Mad. A revista mais louca da história


Publicação moldou o humor americano do pós-guerra e durante 67 anos satirizou o american way of life em todos os seus aspectos

Corriam os anos 1950 com o macarthismo a todo vapor. Foi a década na qual todo norte-americano que tivesse atividades consideradas suspeitas incorria no “crime” de ser comunista. Quando não, era acusado de “atividades antiamericanas”. No meio desse balaio insano, um pacato editor de histórias em quadrinhos sobre guerra e história, William Gaines, junta-se a seu colega Harvey Kurtzman para a criação de uma publicação de humor.

Até então, Kurtzman trabalhava na editora de Bill Gaines, a EC Comics — no início Educational Comics, especializada em histórias ilustradas da Bíblia. Gaines era filho do dono, e acabou herdando o controle da editora, tornando-a “Entertainment Comics” em seguida. O foco daí foi em quadrinhos de terror e ficção científica, que incluiu o clássico Tales from the Crypt. Kurtzman era editor comissionado de duas publicações ao todo. O outro editor, Al Feldstein, era mais bem-sucedido por editar sete títulos.

 

Sem dinheiro, Kurtzman resolveu procurar Gaines para conseguir um empréstimo. Chegaram a um acordo. Gaines lhe emprestaria o dinheiro. Mas parte do acordo era a condição de que ambos criassem um novo título para publicação. Kurtzman tinha um bom portfólio de humor e assim foi feito.  Ficou decidido que a nova publicação seria uma revista em quadrinhos que satirizasse as demais revistas do gênero. Nascia ali a Tales Calculated to Drive You Mad (traduzindo, Histórias com a intenção de levá-lo a loucura). O embrião do novo humor americano estava nas bancas, em outubro de 1952.

O gibi bimestral contou com a colaboração de nomes da EC Comics como John Severin, Wally Wood, Jack Davis e Bill Elder. Este último responsável principal pelo estilo do traço da nova HQ. As historietas de fato “sacaneavam” os títulos tradicionais de quadrinhos, que viviam seu auge no período.

Chamada popularmente apenas de Mad, a pequena publicação demorou um tempo para engrenar, mas já no seu número 4, com uma bem apanhada sátira do Superman (Superduperman) esgotou todos os exemplares e estabeleceu definitivamente o gibi, formando uma nova categoria de leitores, nem tanto adolescentes, mas adultos com gosto pelo humor irreverente. Era um tanto agressivo, inclusive. Na lateral da revista vinha uma mensagem, “humor via veia jugular”.

Mas, como dito, reinava o macarthismo. Não tardou para a Comics Code Authority — órgão regulador das publicações em quadrinhos — deitar seus tentáculos sobre a pequena publicação, por seu ar iconoclasta e subversivo, enquadrado obviamente em “atividades antiamericanas”. A solução encontrada: transformar a Tales Calculated to Drive You Mad em formato revista. Não sendo mais um gibi, não teria problemas com o órgão regulador de publicações em quadrinhos. E o nome tornou-se oficialmente apenas Mad. Uma revista de humor para adultos. Nascia ali também o personagem Alfred E. Neuman,  mascote e símbolo. Cínico e sacana.

Com muitos problemas financeiros no começo, Kurtzman resolveu abandonar a revista (ele depois faria a National Lampoom e a Cracked, seguindo o mesmo gênero que ajudou a criar, além de fazer história na Playboy). Al Feldstein assume a publicação em 1956, e durante os anos 1960 a Mad se impôs e criou de fato uma legendária tradição. Feldstein dirigiria a Mad até 1984, quando se aposentou.

Em seu auge, no ano de 1974 a Mad seguiu com tiragens que chegaram a incríveis 2 milhões de exemplares. E seguiu com altíssima tiragem até seus meados da década de 1980. Sem perdoar nada nem ninguém. Consagrou nomes como o espanhol Sergio Aragonés, Don Martin, Al Jaffee, o cubano Antonio Prohías (criador do icônico Spy vs Spy) e muito especialmente Mort Drucker, que realizou os quadrinhos que satirizavam os filmes e séries da época, um traço definitivo da Mad.

A revista passou para o controle da DC Comics ainda nos anos 1960, quando Bill Gaines vendeu sua empresa à Kinney Parking Company. A Kinney por sua vez adquirira a National Periodicals (hoje DC Comics). Gaines foi nomeado membro do conselho e autorizado a publicar a Mad com toda liberdade, sem interferência. A redação da Mad se mudaria para o prédio da DC apenas em meados dos anos 1990.

A Mad teve sua história no Brasil, publicada pela Editora Vecchi sob o comando do cartunista Ota (Otacílio D’Assunção) desde 1974. Recentemente foi passada para as mãos da Panini. Desde o início dos anos 2000 houve várias tentativas de “reanimar” a Mad. Mas foi descontinuada definitivamente mais ou menos junto com a publicação internacional.

Entre 1952 e 2018, foram 550 números, 22 edições internacionais e milhares de charges, tiras, humor ácido e irreverência. Enfim, ao longo de 67 anos, a revista Mad foi um ícone do humor norte-americano e mundial. Seu fim foi anunciado em 2019. Sob o sorriso sacana de Alfred E. Neuman.  We Worry?

Ouça. Leia. Assista:

Especial Mad magazine 1974

Uma Revista Muito Louca – Análise do humor da Mad Magazine, de Roberto Elísio dos Santos

Imagens: reprodução