“Na hora do bem bom não pensou né?!”: a difícil tarefa (ainda) de ser mãe solo na sociedade (hipócrita)

JuanaDobro;

O mês de maio foi de homenagem às mães, com chuvas de dedicatórias, fotos estratégicas e exposições nas redes sociais (para que os “outros” vejam e saibam e alimentem seu ego carente). Junto com isso vem todo aquele blablablá de que mãe é especial, mãe é uma missão divina, mãe é um ser supremo, mãe faz tudo, mãe aguenta tudo e todo mundo ama a mãe. Mas na real nada disso é assim tão lindinho quanto parece. “Você é mãe não deveria agir assim…”, esse julgamento é lembrando nos outros 364 dias, e nas tantas horas que esses dias carregam (exatamente 8736 horas). E nós mulheres somos condicionadas a aceitar, mudar e enfrentar milhares de situações, sapos e julgamentos diários porque fomos abençoadas por esse dom. Pior ainda se você for uma mãe solo, como eu. “Na hora de virar os olhinhos não pensou no perrengue né”, já ouvi isso de familiares meus diversas vezes, sem nenhum constragimento, na frente da minha própria filha. Justo? Nada é justo aqui nesse mundo em que vivemos; nessas circunstâncias infinitas, ser mãe é uma grande merda (isso não anula o amor que tenho por minha filha e toda a alegria que construimos juntas – não julgue como lhe convém).

É por isso que quero falar sobre essas féras, essas guerreiras, essas muralhas: as mães solos (não se usa mais o termo mãe solteira). A maternidade não é um estado civil e muitas mães não gostam do termo “Mãe solteira” (muito menos eu). Essa expressão é carregada de conotação negativa e lembra os tempos em que ter um filho sem ser casada era algo para se ter vergonha. Mães solo se desdobram em mil para dar conta de tudo e merecem toda a nossa empatia e respeito. Mas afinal o que é uma mãe solo? Significa que a mãe é a principal responsável pela criança, seja financeiramente ou por disponibilidade de tempo. Em resumo, não tem nada a ver com ser casada, solteira ou divorciada.

Vamos contextualizar um pouco toda essa história para chegar no ponto G da conversa e nenhum espertalhão de plantão (cagadores de regras, conservadores e ignorantes) dizer que ainda não entendeu. Apesar de apenas no século XXI termos o retrato da “mãe solo” pintado de forma preconceituosa, sabemos que essa situação de maternidade não é recente, pelo contrário, desde mesmo antes de Cristo já encontrávamos a primeira mãe solteira – que agora luta para ser denominada mãe solo – enfrentando as adversidades da situação (dentre elas ainda o preconceito, o julgo, ódio e marginalidade). Desde sempre, toda esse peso negative é empurrado para a mulher e nao para o embuste que não teve peito de assumir a responsa. Já na antiguidade é possível encontrar relatos e aspectos da maternidade solo mascaradas sob diferentes conceitos. A idéia de virgindade e de maternidade não eram diferentes na Grécia, ambas andavam juntas. A mãe-virgem era aquela que não tinha um homem, que não era casada mas concebia uma criança. É o que explica o caso das Euménides, de Ésquilo, em que Minerva diz que “qualquer homem que ela amasse, com ele nunca se casaria”. Na Grécia, chamava-se filho de virgem o filho de uma moça solteira. A mulher era considerada virgem quando não era casada. Na Bíblia, temos Agar, mulher que teve um filho com Abraão mas foi desprezada pelo homem porque este tinha uma promessa com sua mulher, Sara. Mães solo sempre existiram porque sim e homens babacas e infantis demais também, mas infelizmente ainda encontramos muitos pré-conceitos e julgamentos errados sobre esse tipo de maternidade. Ainda bem que, com a liberdade e o poder da voz, o assunto tem sido levantado corretamente por mulheres que vivem essa experiência na própria pele.

Uma pesquisa do Instituto Data Popular realizada em 2015 apontou que o Brasil tem 67 milhões de mães, sendo 20 milhões delas mães solo (31% do total). O estudo, na verdade, chama essas mulheres de “mães solteiras”. Além disso, de acordo com o IBGE enquanto as mães solo representam 26,8% das famílias com filhos, os pais solo – ou seja, o oposto – são apenas 3,6% (esses são elogiados e exaltados como mártires, por quê eles são tratados assim e nós mulheres somos inferiorizadas nessas circunstâncias?). E nessa conta não entram os números do patriarcado, em que mesmo nas famílias consideradas tradicionais – pai, mãe e filhos – o homem não assume sua responsabilidade paterna.

Para quem quiser se aprofundar um pouco mais nesse tema, recomendo imensamente o documentário do projeto “Eu Quero Ouvir Maria: Relatos de uma maternidade solo”. O projeto (documentario + livro) se propôs a ouvir o que essas mulheres que cuidam sozinhas dos filhos têm a falar, sem santificar ou crucificar, desmistificando o heroísmo da figura materna e devolvendo a humanidade que muitas vezes lhe é retirada. Confiram na internet que está disponível “de grátis”.

“Ficou grávida porque quis”.  Qual a mãe que no auge de qualquer dificuldade não ouviu essa grande bosta? Me poupem. Acançamos no tempo mas não avançamos nos dedos apontados para quem parece mais fraco (ou cansada) nessa sociedade invertida. Ninguem nesse mundo escolhe se ferrar não é? Chega desse julgamento chulo que deveria ser bem contrário. Quanto a nós, mães, mulheres, que mesmo acompanhadas de um homem geralmente carregamos tudo sozinhas na maternidade, eu lhes peço: está na hora de rompermos nosso silêncio e mostrar a força que adquirimos em nossas experiências diárias. Nós temos muito para falar e ninguém deve nos calar. Nós queremos espaço, trabalho e respeito. Vamos tirar esse peso da gente. Ser mãe não significa que devemos vestir capas de mulher maravilha e enfrentar os problemas do mundo, também não significa nos anular a nada. Vamos voltar a ser gente e vamos exigir ser tratadas como gente (por favor né?). Nem putas, nem santas, nem mães, nem solteiras, nem o caralhoaquatro. Só gente, e melhores que muita gente (com certeza). Dá licença que eu quero passar (por cima desse mundo ignorante). Xô embuste!

 

Juana Dobro

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