Luto, memória e coronavírus


Edson Luiz André de Sousa, professor do Instituto de Psicologia, avalia o cenário brasileiro e reflete sobre como lidamos com as mortes

*Por: Edson Luiz André de Sousa
*Foto de capa: Pirje Mykkänen – Areia, alumínio, aço e motor elétrico. Dimensões: 27cm x 400,1cm. Mona Hatoum/2004-2020, Galeria Nacional Finlandesa.

Mona Hatoum, artista de origem libanesa e atualmente radicada na Inglaterra, concebeu em 1979 um trabalho que intitulou Self-erasing drawing (Desenho de autoapagamento). Esse trabalho consiste em duas hastes dispostas sobre uma caixa circular com areia que giram rente a essa superfície como dois ponteiros de um relógio. Em uma das hastes, garras perpendiculares fazem traços na areia; a outra surge logo depois apagando estes mesmos traços. Nada melhor do que essa imagem para dar forma ao que estamos vivendo em nosso país há muitos anos.

Temos tido dificuldades de guardar e conservar vivos e ativos os registros traumáticos de nossa história, para que possamos lê-los e, assim, interromper o funcionamento de uma lógica de violência, de desigualdade, de desprezo pela saúde e educação de nosso povo. A trágica experiência que estamos vivendo com a pandemia parece ter escancarado ainda mais essa lógica mortífera.

Vemos diariamente um governo federal incapaz de um cuidado com a saúde, negando de forma criminosa a letalidade do vírus e, o que é pior, insuflando esse ar negacionista em uma parte importante da população.

Estamos todos de luto! São mais de 120 mil pessoas mortas até o momento em que escrevo este texto. Um luto que para acontecer precisa acionar nossas Antígonas para que possamos cuidar da memória de nossos mortos. A estupidez e a brutalidade andam soltas por este país, incentivadas pelo atual presidente que, mesmo diante de números inimagináveis, brada de forma insana: “Eu não sou coveiro”.

Mais do que nunca, precisamos afirmar o respeito aos mortos, como fez o taxista Marcio Silva, na praia de Copacabana, que precisou recolocar no lugar as cruzes em homenagem a vítimas da pandemia derrubadas por alguém contrário ao ato de memória organizado pela ONG Rio da Paz. Esse ato restitui também o espaço simbólico do ritual, já que milhares de pessoas estão até mesmo impedidas de acompanhar o enterro de parentes.

Enterrar os mortos é quase tão antigo como o próprio ser humano. Neste ritual, cuidamos da memória de quem morreu e nos pacificamos, em parte, com a dor de uma perda. De certa forma, somos todos coveiros  quando estamos presentes em uma cerimônia de enterro.

Por isso, é fundamental lembrar de Sófocles e Antígona, em sua função de coveira, diante da insanidade do tirano Creonte, que a impedia de enterrar seu irmão Polinice. A atitude do tirano evidenciava seu desprezo pela vida, já que o ato fúnebre é um ritual de vida. Creonte destila ódio e diz a Antígona: “O inimigo nunca é amigo, nem quando morre”. Antígona responde: “Minha pessoa não foi feita para compartilhar o ódio, mas o amor”. Esse diálogo do século V a.C. precisa ser lembrado nesta terra em brasa.

Roland Barthes, em seu livro “Fragmento do Discurso Amoroso”, escreve que o luto maior é quando perdemos a linguagem. Essa é uma ameaça real que estamos sofrendo, lado a lado com os poderes letais do vírus. A palavra tem perdido sua credibilidade em um cenário político embalado por vociferações, discursos de ódio, fake news e, sobretudo, uma incapacidade de escuta às vozes que discordam da condução política e que tentam se fazer ouvir.

Paradoxalmente, a situação de distanciamento social tem nos obrigado a reinventar outras lógicas de contato, abrindo espaços para uma rede de solidariedade inédita e mais do que nunca fundamental.

Não teremos chance de mudar o curso da história deste país se não formos capazes de incorporar na corrente sanguínea de nossa história um olhar para aqueles que sempre foram excluídos, esquecidos, eliminados. Precisamos desmontar a maquinaria do esquecimento e resgatar por debaixo desta terra todas as histórias. Mesmo que na superfície de areia os traçados sejam apagados, eles estão inscritos profundamente neste solo, como raízes profundas, como espinhos encravados por dentro da pele.

Areia, alumínio, aço e motor elétrico. Mona Hatoum/2004-2020 (Foto: Songul Aslanturk)

Esse trabalho só será possível com amplo movimento popular que exija uma política nacional de memória. Um primeiro passo foi dado com o trabalho da Comissão Nacional da Verdade. Essa comissão foi oficialmente instalada em maio de 2012 e encerrada em dezembro de 2014, quando apresentou um amplo relatório do trabalho realizado. Ela tinha por finalidade apurar graves violações de Direitos Humanos no Brasil, investigar crimes como mortes e desaparecimentos cometidos por agentes representantes do Estado no período de 18 de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988, principalmente aqueles ocorridos durante o período da Ditadura Militar.

Talvez muitos nunca tenham visto esse documento nem saibam que ele está disponível para consulta na internet com todos os relatórios, laudos periciais, imagens das dezenas de audiências públicas realizadas, registros dos depoimentos. Um documento precioso para a história e que ainda espera por mais leitores.

Vivemos um período de muitas incertezas, no qual precisaremos da ciência, da pesquisa e do conhecimento para fazer frente à pandemia. Ao mesmo tempo, vemos se disseminar, sobretudo em nosso país, um ataque à ciência, às universidades e à cultura, e que tem colocado em risco não só milhares de vidas, mas uma chance de um futuro melhor.

Para que um horizonte mais promissor seja possível, precisaremos voltar a cuidar das palavras, dar nome a todas essas dores que marcam nossa história, construir memoriais, ampliar espaços de pesquisa, de investimento na educação, ampliar politicas sociais que possam efetivamente diminuir a brutal desigualdade social que marca nossa história.

Temos pela frente uma travessia difícil. Teremos talvez alguma chance se pudermos também colocar os pés na areia, como fez Marcio, e fazer cada um a sua parte neste dever de memória.


Edson Luiz André de Sousa é professor do Instituto de Psicologia.