Meu Último Retiro Espiritual


Outro dia arrastado, sem brilho, com o sol escaldante de janeiro, desse janeiro que me deu a vida, outro mero detalhe pertencente a infinita coleção de coincidências e que por algum motivo ou outro resolvemos etiquetar assim. Quando estamos bem as coincidências são sinais divinos auxiliadores de caminhos. Quando estamos mal, bem, elas são apenas coincidências. Outro dia arrastado e dengoso, o almoço solitário ainda é um momento alegrinho, apesar de durar apenas 15 minutinhos. Cenas repetidas de um janeiro aburrido, sem metas ou grandes sonhos para perseguir. Dr. Robert me acompanha em boa parte dessas repetidas cenas de outro verão desperdiçado por entre tabacos bolados, cervejas geladas, chuvas torrenciais, conversas ralas, lanches rápidos, chocolates com coco, trepadas imaginárias, ervas e raios vindos da comunidade dos sonhos rompidos. Outro dia arrastado que passa um pouco mais ligeiro após a sesta necessária para aliviar o corpo cansado de tanto calor e tanta procrastinação. Outro dia arrastado que se transforma na noite infantil onde a arte dos encontros e dos acasos possibilita o mínimo de esperança necessária para trocar o chinelo pelo tênis astronáutico presenteado pelo irmão norte americano. E com Dr. Robert seguimos em busca de outro patético bloquinho de carnaval na cidade fantasmagórica onde certa vez era possível ver bandas inteiras tocando nas ruas, mas que hoje estava condenada as leis e regras capitalistas e separatistas, já que que agora pra ouvir som ao vivo, hay que pagar, hay que tener paciencia para aguentar o mesmo espaço com aquelas mesmas pessoas. O bom de ficar velho é perceber que ao menos os figurantes mudam sempre, e os bares continuam nascendo, ainda que boa parte deles morrerá em poucos meses. E nesses locais novos os figurantes parecem novos também, sinal que a cidade cresce e que a idade já não permite acompanhar tantas almas novas. Os coadjuvantes, esses continuam os mesmos, figurinhas carimbadas do álbum desbotado do campeonato da pseudo subversão, do trajeto largo-trajano-são-francisco. Os coadjuvantes são aqueles seres insistentes que ainda acreditam na magia das ruas e em todas as tentações notívagas típicas das capitais. Nesse sábado eu e Dr. Robert saímos cedo, acompanhados pelo cearense Purple Haze. Escutamos o burburinho vindo das ruínas e provocado por algum bloco carnavalesco formado por travestis e simpatizantes. Outsiders que somos logo nos sentimos desconfortáveis, não pelos travestis, mas por toda aquela alegria desmedida que naquele instante parecia não caber em nossos corações quebradiços. Fomos para a vila dos perdidos, encontramos velhos conhecidos, bebemos cervejas de litro, trocamos algumas ideias e logo o grupo se desmembrou. Eu e Dr. Robert fomos para o último bar da região, the b-side made for punks and rock’n’rollers e com aquele chopp supimpa por menos de dez pila. Degustamos o líquido ruivo sentados na calçada elevada pelas pedras conectoras de árvores. A noite ainda era jovem e os possíveis desdobramentos permaneciam nebulosos. Na subida da Trajano Dr. Robert se interessa pelo convite do show dos racionais do groove no porão dos gaúchos, e se esvai na penumbra e na companhia de outros compadres. São onze horas da noite e eu já estava cansado de tudo aquilo, sentia que precisava retornar ao lar e descansar.

Quem diria que um tombo precoce em plena noite de sábado seria capaz de me presentear com sonhos tão lúcidos e profundos como aqueles que experienciei e que me fizeram despertar as sete da matina com os olhos esbugalhados e a alma massageada. Ainda que o mundo lá fora sinalize seu fim, protagonizado por capitães, empresários e doutores mentirosos que cultuam o dinheiro e o poder, abraçam as armas e a violência, coroando a estupidez de suas mentes vazias, ainda que esse mundo aparentemente real esteja mesmo próximo do fim, fico feliz de perceber que do outro lado todo esse caos parece fazer algum sentido. E se lá fora tudo é decadente e repetitivo, nos sonhos tudo parece fresco e é preciso viajarmos nas profundezas desse mar de símbolos e sacadas infinitas com o intuito de diminuir essa dor e esse peso de uma existência em um planetinha tão atrasado e capenga. Universitários dizem que só nessa galáxia existem pelo menos 100 bilhões de planetas e você consegue imaginar todos esses lugares fazendo tanta merda quanto fazemos por aqui? Bem, talvez nesses outros cantos o bem prevaleça, mas ainda sim, aqui temos os Beatles e todas aquelas belas canções para nos lembrar que em alguma dimensão o amor triunfará. Também temos um dos poucos alemães que deram certo, um tal Jung para nos lembrar da importância desses sonhos malucos e curativos. Não poderia deixar de citar um tal Lynch que costuma trabalhar a potencialidade criativa desses sonhos em seus filmes. E é sobre um desses sonhos que tentarei descrever em detalhes nas próximas linhas.

Estava em um sítio ou alguma espécie de retiro espiritual, um sítio dentro de Curitiba, onde em alguns locais era possível escutar o barulho dos carros. Havia mais umas duzentas pessoas comigo, vindas de diversas partes, algumas delas personagens de diferentes épocas da minha vida. Apesar de parecer estar em um retiro, não havia muitas regras, era possível falar a vontade, os quartos eram grandes e não havia camas, apenas tapetinhos. Talvez a única regra é que ninguém podia consumir drogas e também não havia nenhum ritual xamânico com uso de alguma substância psicoativa. Ficava quem queria ou quem aguentasse aquela experiência maluca de conviver em um sítio com aquelas duzentas pessoas. Encontrei uma antiga namorada, encontrei um antigo colega de faculdade que parecia estar na mesma dimensão de antes, buscando sexo fácil com alguma colega do retiro. Encontrei um ser muito particular que parecia representar a cachorra aqui de casa, nossa relação foi intensa e ele me disse tudo que a cachorra sempre quis me dizer durante todos esses anos que estivemos juntos. Encontrei outro cara que como eu, já havia participado de um retiro de dez dias em silêncio, e também parecia estar desfrutando cada momento, já que ali era possível tagarelar a vontade. Escutava gente filosofando sobre a vida e outro detalhe que me chamou atenção era que a maior parte das pessoas usavam máscaras como forma de esconder suas identidades. Outras usavam camisetas de super heróis e lembro de dar um discurso sobre isso, teorizando sobre esses tempos modernos onde filmes e desenhos fazem adultos continuarem querendo ser super heróis. Além dos quartos, havia refeitórios e locais naturebas onde eram oferecidos sucos feitos com frutas exóticas completamente desconhecidas.

Apesar de inconclusivo como a maior parte dos sonhos, quando despertei me senti contente e energizado. Ainda que o mundo real pareça enfadonho, nos sonhos vivencio intensamente cada emoção: choro, rio e me divirto também.