NÃO, SEU FILHO NÃO FAZ ISSO

GuilhermeZawa;

A arte pode parecer uma coisa simples, mas não é.

 

Tem acontecido cada vez mais no Brasil tão artístico um certo torcer de nariz para a arte como um fazer profissional sério.

Outro dia mesmo me falaram que não entendiam o porquê da arte soar tão complicada às vezes e a minha resposta foi: “Por que isso não soaria complicado quando se trata de uma questão complexa?”. Quando dou aula de arte é claro que falo de maneira simplificada, mas quando eu falo com colegas artistas elevamos a  conversa à outros patamares. É a mesma coisa com meu cardiologista. Ele simplifica a coisa para mim, mas quando fala com seus pares soa complicado pacas. O que dizer então de dois físicos quânticos conversando?

Há um certo medo da arte conceitual que é alimentado por uma falta de compreensão sobre os elementos simbólicos do viver.

Há muito cartesianismo no ar nos últimos tempos. Não há espaço para a perplexidade e para o ainda não visto. Tudo tem que ter utilidade imediata. Tudo tem que se encaixar no sistema econômico.

Noutra vez entrei em debate com professores de uma instituição de ensino famosa de São Paulo que defendiam que toda a arte boa é somente a arte que vende e que os teatros e as instituições de arte deveriam dar apenas ao povo aquilo que ele quer. Na mesma hora fiz coro à eles: “Ok então, corta a ópera, o ballet e a música clássica, e manda ver o Tiririca cantando com a Melody do Falsete fazendo a dança do peru, pois é isso que o povo quer”. Aliás, quando o Teatro Guaíra de Curitiba, lar do ballet e da orquestra da cidade, esteve no leito de morte o comentário geral nas redes sociais era coisas do tipo “já vai tarde”, “arte não serve pra nada”, “tudo mamador da teta do governo”.

O motivo para tar urrada é a mesma, e vale para o troll da internet e o acadêmico das altas classes: brasileiro médio não entende porcaria nenhuma de arte e ponto final.

A arte nunca é entendida como um profissão como qualquer outra. Aqui “artista” é quase um título como a palavra “doutor”. É algo que alguém te dá e não algo que você faz por mérito. Mas espera, que a classe artística também não ajuda. Muito artista ainda acredita que a arte provém de um raio divino que faz inspirar. Ou de uma viagem de drogas. Ou de superpoderes criativos. Particularmente acho isso uma vulgarização da arte, um barateamento dos seus processos que passam a custar somente um baseado de maconha, uma carreira de pó ou uma tarde inspiradora.

A arte não poderia estar mais longe disso. Ela é em verdade algo que está mais para a ciência mesmo, pois artistas tensionam as cordas da vida com muita curiosidade e um fazer cotidiano feito de escolhas e não de uma vivência presa na pré-definição da cultura já estabelecida.

De certa maneira ciência e arte fazem a humanidade avançar através de uma postura propositiva que se enxerga parte integrante da construção da humanidade ao entender que as certezas são como pedras resvalantes nas quais não é possível se apoiar com muita firmeza e que na verdade o motor que faz mover o mundo é um só: a dúvida.

A dúvida guarda em si mesma a potencialidade de um mecanismo de movimento induzido pela curiosidade capaz de menear processos mentais cognitivos à lugares nunca antes visitados. Estes lugares ainda não desbravados podem ser apenas idealizações, por isso, tal sistema requer método para seu funcionamento assim como o impulso que coloca tudo em prática requer o ato de desejar estar em movimento.

O método precisa de tensão que se oponha à sensação de término ou de não necessidade de demais avanços para determinar um vértice contínuo que aponte para o desejo de avançar e que ainda permita a instauração de práticas que verifiquem e balizem os passos dados durante o caminho, a saber: apresentação proposital  e sistemática de hipóteses diante do objeto da curiosidade, em outras palavras, tentativa e erro.

O desejo por sua vez precisa ser observado naquilo que o faz

ser contínuo, apaixonante, quase obcecado. O que costuma ser encontrado através da visitação em memórias afetivas da infância, quando dispúnhamos de muito tempo livre e muita vontade de fazer o que dava na telha. Outra maneira também é o da autopercepção de assuntos que nos tocam o mais profundo âmago e que nos movimentam pela vida. Nessas horas a arte ganha espécie de função, sem sentido pleno, para ampliar tais questões e torná-las universais.

Quando se produz pensamento artístico se está apto a construir pensamento científico, quando não se respeita a ciência, provavelmente não se respeita a arte, posto que é preciso preparo para se haver com o menos material da vida.

Há aquela famosa frase dita durante os primeiro anos da revolução da colônia americana contra o império inglês que vai assim: “Sou um soldado, para que meu filho seja um fazendeiro e o filho dele um poeta”. Ou seja, depois que a guerra acabou, a barriga está cheia e as coisas organizadas, é hora de falar do que realmente importa.

E isso tudo é como operam os artistas. É preciso ser profissional, ter foco, uma paixão que faz mover, um processo cotidiano de pesquisa contínua e a capacidade de suportar muita aridez do processo e a frustração de um montão de erros necessários para se chegar em qualquer lugar.

Então, quando alguém se vê diante de uma obra de Picasso e diz, “ah, até meu filho faz esse rabisco”, é porque não entende de verdade o que arte e ser artista significa.

Não, seu filho(a) não faz isso. Por que? Pois ele(a) não é capaz de forjar um conjunto de hipóteses propositalmente apresentado à um objeto de inquisição pessoal meneada pela paixão propositiva e resiliente à grandes doses de frustração advindas do processo contínuo que se transforma em conhecimento tácito que requer coragem para o processamento das novas descobertas. Simples.

Texto e imagem: Guilherme Zawa