Nélio Waldy. Quando os caminhos se encontram de novo


Disco do veterano é um precioso registro de canções inesquecíveis e um poderio pop acima de qualquer suspeita

 

Depois de muitas voltas no globo

Os caminhos se encontram de novo

Para seguir em frente e mudar pra melhor

Cicatrizes deixam o coração mais forte

Eles fazem parte sim, dessa grande ilusão

Que é viver

Por isso gosto de você desse jeito

Sem tirar nem pôr, todos seus defeitos

(Nélio Waldy, Gosto de Você)

Foi no auditório Bento Mossurunga, do Colégio Estadual em 1984. Contávamos 16 anos de idade e “ia ter um show de rock no teatro”. Parecia um milagre. Vivíamos a tensão da possibilidade de aprovação das Diretas Já. O país fervia em passeatas e comícios de milhões. A tensão se estendia a tudo quanto instituição de ensino tida como estratégica. Era o caso do maior colégio da América Latina, onde faríamos o papel de secundaristas em fúria que toda sociedade em mutação tem em seu elenco diverso.

Naquele tempo em que a ditadura agonizava a olhos vistos, a polícia ainda frequentava o pátio do velho Estadual, onde nos reuníamos para além dos intervalos, quando não estávamos na escolinha de artes. Em busca de conspiração, a repressão nada encontrava. Mas era conspiração o que havia em cada centímetro quadrado. O trânsito dentro do colégio, entretanto, era livre. Foi o Beto Freire, o Betão — que não era aluno — quem apareceu com a notícia do show. Ele era o baterista.  Nós piramos.

Mais que o show, houve dispensa das aulas noturnas para o povo assistir ao rock. O saudoso professor Eraldo Graeml, um democrata cristão simpático à causa estudantil vigente, cuidou para que a polícia ficasse para o lado de fora dos muros escolares.

O que vimos foi o Sinal Verde. Grupo formado por Carlos Alberto Lins, o Kiko, aos teclados e vozes; Nelio Waldy, o Nelinho, guitarra e voz; Fabio Machado o Fabiets, baixo, Betão na bateria e a charmosa Dani nos backing vocals.

Já afeito ao rock, minhas experiências com bandas de guitarras elétricas se resumiam aos bailes de carnaval em Nova Fátima no norte do Paraná e no ginásio Athletico, além de covers habituais pela cidade. Nunca uma banda autoral, tocando suas próprias composições.

Foi encantamento instantâneo. Conhecido do baterista, nos tornamos amigos da banda toda, e futuramente parceiros. Carlos A. Lins veio se juntar a meu grupo de rock em 2004. Mas o caso aqui é o disco do Nelinho. Parido em 2019.

Nelio Waldy inicia carreira de músico já em 1978, quando junto a Marquinhos Zeppelin reunia pequenas multidões nos parques da cidade, em uma espécie de Simon & Garfunkel dos pinheirais. Integra e lidera diversos grupos, como o citado Sinal Verde e a Banda Dharma, até a Flor da Pele, em 1989, depois Os Ilegais, com os integrantes Fábio e Alberto do SV. Daí foram quase duas décadas e meia de silêncio autoral, até o álbum autointitulado Nelio Waldy vir à tona. Com composições de todos os tempos de sua longa trajetória.

Mais que importante, especialmente necessário o registro deste artista que participou de praticamente todas as fases da música produzida no Paraná. O álbum se encontra disponível em todas as plataformas, e também em formato CD. O lançamento aconteceu em memorável show no teatro Fernanda Montenegro em dezembro de 2019.

A canção Gosto de Você, que abre o álbum, dá o recado que inspira e traduz o espírito deste momento que o mundo vive. Que não é o primeiro nem será o último. Além da conta, o disco traz canções de um poderoso sabor pop, que não poderia faltar a um artista tão prolífico.

Sendo o primeiro mas não o último, Nelinho já promete outro disco, desta feita em vinil. Os caminhos se encontraram de novo. Longa vida a Nelio Waldy e seus (nossos) parceiros.

Fotos: divulgação/Julio Garrido

Ouça Nelio Waldy (2019): https://open.spotify.com/artist/4qtM8PSNkdxKlv0v78HHJ9?si=52qceCq9TvmY4lv9cGgPIA