Música ouvida com os olhos

JuanaDobro;

A música atual está diretamente ligada a arte da venda. Isso faz com que tenhamos artistas criados em laboratório e uma qualidade, em sua grande maioria, duvidosa, quando o assunto é cultura, ou melhor, indústria musical. Isso tudo já havia sido formulado pelos críticos na década de 40, de forma apocalíptica, quando se dizia que: “o espírito do nosso tempo é a indústria cultural e não a cultura popular ou de massa”. De lá pra cá muita coisa sofreu mudanças drásticas, buscando uniformidade, padrão comercial e modismos. Os grandes clássicos da música erudita e até mesmo popular enfraquecem e são absorvidos por uma música-produto, cujo único objetivo é ser consumida rápida e exaustivamente.

Mas nem sempre foi assim. As indústrias do fonógrafo e do gramofone nasceram no final do século XIX e já na primeira década do século XX foram registradas reproduções de discos de 78 rotações por minuto (rpm) em aparelhos domésticos. Música clássica, blues e country já eram comercializados e formavam uma indústria lucrativa, crescendo de forma exorbitante a cada década que se passava. Mas com a introdução do rádio e a crise de 29, houve uma queda, mantendo apenas as grandes empresas no mercado.  Só depois da Segunda Guerra Mundial, com o surgimento de nomes como Chuck Berry, Ray Charles e outros ícones, a indústria volta a ganhar poder e iniciava-se ali a produção de discos de 33 e 45 rpm, com formatos populares. Essa mudança também acompanhou o surgimento de outras tecnologias, como a TV, além de transformações sociais (moda, literatura e maior acesso a informação) . Foi aí que o rock avançou e com ele o estrelato de músicos como Elvis Presley, inicialmente, seguido de outros artistas e bandas, até chegar nos Beatles, que causaram uma verdadeira avalanche de vendas. O movimento Punk, nos anos 70, quebrou um pouco esse “boom” do mercado com ideais mais independentes e com a expansão de tecnologias domésticas de gravação (como as fitas cassetes).

E a evolução é contínua e acompanha todas as formas de expressão da época, incluindo as necessidades de mercado e do processo de inovação (venda e lucro). Tudo isso ganha um impacto muito significativo na década de 80, com o aparecimento de Michael Jackson. O disco Triller, de 1983, teve mais de 40 milhões de cópias vendidas e inicia-se aí uma nova era musical, focada na promoção e concentração de estratégias de negócio no artista/estrela/espetáculo. A música já não é mais apenas ouvida, mas também é vista. Essa ascensão coincide com uma geração que valoriza muito mais a imagem que qualquer outra forma de comunicação (tendência que só vem a crescer posteriormente). A literatura, a música clássica, os filmes que exigem um pouco mais de referências do público são deixados de lado. Quem teria ouvido falar em Thomas Mann? Alguém teria visto o clássico de Bette Davis onde ela interpreta uma atriz de Hollywood esquecida? Não, isso passou a ser bobagem. A cultura abre (ou fecha) seus horizontes e exalta a música pop, de fácil entendimento, transformando a arte cada vez mais em lucro.

Dali pra frente muita coisa mudou e piorou. A música comercial só foi se expandindo junto com os batimentos cardíacos enfartantes do homem moderno, que deixa de ler um livro para ver uma novela, que deixa de ouvir uma boa música para assistir um mega espetáculo midiático.

Ainda surgem depois, o disco compacto, focando em qualidade e popularidade e, na sequência o formato MP3, onde a indústria necessita se reinventar e torna-se cada vez mais volátil e universal. Hoje com o avanço da internet, o surgimento da pirataria, tudo teve que se reinventar, e há quem consiga se manter avesso à essa bomba de sucesso (inverso). Mas mesmo que os pais ou o indivíduo fujam dessa linha comercial, ele sempre saberá quem é ou apenas que existe um Wesley Safadão a cada esquina, isso se você não se deparar com seu filho cantando no chuveiro “hits” momentâneos e emburrecedores. É tenso demais.

A era Michael Jackson ainda perdura, mesmo com formatos tecnológicos diferentes e cada vez mais a publicidade sobrepõe a cultura, de forma que muitos nem diferenciam essa linha tênue tão agressiva. Vale nesse momento citar o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que dizia: “A capacidade para aguentar ruídos é inversamente proporcional à inteligência do indivíduo”.

Juana Dobro

 

 

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