de todas as regiões do Brasil se desloquem, radicando-se em outras partes do país. A questão da migração interna, somada aos povos de várias partes do mundo que no país se estabeleceram em diversos momentos históricos, é o que permitiu que a cultura alimentar brasileira seja tão diversificada e rica em sabores, cores e aromas em toda sua extensão territorial.

Aqui, o destaque será para bioma Amazônia, porque trata-se da ligação com países vizinhos, em especial quando o assunto é cultura alimentar. O bioma amazônico brasileiro compreende em seu território o Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, e ainda parte do estado do Maranhão, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins. Por esse motivo alguns pratos são preparados e consumidos em várias localidades, com alguma variação em virtude dos insumos disponíveis e modo de preparo. Rica em produtos como tubérculos, vegetais, castanhas, frutas, peixes, mariscos e crustáceos (em sua maioria de água doce) como o pequeno e saboroso camarão Aviú, a região Norte do país possui pratos icônicos com forte referência indígena como Pato no Tucupi, Tacacá e Maniçoba. Para se ter uma ideia, em 1960 quando Gilberto Freyre anunciou estratégia para indústria do turismo no país, eles utilizaram a representação da unidade federativa pela quantidade de pratos típicos. Já nessa época o Pará estava em primeiro lugar, Amazônia em quinto, Amapá em sexto e Roraima em nono, demonstrando a grande diversidade alimentar da região Norte.

Mas, se existem dois alimentos que representam bem a base da refeição brasileira, são eles, o arroz e o feijão, consumidos em todas as regiões do país. Representantes de um sistema alimentar ocidental, esses alimentos foram introduzidos no país a partir do contato com viajantes e navegadores estrangeiros e também são consumidos na região Norte.

Do bioma amazonense destacamos ainda o Tucupi, sumo ou caldo extraído da raiz da macaxeira (aipim) que serve de ingrediente para vários pratos da culinária regional. Tem ainda o Jambu, uma erva típica da região (originária da América do Sul) também chamada de agrião do Pará, muito utilizado em receitas nortistas. As frutas da região são uma festa para o paladar, do Açaí (que já caiu no gosto do brasileiro) passando pelo Cupuaçu, Jatobá, Tucumã, Araçá-Boi, Bacaba, etc., mas não podemos deixar de falar do Guaraná, fruta que dá origem a bebidas, xaropes e outros alimentos energéticos. A castanha que se tornou famosa mundialmente como Castanha do Brasil é a Castanha do Pará, consumida em sua forma natural e de outras maneiras como farinhas, leites, trituradas e presentes em uma infinidade de receitas, alimento também encontrado em países vizinhos, mas com maior concentração de castanheiras na Amazônia brasileira.

Há muito para contar acerca da riquíssima cultura alimentar brasileira e a população do Norte do país, que migrou para outras regiões. São eles os embaixadores dessa deliciosa culinária de base indígena, africana e lusa presente em feiras, eventos e na alta gastronomia do país. São eles também responsáveis pela salvaguarda de receitas e pratos que, mais que alimentar as pessoas, carregam a identidade e a cultura regional e brasileira, demonstrando o quão grande e diversa pode ser uma nação, e ainda assim praticar a hospitalidade através de sua cultura alimentar.

 

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TACACÁ

POR DORALICE MESSIAS

(Serve 4 pessoas)

 

Ingredientes

  • 4 xícaras (chá) de água
  • 1/2 xícara (chá) de polvilho azedo (ou goma de mandioca)
  • 1 colher (chá) de sal
  • 500g de camarão salgado (seco)
  • 4 folhas de chicória
  • 4 dentes de alho bem amassados
  • 3 pimentas-de-cheiro
  • 2 maços de jambu
  • 2 litros de tucupi

 

Modo de preparo

Coloque o tucupi em uma panela com o alho inteiro, o sal, a chicória e as pimentas de tempero.Leve ao fogo.Quando começar a ferver, abaixe o fogo, tampe a panela e deixe cozinhar por 30 minutos aproximadamente.

Simultaneamente em outra panela, cozinhe o jambu até ficar tenro.Retire do fogo, escorra e reserve.

Lave bem os camarões e leve-os ao fogo em uma panela com 4 xícaras de água.Deixe ferver por aproximadamente 5 minutos.Retire a cabeça e a casca.

Em uma panela, misture a goma da tapioca, leve ao fogo e mexa até obter um mingau.Sirva em uma cuia, específica da região amazônica, com uma concha de tucupi, um pouco da goma do tacacá, algumas folhas de jambu e os camarões.

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Sobre Doralice Messias

 

 

Doralice Silva Messias nasceu em Itupiranga – PA. Veio para Curitiba em 1985, com seu filho. Fez Pedagogia, cursos de aperfeiçoamento e trabalhou em vários locais até 2005. Iniciou a Barraca da Amazônia em 1999 e, desde 2005, dedica-se exclusivamente a ela.

 

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PORQUE COMIDA É CULTURA!

Equipe: Lai Pereira (coordenação geral), Marcelo Empinotti (curadoria),

Meg Mamede (pesquisa histórica e textos), Juana Dobro (fotografias e entrevistas),

Rádio Cultura de Curitiba (edição e veiculação)

 

 

 

PROJETO REALIZADO COM O APOIO DO PROGRAMA DE APOIO E

INCENTIVO À CULTURA – FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA

E DA PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA