MIEGJORNAU


Sexta – 13 horas. Reprise segunda às 0h.

Adissiatz brave monde!

Descobrir o mundo occitano é uma passagem direta a uma parte da história da humanidade que não nos foi transmitida nos livros de história comuns. É preciso pesquisa, vontade e ação para se chegar o mais próximo da sabedoria de uma civilização em vias de desaparecimento: a civilização occitana.

Língua dos primeiros trovadores, os inventores do amor fino, elegante, o fino amor. Uma sociedade de mulheres em igualdade com os homens. Generosidade, abertura de espírito, nobreza de coração, gratidão, respeito pelo outro e a convivência são os valores fundamentais deste povo da terra e das letras. Entretanto, desde o ano de 1208 uma Cruzada contra os occitanos iniciou-se seguida pela Inquisição.

As vítimas da Inquisição dirigida pelo Papa Inocente III suplicavam em língua occitana. Em occitan se comunicava a sociedade do sul da França, até que no começo do século XX inicia-se uma ação do Estado contra as línguas regionais no Hexágono. Catalão, breton, basco, corsa, alsacian, flamand, occitan, entre outras, recebem a identidade de línguas minoritárias ou línguas regionais. No terreno foram chamadas de patuá, uma designação de conotação pejorativa.

A “vergonha”, sentimento nascido da interdição da transmissão da língua e da cultura é presente nos não ditos desta sociedade dominada, de um povo que é occitan sem o saber. Bisavós e bisavôs, mães e pais, familiares em geral proibidos de transmitir sua língua materna. A dominação cultural da francofonia se faz a braço de ferro. Falar de língua e de civilização occitana é poder abordar aspectos de sobrevivência da existência de um povo dominado culturalmente: o combate pela promoção e manutenção da língua e de seu patrimônio cultural imaterial. Desde pergaminhos dos trovadores e trovadoras, os “trobadors e trobairitz”, textos de direito e medicina que influenciaram as bibliotecas do mundo todo, até as pontes com a língua portuguesa, descobrir o universo occitano pode ser um mergulho profundo nas raízes linguísticas de todos os lusófonos e ibero-romanos.

Conhecer a cultura occitana é adentrar no universo das escolas Calandretas, escolas nascidas nos anos 70, bilíngues, laicas, onde a escolarização das crianças, os “pichons” se passa em francês e em occitan. Será fácil para o publico brasileiro de navegar do site do Cirdòc, o centre inteRegional de desvolopament de l’occitan ou Centro interregional de deselvolvimento do occitan (www.locirdoc.com). Nesta midiateca encontram-se documentos para consulta física e digital, agregando mais de 1.000 anos de história. Publicações como o jornal La Setmana ou a revista Aquó d’Aquí ou também as televisões digitais Té Vè Òc ou ainda Òc tele, são bons exemplos de produções midiáticas em língua occitana.

A música possui um lugar especial com as especificidades dos cantos polifônicos ou a irmandade com a cultura brasileira no uso do acordeon e as técnicas do repente, muito próximo das cançons dos trovadores na Idade Média. E se falarmos da cultura parnaguara e suas possíveis influências occitanas no fandango, na rabeca e na percussão? A música occitana contemporânea occupa lugar importante na cena da world music, apresentando espetáculos de grande porte e de público cativo. Participando o occitan da mesma família linguística que o português, acompanhado pelo galician, catalão e espanhol, pode ser impressionante a descoberta dos laços de falas com outros povos. E por que não dizer, de códigos societários. Um acadêmico disse certo dia que tantas quantas forem as línguas que um ser humano falar, tantas possibilidades terá este ser de viver experiências humanas diferentes em uma mesma vida. A riqueza cultural da contribuição occitana para a humanidade é incomensurável. Vem descobri-a conosco!

Eu sou a Gisele Naconaski, oriunda de Curitiba e vivendo em Occitanie na França há quase 10 anos, realizei estudos em língua e cultura occitana entre os anos de 2016 e 2017. Hoje, trabalho com formação para adultos em língua occitana no CFPO – Centre de Formacion Professionala Occitan, escrevo para o jornal La Setmana e apresento o programa diário Lo Miegjournal, na ràdio Lengad’Òc de Montellier. Em parceria de difusão com as rádios occitanas Ràdio País e Ràdio Occitània, é um prazer iniciar uma parceria inédita, desta vez intercontinental, com a Rádio Cultura de Curitiba. Sejam bem-vindas e bem vindos ao Miegjournal. Plan vengudas e plan venguts. A equipe da rádio Lengad’Òc deseja a todas e todos uma boa escuta e al còp que ven!

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